Arquivo de Imagem dos Açores
História do Cinema nos Açores
Natural de Vila Nova, Praia da Vitória, Ilha Terceira, Açores.
Licenciatura em História, na Faculdade de Letras de Lisboa, 1979.
Mestrado em História dos séculos XIX e XX, na Universidade Nova de Lisboa, 1993.
Professor efectivo do ensino secundário, exerceu também a docência na Universidade Eduardo Mondlane, Maputo, de 1981-1984, e na Universidade Aberta, em Lisboa, de 1996-2003.
Orientador Pedagógico do Ramo Educacional do Departamento de História da Faculdade de Letras de Lisboa, 1988-89.
PRINCIPAIS TRABALHOS PUBLICADOS:
(1978b) Que futuro para os Açores ?, co-autor, Editorial Caminho,Temas Políticos e Sociais, nº 35, Lisboa, 123 p.
(1979) "O Partido Socialista nos Açores (1913-15)", Revista História e Sociedade, nº 2/3, Janeiro, Lisboa, pp. 55-66.
(1980) As Danças do Entrudo ( Teatro Popular da Ilha Terceira), Editorial Ilhas, Lisboa, 84 p.
(1982) " Açores: a resistência popular a Filipe II", Revista História e Sociedade, nº 10, Dezembro, Lisboa, pp. 82-101
(1989) "O carnaval angrense no primeiro terço do século XX", Boletim do Instituto Histórico da Ilha Terceira, vol. XLVII, Angra do Heroísmo, pp. 291-365.
(1992) “Subsídios para a História do cinema nos Açores”, Videoteca RTP/Açores, Ponta Delgada, 31 p..
(1993)" Ponta Delgada: o movimento de contestação à política do Estado Novo, em 1932-33", Actas do III Colóquio Internacional realizado em Angra do Heroísmo, em 1990, Boletim do Instituto Histórico da Ilha Terceira, Vol. XLVIII, Angra do Heroísmo, pp. 507-536.
(1994a) A economia açoriana entre as duas guerras mundiais, Edições Salamandra, Lisboa, 276 p.
(1995a) "A construção da unidade e identidade regional", in A Autonomia no Plano Histórico, vol. I, Actas do Congresso do I Centenário da Autonomia dos Açores, Jornal de Cultura, Ponta Delgada, pp. 289-305.
(1995b) Luis da Silva Ribeiro, Obras IV, Escritos político-administrativos, Organização e estudo introdutório, Instituto Histórico da Ilha Terceira, Angra do Heroísmo, 300 p.
(1996a) A Casa dos Açores em Lisboa, Lisboa, Edição da Casa dos Açores. 159p.
(1996b) “As Festas do Espírito Santo nos Açores, razões para a sua permanência e causas da decadência”, in Ler História, nº 31, ISCTE, Lisboa, pp. 145-55.
(1997) “A economia açoriana no Estado Novo”, in Pensar os Açores Hoje, Actas do Colóquio organizado pelo Forum Açoriano, Ponta Delgada, pp. 19-32.
(1998b) O Carnaval na Vila Nova, Edições Salamandra, Lisboa, 56 p..
(2000) “ A Resistência popular terceirense a Filipe II”, in Discursos, Língua, Cultura e Sociedade, III Série, nº 2, Centro de Estudos Históricos Interdisciplinares, Universidade Aberta, Lisboa, p 157-81.
(2001) A Memória Liberal na Ilha Terceira, Lisboa, Edições Salamandra, 184 p..
Colaborador da Enciclopédia Açoriana, a publicar pelo Centro de Estudos dos Povos e Culturas de Expressão Portuguesa, da Universidade Católica Portuguesa.
Colaborador do Dicionário de Educadores Portugueses, Instituto de Inovação Educacional, Lisboa 2003.
