União das Armações Baleeiras das Flores e Corvo, Limitada

A União foi a ultima expressão das armações baleeiras ultraperiféricas da Europa, principalmente da Ilha das Flores, orientando a baleação no Grupo Ocidental dos Açores desde 1955 até à sua cessação, em 1981.

A primeira armação costeira dos Açores foi fundada na Ilha das Flores, por volta de 1856-1857. Os dois botes precursores foram importados dos Estados Unidos da América por José Constantino da Silveira e Almeida, para a Fajã Grande, tendo passado mais tarde para Santa Cruz. Foram os botes que capturaram em 1860 a primeira baleia caçada nas Flores, possibilitando a produção de 80 barris de azeite, de valor equivalente a 2.500-3.000 alqueires de milho, vendidos com entusiasmo no Faial. Em Dezembro de 1864 já existiam na ilha três armações baleeiras e foram os baleeiros florenses os promotores da nova «modalidade de pesca» no Faial, de onde a caça aos mamíferos se propagou às outras ilhas. Em linguagem marítima, o pioneirismo das Flores é fácil de explicar: é a ilha mais próxima que os baleeiros americanos, introdutores da caça no arquipélago, começaram a escalar, ainda na segunda metade de Setecentos. O brigue Argo, que trazia o nome da nau dos argonautas de Jasão, esteve entre as primeiras baleeiras em actividade, desde 1856, na praça da Horta, sendo comandada por um «argonauta» das Flores, o capitão António Teodoro Armas. Depois da fase precursora da baleação, conhecida por «fase Americana» e que viu multiplicar-se as armações baleeiras na ilha das Flores, foi instituído em Março de 1955 o pacto social para a criação da União das Armações Baleeiras das Flores e Corvo Lda. A nova associação foi constituída por três empresas: a Reis & Flores e a António Caetano Serpa, ambas de Santa Cruz das Flores, e a Maurício António Fraga (ver Maurício António Fraga & C.ª Lda.), da vila das Lajes das Flores, que adquirira as suas primeiras 3 canoas baleeiras no Corvo, em 1918. A armação Reis & Flores pertencia a Francisco Marcelino dos Reis, abastado industrial lisboeta, e a José Jacinto Mendonça Flores, seu influente sócio e representante local. Francisco dos Reis mandou construir entre 1941 e 1944 em Santa Cruz a Fábrica da Baleia do Boqueirão, tendo sido uma das mais avançadas unidades do género nos Açores. A fábrica, que se tornou o símbolo da baleação florense, foi restaurada entre 2007 e 2008, quando reabriu com finalidades museológicas. O bote baleeiro de nome Ponta Delgada, um dos sete que foram antiga pertença da empresa Reis & Flores desde meados do século XX, foi oferecido em 1967 pelo Dr. Manuel Christiano de Sousa, da União das Armações Baleeiras das Flores e Corvo Lda., ao Museu da Marinha de Lisboa, onde se encontra actualmente exposto no Pavilhão das Galeotas. Um dos outros fundadores da União, em 1955, António Caetano Serpa, constituíra a sua firma em 1913, tornando-se um grande industrial dos lacticínios e participando activamente na vida pública e política, eleito presidente da Câmara Municipal de Santa Cruz em 1945. Durante a II Guerra Mundial, para além da filial aberta na cidade de Lisboa, desde 1938, da fábrica e dos postos de lacticínios, do armazém de venda por grosso e da mercearia nas Flores, a firma de António Serpa já compreendia uma armação baleeira e tinha fábrica de extracção de óleo de cetáceos. Finalmente, a firma da família Fraga das Lajes das Flores, sócio fundador da União com sede no concelho meridional da ilha, tinha origens no século XIX e foi remodelada em 1946. Nesse ano, sob a denominação *Maurício António Fraga & C.ª Lda., declarava dedicar-se ao comércio geral, à armação baleeira e à exploração de três fábricas, de lacticínios, de extracção de óleos de baleia e de conservas de peixe. Tratava-se, sem dúvida, da mais poderosa realidade económica do território lajense. José Maria Raposo e Laurentino Vieira, que conserva ainda hoje a viva memória dos feitos da União baleeira, entraram para o escritório dos Fraga com a viragem de 1946 e foram figuras de primeiro plano nas décadas seguintes. Em 1952 a firma cedeu quotas, aumentou o capital e admitiu novos sócios; despediu um decepcionante parceiro do continente e absorveu mais capital florense, o de António Caetano de Serpa de Santa Cruz, que punha à disposição dos lajenses o seu entreposto em Lisboa. A política da aliança insular entre industriais prosseguiu três anos mais tarde, quando, como vimos, lanchas e botes das respectivas armações baleeiras se juntaram na União. A Maurício António Fraga desistiu da baleação em 1959, mas um dos seus homens mais influentes, o fiel José Maria Raposo, foi desde 1960 presidente da União das Armações Baleeiras das Flores e Corvo, Lda., vindo a falecer em 1965, após meio século de trabalho em nome dos Fraga e em prol da baleação costeira no Grupo Ocidental dos Açores.

Relativamente à ilha do Corvo, a caça à baleia realizava-se pelo menos desde 1874, tendo-se constituído uma sociedade baleeira já em 1878. Abrangido pela denominação social, o Corvo contribuía para a União com algum tripulante ocasional e sobretudo com os cachalotes das suas águas, mais do que propriamente com armações organizadas. Todavia, a partir do pós-guerra, quando os botes do posto baleeiro corvino apanhavam um cetáceo – o que aconteceu esporadicamente até à década de setenta do séc. XX – este era rebocado até Santa Cruz das Flores, onde se extraia o seu óleo na fábrica do Boqueirão. Grande parte do produto era exportada para o estrangeiro, sobretudo para a Alemanha, sendo que apenas uma pequena quantidade era utilizada pelos corvinos para a iluminação. Volvido um século desde o pioneirismo da baleação florense e corvina nos mares açorianos, o auge da actividade nas Flores foi proporcionado pelo esforço conjunto da União, que conseguia derreter em óleo uma média anual de cerca de 50 cetáceos, alcançando o recorde de 103 baleias em 1963. Depois de uma quebra nas capturas e no mercado do óleo na década de setenta, o «canto do cisne» da baleação costeira nas águas ocidentais dos Açores deu-se em 1981, quando a 24 de Novembro, nas águas do Corvo, foi capturado o último de mais de dois mil cetáceos em cerca de 120 anos de caça na ilha das Flores; foi igualmente o último cachalote arpoado pela derradeira tripulação baleeira florense ao serviço da União. Pierluigi Bragaglia

Bibl. Bragaglia, P. (1997), História dos Lacticínios da Ilha das Flores – Perfil Histórico do Pioneirismo Associativo da Ilha das Flores e da Produção e Exportação dos seus Lacticínios no Séc. XX. Lajes das Flores, Câmara Municipal de Lajes das Flores: 117-128. Gomes, F. A. N. P. (1992), A caça à baleia nas Flores. Lajes das Flores, Câmara Municipal das Lajes das Flores. Id. (1997), A Ilha das Flores: da redescoberta à actualidade (subsídios para a sua História). Lajes das Flores, Câmara Municipal das Lajes das Flores: 241-258. On-line: http://www.ebimouzinhodasilveira.org