sismicidade nos Açores
Pela sua localização geodinâmica, na fronteira entre três placas tectónicas, o arquipélago dos Açores apresenta vulcanismo activo e sismicidade frequente (Lima, 1943; McKenzie, 1972; Udías et al., 1976; Udías, 1980; Hirn et al., 1980; Grimison & Chen, 1986; Udías et al., 1986; Buforn et al., 1988; Themudo Barata et al., 1988; Moreira, 1991; Mezcua et al., 1991; Nunes, 1991; Nunes et al., 1992; Correia et al., 1992; Miranda et al., 1998). A sismicidade no arquipélago pode ter origem tectónica ou vulcânica. Os tremores de terra relacionados com a actividade vulcânica são desencadeados pela movimentação de magma e gases vulcânicos que produz fracturação da rocha encaixante. A sismicidade de natureza tectónica resulta da libertação súbita de tensões acumuladas na porção frágil da litosfera em resultado da movimentação relativa das placas. Pela sua natureza ou distribuição temporal, podem distinguir-se três tipos de sequências sísmicas na região dos Açores. As que resultam de actividade vulcânica são crises sísmicas mais ou menos prolongadas, podendo começar vários meses ou apenas alguns dias antes das manifestações vulcânicas. Durante estas crises é comum a ocorrência de tremor vulcânico (sismos de longa duração e baixa frequência). Alguns sismos de natureza tectónica caracterizam-se pela ocorrência do sismo principal seguido de uma sequência de réplicas com frequência e magnitudes decrescentes. Outro tipo de crises de natureza tectónica caracteriza-se pela ocorrência de um ou dois sismos principais (com magnitudes muito próximas) após o início da crise (normalmente vários dias depois).
A maioria dos eventos sísmicos apresenta magnitude abaixo do limiar da sensibilidade humana, sendo apenas detectados pela rede sísmica regional. Contudo, sismos de magnitude mais elevada, média a alta, ocorrem esporadicamente. Os terramotos mais fortes sentidos na região durante o período histórico ou registados instrumentalmente apresentaram magnitudes, estimadas ou medidas, em torno de Mw=7 (magnitude de momento sísmico).
Pela sua magnitude ou por terem causado vítimas mortais, os principais sismos que atingiram os Açores desde o início do povoamento foram os terramotos de 22 de Outubro de 1522 (S. Miguel, ~ 5.000 mortos), 17 de Maio de 1547 (Terceira, alguns mortos), 24 de Maio de 1614 (Terceira, ~ 100 mortos), 9 de Julho de 1757 (S. Jorge, ~ 1.000 mortos), a crise de Junho de 1800 a Janeiro de 1801 (Terceira; 1 morto), 21 de Janeiro de 1837 (Graciosa, 3 mortos), 15 de Junho de 1841 (Terceira, sem vítimas mortais), 16 de Abril de 1852 (S. Miguel, 9 mortos), 31 de Agosto de 1926 (Faial, 8 mortos), 26 de Abril de 1935 (S. Miguel, 1 morto); 1 de Janeiro de 1980 (S. Jorge, Terceira e Graciosa, 63 mortos) e 9 de Julho de 1998 (Faial, 9 mortos).
A distribuição dos epicentros dos sismos registados instrumentalmente na região dos Açores (Udías, 1980; Udías et al., 1986; Mezcua et al., 1991; Nunes, 1991; Nunes et al., 1992; Miranda et al., 1998) marca claramente a localização da junção tripla dos Açores. Há sismos sobre a Crista Média Atlântica, no alinhamento das ilhas dos grupos central e oriental dos Açores e ao longo da Falha Gloria, que se estende para leste do arquipélago. Alguns epicentros dispersos localizam-se sobre a Zona de Falha Leste dos Açores (Udías, 1980), antiga fronteira de placas actualmente inactiva.
Os sismos instrumentais, com epicentro na região, para os quais foi determinado o mecanismo focal (ver Tabela) apresentam cinemática variada com eventos predominantemente em falha normal, em desligamento direito e em desligamento esquerdo, ocorrendo em estruturas tectónicas com orientação WNW-ESE e NNW-SSE (McKenzie, 1972; Udías et al., 1976; Hirn et al., 1980; Udias, 1980; Grimison & Chen, 1986; Udías et al., 1986; Moreira, 1991; Nunes, 1991; Miranda et al., 1998; Vales et al., 2000; Madeira et al., 1998). Estas orientações estão de acordo com as falhas reconhecidas em estudos de neotectónica nas regiões emersas (Madeira, 1998; Madeira & Brum da Silveira, 2003), ou deduzidas da interpretação de levantamentos batimétricos (Lourenço et al., 1998).