A partir de 1890, registaram-se progressos tecnológicos que permitiram grandes saltos qualitativos na evolução do cinema. Morey apresentou à Academia de Ciências, em França, imagens registadas em celulóide; em 1891, Edison registou a patente do “Kinesteoscópio”, usando já rolos de filme com perfuração; no ano seguinte, Émile Raynaud utilizou a lanterna mágica no “teatro óptico” e, em 1895, os irmãos Lumière exibiram um aparelho que permitia a filmagem e a projecção. Através deles, teve lugar a primeira sessão pública na Europa, nas caves do Grand Café.
Desde então, o cinema galgou rapidamente todas as fronteiras e Portugal assistiu à inauguração do animatógrafo no ano de 1896.
A Divulgação do Cinema nos Açores
A descontinuidade geográfica nem sempre é sinónimo de isolamento e afastamento dos progressos da humanidade. As cidades açorianas terão sido das primeiras do país a presenciar a novidade da época. Em 1897, João Anacleto Rodrigues realizou uma viagem pelas três capitais de distrito para apresentar várias sessões. A partir de 31 de Agosto, ocorreram as primeiras projecções no Teatro Angrense, que se repetiram a 16 de Setembro, no Teatro União Fayalense, e a 9 de Outubro, no Teatro Micaelense.
A imprensa local, que já tinha noticiado a invenção do norte-americano Edison e feito referência às primeiras sessões dos irmãos Lumière, divulgou o evento nas suas páginas. Razões múltiplas não atraíram os espectadores às primeiras projecções, com destaque para o preço elevado dos bilhetes. Na Horta, por exemplo, as entradas para as primeiras sessões foram pagas a $500 Réis – o correspondente ao salário diário médio de um artífice – baixando depois para metade do preço, devido à fraca afluência. Acresce ainda o facto de se terem realizado na época estival, com muita gente a veranear fora das cidades, e o medo da assistência em enfrentar essa “máquina diabólica", receosa dos perigos de incêndio nas salas.
Cada espectáculo durava aproximadamente uma hora, com a projecção de 12 quadros, acompanhados por uma orquestra. Com o objectivo de atrair o público, eram projectados quadros diferentes nas várias sessões, mas alguns deles, pela sua popularidade, bisavam diariamente.
Este cruzeiro do animatógrafo pelas cidades açorianas iniciou o contacto com as novas tecnologias da comunicação que tiveram continuidade e expansão nos centros urbanos. No mesmo ano de 1897, António Manuel Estrela e um irmão, micaelenses, adquiriram uma máquina de projecção que foi utilizada em algumas sessões em Ponta Delgada, ao som de variações de clarinete. Nos finais de 1902, Porfírio Bessone estreou na mesma cidade o seu Animatógrafo-Biógrafo, deslocando-se, no ano seguinte, a Angra. Pela primeira vez, as salas de espectáculos foram iluminadas por arco voltaico e numerosas lâmpadas incandescentes. O animatógrafo era accionado por um motor a petróleo e o projector era um “Lumière & Fils”.
O programa, com temáticas bastante variadas, constava de duas partes e era acompanhado por uma pequena orquestra:
Corrida de automóveis
O mar nos rochedos
Batalha de travesseiros
O clouwn e o macaco
Bailados Hespanhois
Um incêndio
Tourada em Sevilha
Cantores ambulantes
Comida aos cães
Dança Serpentina
Lançamento de um navio ao mar
Regimento que passa
Minuete Luís XV
A visita do major
Guerra do Transvaal
Estes primeiros anos de vida do animatógrafo nos Açores caracterizaram-se por uma série de deficiências técnicas e irregularidade na apresentação dos espectáculos, na medida em que dependiam das deslocações dos técnicos do continente. O ano de 1908 marcou o início de uma fase de melhoria da qualidade e da regularidade das sessões. A nível da região, deu-se um salto qualitativo com a aquisição de várias máquinas e apetrechos complementares: Manuel Estrela mandou vir da América para Ponta Delgada um “vidro cinematográfico” e a empresa Santos & Cª estreou o seu cinematógrafo no Salão Edison, na mesma cidade. Neste ano exibiu a primeira longa-metragem, A Vida de Cristo, com 1.250 metros, e, no ano seguinte, O Conde de Monte Cristo.
