Sociedade de Beneficência Eclesiástico-Michaelense

A 6 de Outubro de 1845, numa reunião de vários clérigos de Ponta Delgada estabeleceu-se constituir uma sociedade que recebeu o nome de Sociedade de Beneficência Eclesiástico-Michaelense.

Entre os sócios fundadores encontravam-se nomes soantes na sociedade eclesiástica micaelense da época como João José do Amaral, futuro prefeito de estudos e primeiro reitor do liceu de Ponta Delgada, César Ferreira Cabido, conhecido agente de beneficência, e António de Amaral e Melo, professor de ensino mútuo e «director» da escola de professores desse método de ensino.

Os estatutos foram aprovados por D. Frei Estêvão, bispo de Angra e ilhas dos Açores, a 18 de Fevereiro de 1846. Nesse documento e no artigo terceiro definem-se com muita clareza os fins da associação: «Os fins da sociedade são o soccorro temporal e corpóreo dos Sócios indigentes e o espiritual de todos os que fallecerem». Nesses estatutos traçam-se ainda os direitos e deveres dos sócios, nomeiam-se os diferentes órgãos que a dirigiriam e as regras do exercício dos cargos.

A vida da sociedade, a acreditar nas actas das sessões que ainda se podem consultar, foi calma e tranquila, como seria de esperar numa associação deste grupo social, tido como amante da paz. Uma só vez se transcreve uma altercação. A sociedade, porque começava a dispor de algum capital, começou a fazer empréstimo a sócios, e mesmo a «seculares», entre os quais se salientam senhoras. Há uma proposta de empréstimo ao sócio padre Ferreira Cabido de uma quantia avultada que esgotaria as reservas. A proposta foi retirada e a paz regressou ao seio da associação.

As poucas referências encontradas na vastíssima rede de jornais micaelenses, como em todo o lado muito atentos às discórdias, pouco ou nada transmissores dos momentos de calma e paz, atestam também esses comportamentos.

Mesmo assim notam-se aqui e ali os efeitos da beneficência desta sociedade como nos relata o Açoriano Oriental n.º 600 de 25 de Julho de 1846, no caso de alguns sacerdotes, doentes que nem sequer dispunham de meios para pagamento de quotas. Mais tarde A Voz da Verdade de 6 de Janeiro de 1872 relata o caso do conhecido músico padre Silvestre Serrão que só após quatro anos «impossibilitado de celebrar e ensinar» recorreu aos subsídios a que tinha direito.

As receitas, embora parcas, durante todos os anos da existência da associação nunca deixaram de crescer: 72$140 em 1847, 9.381$370 em 1925, ano em que o bispo da diocese incorporou esse montante no património da diocese, pondo ponto final na vida da sociedade. É curioso, no entanto que ainda durante alguns anos encontramos «recibos» de cotas de sócios, certamente não informados da decisão episcopal. José M. Teixeira Dias

Bibl. Dias, J. M. T. (2001), A Sociedade de Beneficência Eclesiástico-Michaelense. Arquipélago-História, 2.ª série, V: 313-324. Idem (2002), História da Associação de Socorros Mútuos, Ponta Delgada, 1867-2000. Ponta Delgada, Associação de Socorros Mútuos de Ponta Delgada: 47-48. Livro dos Estatutos da Sociedade Eclesiástico-Michaelense.