Universidade dos Açores

Culminando velhas aspirações de ensino superior nos Açores (Colégios de Jesuítas, Angra do Heroísmo, 1570, Ponta Delgada, 1621, Horta, 1652, Academia Militar, Angra, 1810-1825, Escola Médico-Cirúrgica de Ponta Delgada, 1836-1844), as reflexões feitas nas «Semanas de Estudos» (promovidas pelo Instituto Açoriano de Cultura, 1961, 1963, 1964) e, principalmente, as condições reivindicativas de autonomia após a Revolução de 25 de Abril de 1974, permitiram que a Junta Governativa dos Açores, presidida pelo general Altino Pinto de Magalhães, obtivesse do então ministro da Educação, major Victor Alves, o Decreto 5/76 (9 de Janeiro de 1976), criando o Instituto Universitário dos Açores, futura Universidade (a partir de 1980), cujo primeiro Reitor (Presidente da Comissão Instaladora) foi o Doutor José Enes (reitorado de 1976 a 1982). Em boa verdade, o Instituto Universitário dos Açores vinha na continuidade, agora a nível mais elevado, de uma recente criada Escola Normal Superior em Ponta Delgada (1974, ministro Veiga Simão, Governo de Marcello Caetano), que cairia com a Revolução de 25 de Abril. A divisa da Universidade, Sicut aurora, scientia lucet, «A Ciência brilha como uma aurora», demonstra a esperança de progresso que nas ilhas se confiava à ciência e a uma instituição universitária, que racionalizariam os meios de desenvolvimento e criariam a possibilidade de frequentar ensino superior sem as dispendiosas deslocações e ausências que a insularidade impunha.

A importância tradicional das três cidades capitais de distritos, Ponta Delgada, Angra do Heroísmo e Horta, reclamava que a Universidade (como pouco mais tarde o Governo) tivesse três pólos, apesar do acréscimo de despesas e dificuldade de quadros. Criavam-se assim condições para que os três meios urbanos tivessem intervenção (e benefícios) em relação à Universidade. Não foi sem discussão e algumas tensões que assentou a tripolaridade, chegando-se, finalmente, a um modelo departamental, com a Reitoria (e sedes de serviços) em Ponta Delgada, bem como os Departamentos de Biologia, Economia e Gestão, Geociências, História, Filosofia e Ciências Sociais, Línguas e Literaturas Modernas, Matemática; na Terceira (Terra Chã, hoje um novo campus esta a concluir-se no sítio do Pico da Urze) ficou o Departamento de Ciências Agrárias (Produção Animal e Produção Vegetal) e no campus da Horta, Faial, o Departamento de Oceanografia e Pescas (que aguarda ainda as instalações definitivas). Também a Terceira seria levado, em desdobramento, um Centro Integrado de Formação de Professores (C.I.F.O.P.), criado em Ponta Delgada e Angra em 1990. Após convénio com o Instituto Superior Técnico, criou-se um Departamento de Ciências Tecnológicas e Desenvolvimento e instituíram-se «Preparatórios» em algumas engenharias (pólo de Ponta Delgada).

Numa visão global, estavam assim contempladas áreas fundamentais do saber e da investigação especialmente importantes para os Açores, sem prejuízo ou negligência em relação a grandes preocupações tradicionais das Universidades. Assim: as relações economia/sociedade/desenvolvimento, incluindo projectos, a racionalização do aproveitamento dos solos e dos recursos pecuários, a luta biológica, a preservação de espécies e estudos de evolução, um vasto espectro de preocupações cientificas com o mar e o comportamento de espécies marinhas, a vulcanologia, a sismologia, com uma forte componente de previsão e de prevenção em articulação com a protecção civil, mas também as ciências humanas, o levantamento de fontes historiográficas, a aquisição de núcleos documentais e a publicação de obras de historiografia, o ensino de línguas, culturas e literaturas (Portuguesa, Francesa, Inglesa), a formação de professores, a realização de congressos, a publicação de algumas teses de Mestrado ou de Doutoramento. Atenção especial foi dada a Antero de Quental e a Vitorino Nemésio (Centros e Congressos). Ainda no inicio da vida da instituição ousou levar-se a cabo a «IV Reunião Internacional de Camonistas» (1983), cujas Actas foram publicadas ainda no mesmo ano.