Com a aquisição de novos aparelhos, os empresários limitavam-se a mandar vir de Lisboa as fitas para serem exibidas, podendo assim apresentar sessões semanais nas salas de espectáculo ou ao ar livre. Este processo contribuiu para baixar os custos de exibição, tornando o cinema acessível a vastas camadas da população. Em 1908, as entradas eram consideradas bastante acessíveis, em Ponta Delgada, e variavam entre os $60 e os $125 Réis.
Duas Fases Distintas da Expansão
A expansão do cinema nos Açores passou por duas fases distintas: até finais da II Guerra Mundial, o fenómeno era essencialmente urbano; só a partir de então se estendeu com regularidade aos meios rurais, com especial incidência na década de 60. Se nalgumas freguesias se continuaram a fazer projecções ao ar livre, noutras foram surgindo sociedades recreativas com sessões semanais.
Em São Miguel, na década de 20, para além das sessões nas salas da cidade (Coliseu Avenida e Salão Teatro Ideal), na Praça Velha e no campo de jogos do Liceu, havia espectáculos frequentes no Salão Orion, em Vila Franca do Campo, e no Teatro Ribeira-Grandense. Na década seguinte, as salas de cinema continuaram a expandir-se: Cinema Central, na Fajã de Baixo (1932), esplanada do Cinema Popular, Fajã de Cima (1933 e remodelada em 1966); Yo-Yo Cinema, em Vila Franca do Campo (1933); esplanada do Cine Teatro Marítimo (1937); Salão das Laranjeiras (1937); Teatro Rival das Musas (1937); Teatro Vilafranquense (1939 e remodelado em 1966); Teatro Recreio Capelense; Teatro Amaral, na Lagoa, e Salão Cinematográfico, na Povoação e Furnas. Muito populares eram as sessões no jardim António Borges, explorado nos anos 30, por Pedro Lima Araújo. O espaço foi adaptado para vários tipos de espectáculos e podia albergar 400 pessoas sentadas e 200 peões. Na mesma altura, a empresa do Coliseu utilizava o Club União Sportiva para espectáculos ao ar livre, com um espaço para cerca de 800 espectadores.
Manuel Amaral de Mendonça foi um dos grandes divulgadores do cinema em toda a ilha. Tendo começado como aprendiz do cinematógrafo, nas Furnas, acabou por se dedicar à exploração, após o seu regresso do continente americano. Promoveu sessões nos meios rurais, no Cine Marítimo, depois Cine São Pedro, e também no Jardim António Borges. Em 1957, construiu o Cine Vale Formoso, nas Furnas, o Cine Esperança, em 1960, em São Roque, o Cine Vitória, em 1962, em Ponta Delgada, arrendou o Teatro Ribeiragrandense, entre 1962-1985, e comprou o Cine Solar, em Ponta Delgada, em 1963. Paralelamente, ia dotando as suas salas com modernas tecnologias. Nos anos 80 e 90, algumas delas fecharam, mas a família manteve em funcionamento o Cine Vitória e o Cine São Pedro, que foi remodelado recentemente.
De igual modo, José Peixoto de Oliveira e o filho, Humberto Oliveira, se dedicaram à divulgação do cinema. Nos anos 50, o pai abriu a Esplanada Peixoto, transformada no Cine Peixoto. O espólio da família foi entregue à Casa da Cultura da Ribeira Grande.
Por iniciativa particular ou das populações abriram outras salas: Cine Teatro Açor, Capelas (1961); Cine Popular, Fajã de Cima (1966); Cine Teatro Ferreira da Silva, Água de Pau (1968); Cinema Danúbio Azul, Fajã de Baixo (1951); Cine Teatro São Sebastião, Rabo de Peixe (1959).
Para além dos nomes referidos, a distribuição de filmes foi assegurada por outros empresários: Martins & Barbosa; Santos & Vasconcelos, que nos anos 20 e 30 também estenderam a sua actividade a Angra e Horta, e posteriormente por Santos Figueira e Eduardo Mendonça.