Frequentemente, a destruição e o número de vítimas não estão directamente relacionados com a magnitude do terramoto. Um dos parâmetros que condiciona a importância dos estragos é a distância epicentral que, juntamente com as características geológicas do terreno, determina a intensidade com que o sismo se faz sentir. Outros aspectos, como os efeitos indirectos da vibração sísmica em topografias íngremes desencadeando escorregamentos e quebradas, a vulnerabilidade das construções tradicionais sem resistência sísmica, ou circunstâncias como a hora do dia em que se dá o abalo, determinam muitas vezes o grau de destruição e o número de vítimas. José Madeira
Bibl. Buforn, E.; Udías, A. & Colombas, M. A. (1988), Seismicity, source mechanisms and tectonics of the Azores-Gibraltar plate boundary. Tectonophysics 152: 89-118. Correia, M. J.; Reis, P.; Nunes, J. C. & Moreira, V. S. (1992), A sismicidade histórica dos Açores e o sismo de 1 de Janeiro de 1980. Monografia 10 anos após o sismo dos Açores de 1 de Janeiro de 1980, C. Sousa Oliveira, A. R. A. Lucas & J. H. Correia Guedes (eds.), Secretaria Regional da Habitação e Obras Públicas dos Açores/Laboratório Nacional de Engenharia Civil, Lisboa, I: 127-133. Grimison, N. L. & Chen, W.-P. (1986), The Azores-Gibraltar plate boundary: focal mechanisms, depths of earthquakes and their tectonic implications. J. Geophys. Res. 92: 2029-2047. Hirn, A.; Haessler, H.; Hoang-Trong, P; Wittlinger, P.& Mendes Victor, L. (1980) Aftershock sequence of the January 1st, 1980 earthquake and present-day tectonics in the
Tabela Sismos com mecanismo focal publicado
|
n.º |
Data |
Magnitude |
Localização |
Referências |
|
1 |
8 Maio 1939 |
7.1 |
37.4N-23.9W |
2,4,6,7 |
|
2 |
6 Set. 1964 |
4.9 |
38.3N-26.6W |
2,4,6,7 |
|
3 |
18 Set. 1964 |
5.5 |
39.8N-29.7W |
2,4,6 |
|
4 |
4 Julho 1966 |
5.3; 5.4 |
37.51N-24.75W |
1,2,4,5,6,7 |
|
5 |
5 Julho 1966 |
5.1; 5.0 |
37.6N-24.7W |
2,4,6,7 |
|
6 |
20 Abril 1968 |
4.8 |
38.3N-26.7W |
7 |
|
7 |
20 Abril 1968 |
5.0; 5.1 |
38.30N-26.77W |
5,6,7 |
|
8 |
1 Set. 1968 |
4.8 |
39.16N-29.93W |
6 |
|
9 |
23 Nov. 1973 |
4.9 |
38.52N-28.37W |
6 |
|
10 |
11 Dez. 1973 |
5.0 |
38.7N-28.7W |
6,7 |
|
11 |
1 Jan. 1980 |
7.2; 6.4 |
38.82N-27.78W |
3,5,6,7 |
|
12 |
12 Fev. 1981 |
5.3 |
38.5N-26.7W |
7 |
|
13 |
9 Set. 1984 |
5.0 |
36.9N-24.6W |
7 |
|
14 |
16 Out. 1988 |
5.1 |
37.70N-25.20W |
8 |
|
15 |
21 Nov. 1988 |
5.8 |
37.9N-26.2W |
7 |
|
16 |
21 Jan. 1989 |
5.4 |
38.04N-26.28W |
8 |
|
17 |
26 Junho 1989 |
5.7 |
39.23N-28.34W |
8 |
|
18 |
22, Julho 1992 |
3.2 |
38.15N-26.65W |
9 |
|
19 |
22 Julho 1992 |
3.4 |
|