Foi em 1980 que o Instituo foi elevado a Universidade (Decreto 252/80 de 25 de Julho), sendo anos mais tarde definitivamente instalada e aprovado o seu Estatuto, largamente discutido em assembleias da Universidade, como o exigiam as circunstâncias da época (1990, reitorado do Prof. Doutor António M. Machado Pires, de 1982 a 1995). O reitorado seguinte, do Prof. Doutor Vasco Garcia (1995 a 2003) consolidou e terminou as instalações do pólo de Ponta Delgada, culminando numa já há muito necessária Biblioteca com as dimensões e a dignidade necessárias (2003). Inicialmente sob tutela do Governo da República, depois sob tutela dupla (competências conjuntas, 1980 a 1994), a Universidade regressou a competência exclusiva do Governo da República, não lhe faltando posteriormente significativos financiamentos do Governo da Região, numa simbiose desejável para um projecto institucional tão importante, como tem sido aliás expresso pelo Reitor Prof. Doutor Avelino Menezes (reitorado a partir de 2003, reeleito para um segundo mandato).

Integrada no sistema nacional de ensino superior, a UAc empenhou-se nas questões de prestígio de imagem e procurou criar condições de mobilidade e promoção aos seus quadros (deslocações a congressos, consulta de orientadores, vinda de professores visitantes e realização de conferências e seminários), bem como ainda convénios com outras universidades nacionais ou estrangeiras (França, Brasil, Canárias, Estados Unidos da América). Instituiu-se a Revista Arquipélago (1979), com varias séries, mais recentemente, em 2006, a Interpólos (da Reitoria).

Com uma população estudantil de cerca de 3.500 estudantes (número que se tem mantido relativamente estável), a UAc prepara-se para enfrentar as condições criadas pela «reforma» de Bolonha e os novos interesses da sociedade de informação.

No reitorado do Prof. Avelino Menezes, a UAc incorporou, numa perspectiva de racional aproveitamento de meios de ensino de nível politécnico, as Escolas de Enfermagem de Ponta Delgada e de Angra do Heroísmo.

A 12 de Junho de 1989, a UAc viu o edifício da Reitoria consumido por um incêndio de causas duvidosas, tendo porém sido reconstruído com total respeito pela identidade arquitectónica anterior. António M. B. Machado Pires

Bibl. AA VV (1986), Pensando no X Aniversario da Universidade dos Açores (Janeiro de 1986). Ponta Delgada, Universidade dos Açores. Alves, M. T. (1985), The Creation of the University of The Azores: A Policy Study. University of Alberta, Edmonton. Id. (2001), A Universidade dos Açores na corrida contra o tempo, Açoriano Oriental, 14 de Janeiro (Suplemento). Garcia V. (2006), Universidade 21. Raízes e Desenvolvimento. Interpólos. Ponta Delgada, Universidade dos Açores, 1: 18-22. Martins, A. M. F. (2001), Investigação Cientifica: 1995-1998. Ponta Delgada, Universidade dos Açores. Pavão, M. L. (1995), Universidade, Ciência e Comunidade. Balanço de Actividades Cientificas, Tecnológicas e de Extensão Cultural. Ponta Delgada, Universidade dos Açores. Pires, A. M. B. M. (1995), Universidade, Tecnologia e Humanismo. Ponta Delgada, Universidade dos Açores. Id. (2005), A Universidade. Contributo para a Historia de uma Transformação Social, Boletim do Núcleo Cultural da Horta, 14: 75-89. Id. (2006), Sicut Aurora. Interpólos, Ponta Delgada, Universidade dos Açores, 1: 23-27.

 

Um capítulo de cerca de 50 páginas, de A. M. B. Machado Pires, dedicado a história da Universidade dos Açores, figurará na História dos Açores, a publicar pelo Instituto Açoriano de Cultura.

Chama-se também a atenção para a importância das reflexões do Prof. Doutor Avelino de Menezes no seu discurso de posse no segundo mandato de Reitor, em 2 de Julho de 2007.