Na Terceira, projectavam-se sessões regulares em Angra, em recintos abertos ou fechados, nomeadamente, no Teatro Angrense, na Cerca dos Recreios (a que se juntou uma sala, a partir de 1945) e na Praça de São João; na Praia da Vitória, começou no Salão Teatro Praiense, aos Domingos, a partir de 1928. Nos anos 50/60 fundaram-se sociedades recreativas nas freguesias rurais de São Sebastião, Agualva, Vila Nova, Biscoitos (duas), Fontinhas, Lajes (duas), Fonte do Bastardo, Porto Judeu (duas), Ribeirinha, Terra Chã, São Mateus e Altares. A Fanfarra Operária, em Angra, iniciou as sessões em 1963.
Na Terceira, a distribuição esteve no início a cargo de empresários micaelenses, da empresa Franco e Garcia, da Foto Cinema Açores, sendo assegurada, depois da II Guerra Mundial, pela Recreio dos Artistas e por Marcelo Pamplona. Este empresário explorava o cinema no Teatro Angrense, mas em 1961 adquiriu todas as acções da empresa. Foi proprietário do Teatro até 1985, altura em que passou para a posse da Câmara Municipal de Angra.
No Faial, na cidade da Horta, havia sessões regulares desde 1909, no Teatro Faialense, cujo cinematógrafo pertencia a Jacinto Nunes, bem como no Salão Éden. Na freguesia dos Cedros, em 1929, foi instalada uma máquina adquirida pela Câmara Municipal para facultar sessões educativas às crianças das escolas. As sessões ao ar livre tinham lugar no Sporting Clube da Horta, a partir de 1926, com alguma irregularidade; no Fayal Sport Clube (1943); na esplanada do castelo de Santa Cruz, na do Clube Naval e na do Angústias Atlético Clube, no início da década de 50. Se nos primórdios a distribuição era assegurada por empresários micaelenses, a partir dos anos 50 António Alexandre de Simas foi o responsável pela distribuição de filmes a nível do distrito. Não só se encarregou do circuito programado pela FNAT como também de filmes que encomendava à firma Castelo Lopes. A sua actividade prolongou-se até aos anos 70.
Para as restantes ilhas, refira-se a estreia do animatógrafo, em S. Mateus, do Pico, em 1924, propriedade de um francês; no Cais do Pico, em 1927, e nas Lajes, em 1931. Em S. Jorge, a empresa Santos e Amorim anunciava sessões de cinema todos os Domingos e feriados especiais, no Grémio Calhetense, no início de 1928. Na Graciosa, a primeira sessão do animatógrafo ocorreu em 1909, mas só a partir dos anos 50 teve sessões regulares. Nas Flores a companhia cinematográfica florentina adquiriu as fitas de maior sucesso em 1915, mas só a partir de 1934 se projectaram filmes com alguma regularidade no Teatro Gil Vicente, em Santa Cruz. Nos anos 50, o emigrante José Salvador, trouxe dos Estados Unidos um motor e várias fitas que foram exibidas nas freguesias rurais. A inauguração do Cine-Jardim, em 1959, alargou o leque da oferta. Em Santa Maria, com a abertura do Cine Mariense, em 1943, e do Cine Aeroporto, em 1946, ocorreram sessões regulares. No Corvo, embora não houvesse sala apropriada, chegaram a projectar-se filmes na casa do Espírito Santo, vindos da América.
A Influência do Cinema no Quotidiano
A partir da década de 20, ultrapassadas as deficiências técnicas iniciais, os filmes apresentavam não só melhor qualidade mas também uma grande diversidade. O cinema começou a integrar a vida quotidiana dos espaços urbanos, originando discussões apaixonadas que saltaram para a imprensa. Os periódicos passaram a incluir artigos de formação e de divulgação do cinema, criando-se alguns periódicos que se debruçavam exclusivamente sobre a 7ª Arte.
