Urzelina (freguesia)

Heráldica O brasão é constituído por um escudo de azul com torre sineira de prata lavrada a negro, com sino de ouro, em alusão ao vulcão de 1808; é encimado por um saco de dinheiro de ouro, realçado de negro. Ambas as representações estão enquadradas por dois ramos de urzela de cor prata. Coroa mural de prata de três torres. Listel branco com a legenda a negro «Urzelina – São Mateus». Bandeira: branca com cordão e borlas de prata e azul. Haste e lança de ouro. Paulo Lopes Matos

 

História, actividades económicas e culturais O topónimo deriva da urzela, uma planta tintureira que nos séculos XVI a XVIII foi largamente exportada. A Urzelina começou a ser ocupada, presumivelmente, em inícios do século XVI na sequência do desenvolvimento da vila das Velas e integrava-se num importante eixo de povoamento que se estendia da Queimada às Manadas. Em 1570 já aí se construíra um pequeno porto, posteriormente remodelado e ampliado em 1625 e 1647. Apesar de Gaspar Frutuoso não se referir directamente a esta freguesia em Saudades da Terra, que então se situava na órbita das Manadas, sabe-se que em meados do século XVI contava com cerca de uma centena de pessoas. Frei Diogo das Chagas, em 1643, atribui-lhe 327 indivíduos repartidos por 90 fogos. Em 1766 residiam na Urzelina 1008 habitantes, e em 1849, 1558.

Segundo Cândido Avellar, a Urzelina foi elevada a paróquia em meados do século XVII, sendo já considerada como tal em 1647. Certo é que, em 1643, Frei Diogo das Chagas já mencionava a freguesia e orago (São Mateus), assim como o nome do pároco. A igreja paroquial foi totalmente destruída pelo vulcão de 1808, apenas sobrevivendo a antiga torre, sendo reconstruída em 1822. A sua festa religiosa realiza-se no primeiro Domingo depois de 21 de Setembro. Possui casa do Espírito Santo junto à igreja e o seu cemitério paroquial data de 1837, sendo transferido em 1858 para a Canada do Cura. A freguesia dispõe, ainda, de diversas ermidas, a maioria das quais situadas na Ribeira do Nabo – a de Jesus Maria José e a da Nossa Senhora da Encarnação. Anote-se, ainda, a de São Francisco Xavier situada no Cruzeiro e a de Jesus de Boa Morte nos Casteletes. A escola primária masculina data de 1836, e feminina de 1876. Em 1880 inaugurou-se a estação postal da Urzelina.

A sua principal fortificação, o forte do «Castelinho», foi construída em 1689 sobre o seu porto, constituindo um importante ponto de defesa para a ilha em diversos momentos da sua história, mormente no período das Lutas Liberais, onde as tropas fiéis a D. Pedro IV mantiveram um regimento (Faria, 1998: 149-153). Outro baluarte foi edificado em 1720, mas depois destruído pelo vulcão de 1808. Segundo Cândido Avellar existiu, também, o forte de Nossa Senhora do Desterro sobre o porto da Ribeira do Nabo (1902: 306).

Ao longo da sua história a Urzelina teve por principais produções a urzela, pastel, trigo, milho, batata, fruta e a pecuária. Dada a amenidade climática a vinha desempenhou um papel de destaque, sendo particularmente afamado o vinho verdelho dos Casteletes, de limitada produção. Na segunda metade do século XIX existiam duas unidades fabris de destilação de melaço para aguardente. Também neste período, em especial nas décadas de 1850-1870, a produção da laranja constituiu um importante ramo de comércio, exportando-se este produto para Inglaterra. O armazém da laranja ainda subsiste, tendo sido reconvertido em 1992 para albergar o Centro de Exposição Rural da Urzelina, fundado por José Guilherme Machado. Actualmente as actividades económicas da freguesia centram-se em torno do comércio, serviços, turismo e agro-pecuária.

Duas calamidades se abateram sobre a freguesia ao longo da sua história. No decurso da crise vulcânica de 1580, com duração de cerca de 4 meses, a Ribeira do Nabo seria atingida por uma boca vulcânica, destruindo-se grande extensão de vinhas e perecendo, segundo os cronistas, mais de 4000 rezes. De maior gravidade foi, sem dúvida, a crise vulcânica de 1 de Maio de 1808, que traria a devastação da freguesia, apenas resistindo à lava a antiga torre da igreja. As fontes relatam a morte de cerca de 30 pessoas e o estropiamento de várias outras nos três meses em que durou a erupção. No decurso desta grande parte dos fregueses ausentaram-se da localidade, tendo muitos chegado a embarcar para a vizinha ilha do Pico.

Na Urzelina, desde cedo residência de veraneio das elites velenses, edificaram-se várias moradias e solares imponentes para a dimensão da ilha. Destaque-se, entre muitos, o solar da Viscondessa e a antiga residência do célebre compositor jorgense Francisco de Lacerda. Encontram-se em toda a freguesia diversos moinhos de vento, alguns com características peculiares, de invento do urzelinense José Sabino Luís. No Centro de Exposição Rural da Urzelina reúnem-se diversos materiais de natureza etnográfica de toda a ilha de S. Jorge. Na Ribeira do Nabo está implantada a cooperativa de artesanato Senhora da Encarnação que preserva várias tradições ao nível da tecelagem, tinturaria e doçaria. Possui a freguesia um moderno parque de campismo, casa do povo, uma filarmónica e o clube de futebol «Urzelinense». O seu porto, que ao longo da história foi um importante ponto de navegação de cabotagem, é actualmente frequentado por diversas embarcações de recreio da ilha e do triângulo. Paulo Lopes Matos

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