Com o objectivo de divulgar uma mais ampla informação, os cinéfilos publicaram algumas revistas que complementavam as notícias dispersas nos jornais. Em Angra, surgiu a revista Cinema, em 1928, e o Ecran, em 1931; em Ponta Delgada, em 1929, apareceram a Cinetea, a Cine-Jornal, distribuída gratuitamente pela empresa Santos e Vasconcelos, e a Cine-Micaelense, editada pela empresa Martins e Barbosa; na Horta, publicou-se a revista Cinema, em 1931. Todas estas revistas tiveram uma vida efémera, mas foram um contributo importante para a divulgação de informações sobre aspectos técnicos da produção cinematográfica, de biografias dos grandes artistas, acompanhadas com fotografias, bem como comentários às várias películas em exibição ou a exibir. Como forma de cativar o público para uma leitura mais atenta, algumas promoviam concursos, com a atribuição de prémios.
Paralelamente, as revistas desempenharam um papel importante na formação cívica e na organização dos próprios espectáculos. Um dos aspectos que mais preocupava “os verdadeiros cinéfilos” era a presença dos “desinteressados e curiosos” nas sessões, comportando-se como se estivessem num “regabofe de sertão africano”. Para além dos risos despropositados e estrepitantes, do desassossego constante nas cadeiras, motivado muitas vezes pela abundância de pulgas, o barulho provocado pelo trincar da fava e do amendoim deixava dúvidas se estavam “na sala de cinema ou nalgum moinho”. As críticas frequentes a estes comportamentos originaram diversas intervenções policiais e várias prisões que, segundo a imprensa, deram bons resultados.
O não cumprimento das regras “mínimas de boa educação” podia ser incómodo para alguns espectadores, mas uma das grandes preocupações em alterar o ambiente dentro das salas visava impedir uma degradação da imagem da própria sociedade. O Diário dos Açores (10-11-1928), por exemplo, criticava o comportamento intolerável de alguns indivíduos que “n´uma sociedade que se pretende civilizada, só nos pode comprometer ante continentais e estrangeiros que assistem aos espectáculos”.
A moda feminina, por outras razões, também foi alvo de alguns protestos, devido ao excesso e amplitude de chapéus que dificultavam a visão. A partir de 1909, nalgumas salas instalaram-se gabinetes para colocar os chapéus.
Os grupos musicais, que acompanhavam as sessões de cinema mudo, também foram alvo de muitas críticas: em cenas sentimentais executavam Foxes e One Steps, e em cenas alegres optavam por Tangos e peças sentimentais. Por outro lado, o reportório repetia-se, monotonamente, ao longo de vários espectáculos, o que acabava por originar pateadas e assobiadelas. Como forma de ultrapassar os desajustamentos, propunha-se que os chefes de orquestra visassem antecipadamente os filmes e adaptassem as peças musicais aos mesmos.
A partir de 1931, o problema resolveu-se naturalmente com o aparecimento do cinema sonoro. A exibição de O louco Cantor, em 28 de Março, em Ponta Delgada, obteve um êxito extraordinário, repetido noutras ilhas. A partir de então, o cinema mudo foi desaparecendo e os empresários começaram a adquirir novas e modernas máquinas para projecção de cinema sonoro que foi cativando novos adeptos.
Alguns dados Estatísticos
Os dados estatísticos disponíveis por distrito, apesar de não contabilizarem sessões ao ar livre e outras de realização esporádica, apontam para um grande crescimento na década de 60 e um declínio a partir da implantação da Rádio Televisão Portuguesa/Açores (RTP/Açores).
Recintos para a realização de espectáculos, por distritos

A um maior número de recintos correspondeu, logicamente, um maior número de espectáculos, mas constata-se uma quebra acentuada no final da década de 70.
Número de espectáculos nos diversos recintos

Mas se a quantidade de espectáculos ainda se manteve superior à do início dos nos 60, em termos de espectadores a redução foi mais drástica: em 1982, estava-se praticamente ao nível dos anos 40.
Número de espectadores, nos três distritos

Como se referiu, o fenómeno relaciona-se com a concorrência da RTP/Açores e à proliferação dos clubes de vídeo pelo arquipélago. Só em Ponta Delgada foi possível manter em funcionamento várias salas com sessões diárias, porque em muitas outras ilhas só muito esporadicamente se realizam ciclos de cinema, por iniciativa de organismos culturais com apoio oficial.
Documentários Cinematográficos Sobre os Açores
Partindo do levantamento feito na imprensa e dum roteiro fílmico sobre o arquipélago, da autoria de José de Matos-Cruz, é possível traçar uma panorâmica, embora incompleta, da presença açoriana no cinema.
Tudo indica que as primeiras filmagens feitas nos Açores ocorreram com a viagem do rei D. Carlos, em 1901. Posteriormente, aparece um documentário de 1912 e referências a imagens recolhidas em 1924, a 13 de Outubro, pelo Zepellin Z.R.S., que sobrevoou a Terceira. Mas foi a partir dos anos 20 que o arquipélago atraiu a atenção dos realizadores. A primeira grande iniciativa concretizou-se com a chamada “Visita dos Intelectuais”, em que um grupo de personalidades do continente percorreu as ilhas, em 1924. Nessa ocasião, uma empresa micaelense contratou o operador cinematográfico Charles Millet para fazer um filme sobre o arquipélago. Embora se desconheça o original, a imprensa refere que colheu imagens das festas do Senhor Santo Cristo e de alguns aspectos pitorescos, dedicando a maior parte do seu trabalho à cobertura da referida visita. Esta terá sido a primeira grande produção abarcando várias ilhas e foi exibida no arquipélago, em 1930. Este projecto integrou-se na campanha de propaganda turística da região e teve continuidade com a criação da Sociedade Terra Nostra que financiou outros do mesmo cariz.
Os resultados dessa campanha nem sempre terão sido os melhores. Em 1929, ao ser exibido em Angra o documentário Pátria Amada, cujo realizador não foi referido, o jornal A Cidade (6-10-1929) criticava o péssimo serviço prestado às ilhas: “Mais de uma vez temos dito que o perigo grave que ameaça a propaganda açoriana é o exagero, o defeito de visão que faz encarar como a última palavra do bom e do bonito tudo o que é nosso. Esse exagero, essa hipertrofia dos olhos e do entendimento só pode prejudicar-nos.” O articulista desmonta alguns aspectos dessa megalomania: “uma ultra modesta marcenaria, instalada num pequeno e miserável casebre que parece ter sofrido um incêndio, de onde saem sete ou oito operários e meia dúzia de cacos”, é apresentada como “uma grande oficina, uma verdadeira fábrica de mobiliário” ou ainda “os modestos guindastes da doca de Ponta Delgada, brinquedos de criança ao pé de um vulgar guindaste de qualquer grande porto”.
Apesar de todas estas contradições, criou-se uma dinâmica que acabou por cativar alguns fotógrafos açorianos que se lançaram na aventura do cinema. No presente conhece-se um filme de carácter familiar, feito em São Miguel, em 1924, cujo autor se desconhece. Mas o primeiro filme açoriano, como o baptizou a imprensa, com o objectivo de ser exibido em público, surgiu por iniciativa da empresa Foto-Cinema Açores, realizado pelo terceirense António Luís Lourenço da Costa, mais conhecido por fotógrafo Lourenço. A fita, denominada Documentário Terceirense, com cerca de mil metros e 42.000 fotografias, foi apresentada em Angra a 8 de Setembro de 1927, em sessão de gala, por Teotónio Machado Pires, secundado por palavras do prelado D. António Augusto de Castro Meireles.
O documentário era composto por 19 quadros, com os seguintes títulos:
- Sua Excelência Rev.ma o Sr. D. António de C. Meireles, Bispo de Angra
- Paisagens e edifícios públicos de Angra
- Os membros dos directórios dos partidos políticos que se encontram detidos em Angra
- Os deportados constitucionais em Angra
- Castelo de São João Baptista
- Festa comemorativa da Batalha de La Lys
- Festas do Espírito Santo
- Um casamento elegante
- A visita dos estudantes de Medicina, do Porto
- A praia de banhos do Fanal
- Mercados angrenses
- A esquadra alemã
- As festas da Realeza de Cristo e a bênção de S. Excelência Rev.ma sobre as nove ilhas do arquipélago
- Procissão do Carmo
- Encontros de Foot-ball
- O Porto de Pipas
- Exercícios de ginástica no Sporting Club
- Carnaval de 1927 – aspectos de rua
- O último ciclone
Embora tivessem sido apontadas ”deficiências de nitidez e precisão, devidas unicamente à imperfeição do material técnico”, o acontecimento foi elogiado como “a afirmação alta de que nos Açores com elementos nossos se pode trabalhar pela cinematografia para o engrandecimento destas terras lindas” (A União, 9-9-1927). Para isso, defendeu-se a organização de uma grande empresa açoriana que pudesse adquirir material moderno. A ideia acabou por originar a expansão da Foto-Cinema Açores, com sede em Angra, alargando o seu capital social para 600 contos. O projecto beneficiou do apoio de accionistas de outras ilhas e de açorianos residentes no continente. Mas os grandes projectos arquitectados acabaram por não se concretizar, tendo comprado apenas, em França, um máquina, Câmara Clair, “o que há de mais aperfeiçoado e completo, o melhor até hoje conhecido”. A actividade limitou-se ao apoio a uns documentários feitos por António José Leite sobre As Festas Comemorativas do 11 de Agosto, na Praia da Vitória, em 1929. Para a mesma altura, existem referências a outros documentários da autoria de Raul Cruz.
O Documentário Terceirense, embora truncado, foi recentemente recuperado e editado em DVD pela Direcção Regional de Cultura/Museu de Angra do Heroísmo. Foi também inserido no mesmo DVD um outro pequeno documentário, da autoria do fotógrafo Lourenço, Uma tourada à corda nas Doze Ribeiras, e umas imagens da Revolta dos Deportados em Angra, em 1931, provavelmente da autoria do mesmo fotógrafo.
Em Ponta Delgada, a imprensa noticiava em 1929, que Jacinto Óscar Dias Rego e Jacinto Ribeiro estavam filmando alguns aspectos da cidade para uma casa continental. Mas no ano seguinte, Jacinto Óscar Dias Rego, fotógrafo como os anteriores, fundou a Toste Filme. Neste ano, estreou o “primeiro filme exclusivamente micaelense", com 700 metros, composto por um documentário e um cine-jornal, cujos quadros eram precedidos de legendas organizadas por Agnelo Casimiro. Era composto por duas partes que apresentavam paisagens micaelenses e acontecimentos regionais: Derrocada da quebrada das Capelas, Romaria da Boa Nova, Incêndio numa serraria, Exposição realizada pelos escuteiros no Campo Açores, etc. Para 1932, estão registados mais dois documentários da sua autoria: O Sismo de 5 de Agosto em São Miguel e Paisagem Açoriana.
Em 1942, a imprensa refere um documentário, sem título, de Vasconcelos Arruda sobre São Miguel, apresentado na Casa dos Açores, em Lisboa.
A presença de estrangeiros no arquipélago, nos cabos submarinos e nas instalações militares, contribuiu também para a produção de vários filmes. Registe-se uma referência a dois documentários da autoria de Max Bruening, em 1928: O Desembarque do Delegado Especial do Governo e uma Batalha de Flores, ambos realizados na Horta.
A partir da década de 20, multiplicaram-se os documentários relacionados com os Açores. Uma boa parte divulga imagens da paisagem e dos costumes regionais numa perspectiva de propaganda turística, para divulgação no país e no estrangeiro. Os acontecimentos políticos estiveram presentes de uma forma sistematizada após a viagem do presidente da República, Óscar Carmona, em 1941, a que se seguiram outras individualidades. Os filmes de carácter científico iniciaram-se com a erupção do vulcão dos Capelinhos, e a ficção deu os primeiros passos com a adaptação da obra de Cortes-Rodrigues, Quando o mar galgou a terra. Neste campo, destaque-se o trabalho mais recente de José Medeiros, com o recurso a actores da região, concretizando-se assim o grande sonho dos anos 20, em que a Foto-Cinema Açores pretendia realizar uma grande obra de ficção regional.
