Sindicato Agrícola Ilha das Flores A

5 de Janeiro de 1918, oficializou-se na freguesia do Lajedo o Sindicato Agrícola Ilha das Flores, a primeira instituição cooperativa da ilha ocidental, pioneira nos Açores e no país no sector dos lacticínios.

O padre José Furtado *Mota, líder insular de grande popularidade, criou na freguesia do Lajedo um pequeno «círculo» inovador e reformista, onde se destacavam as figuras de José de Freitas *Escobar Júnior, da sede da freguesia, e de Francisco de Almeida da Costa do Lajedo. Em 1912, tinha sido fundado no Faial o Sindicato Fayalense, todavia não vocacionado para a produção de lacticínios: foi o primeiro «sindicato» do Distrito da Horta e provavelmente o segundo sindicato agrícola do arquipélago, depois do sindicato precursor da Lagoa (São Miguel), constituído em 1893 com as características de mero «acto político». Desde 1911, o padre José Furtado Mota pregava o Cooperativismo aos lavradores da Ilha das Flores, em sintonia com o cónego Dr. José Bernardo de *Almada, natural de S. Miguel, que por volta de 1917 conseguiu desencadear na ilha Terceira a revolução rural em favor do movimento cooperativo. Assim, a 24 de Julho de 1917 e com a colaboração do padre M. S. Barbosa (também micaelense), é fundada na Terceira a Cooperativa da Feteira, adjunta ao Sindicato Agrícola ali existente: é a Primeira Cooperativa de Lacticínios dos Açores, terá sido a primeira do género no país. A 30 de Agosto de 1917 e sempre na ilha Terceira, constitui-se na Ribeirinha a Cooperativa de Leitaria Ribeirense, a segunda do género. A adopção do termo «cooperativa» era inovadora em 1917, quando a maioria das associações de agricultores se chamavam ainda de «sindicatos», ainda que já existissem cooperativas de outros tipos, como a Providência Operária da Horta (Faial, 1907) e a Cooperativa Calhetense (S. Jorge, 1916), uma cooperativa de consumo. Refira-se que os supostos Sindicatos, anteriores às mencionadas Cooperativas da Feteira e da Ribeirinha, poderão ter funcionado só com o «estatuto da mútua confiança» entre lavradores, como aconteceu com o sindicato do Lajedo das Flores desde 1915, sem escritura pública. De improviso, logo no início de 1918, eis que surge no quadro cooperativo dos Açores a ilha das Flores, com a constituição legal a 5 de Janeiro, na freguesia do Lajedo, do Sindicato Agrícola Ilha das Flores. Podemos afirmar que, se não foi o primeiro «sindicato» dedicado aos lacticínios, o do Lajedo das Flores foi um dos três primeiros Sindicatos Agrícolas dos Açores e de Portugal para a industrialização do leite. A 5 de Janeiro de 1918, mais de 60 agricultores foram ao Registo Civil para constituírem o Sindicato que se regerá pela carta de lei de 3 de Abril de 1896. Os apelidos dos fundadores são, em grande parte, os mesmos que podemos encontrar, ainda hoje, entre os moradores dessa freguesia do concelho de Lajes das Flores: além do padre Mota, aparecem as famílias Serpa, Tomás, Rodrigues, Almeida, Mendonça, Gomes, Freitas, Jorge, Ambrósio, Bispo, etc.. A 27 de Agosto de 1918, sem calcular que lhe restassem só cerca de quatro meses antes do encontro com o seu assassino, Sidónio Pais, presidente da República Portuguesa, assina o histórico Alvará que institucionaliza o sindicato. Entre os fins da associação, como o de «facultar aos associados a aquisição de adubos, sementes, plantas e máquinas em condições vantajosas», sobressaem as «apostas culturais», definidas no Art. 4.º dos Estatutos: «Promover a instrução agrícola, pelo estabelecimento de bibliotecas, cursos, conferências, concursos e campos de experiências». Quem conhece a remota freguesia do Lagedo ficará surpreendido com esses propósitos, baseados na Lei de 1896 e comuns a todos os Estatutos mais antigos, louváveis mas difíceis de se implementarem localmente. A gratidão dos lavradores é porém patente nas palavras desta carta, publicada pelo Florentino a 27 de Maio de 1922: «Todos sabem que foi o Sindicato Agrícola, que sua Ex.ª o padre José Furtado Mota, filho das Flores, organizou nesta ilha, que veio salvar-nos, livrando-nos assim da opressão do egoísmo e da tirania da ambição que começavam a cavar a nossa ruína». A produção dos lavradores do Lajedo e localidades associadas era consistente, sendo que entre 7 e 30 de Abril de 1918, ou seja em pouco mais de três semanas, foram laborados 720 kg de manteiga. Praticamente desde a sua fundação, o Sindicato exportou o seu principal produto até aos mercados da metrópole, onde teve colocação estável durante mais de meio século. É verdade que o «atraso» associativo de outras ilhas açorianas no sector dos lacticínios, em relação às Flores, foi por vezes irrelevante em termos temporais, sendo concomitante na ilha Terceira, mas ainda assim o pioneirismo florense não deixa de ter enorme significado, sobretudo considerando as condições intelectuais e físicas de partida, ou seja a maior distância dos grandes centros e mercados consumidores, irradiadores das novas tendências culturais e económicas, e a grande disparidade com as outras ilhas ao nível de comunicações e transportes. A associação do padre Mota, que soube propor uma resposta às reivindicações socioeconómicas da classe social mais vasta e transversal do povo insular, foi pensada inicialmente para reunir todos os lavradores das Flores, apostando sobretudo na produção de manteiga. De início, a freguesia do Lajedo, do concelho das Lajes, funcionou como «central sindicalista» da ilha e o seu Sindicato começou por abranger lavradores da freguesia da Fajã Grande e dos subúrbios dos Morros e Monte das Lajes, como confirma o Açoreano Ocidental a 2 de Março de 1918. Após 17 anos de actividade, dos quais se perderam os rastos documentais, o dinâmico sindicato actualizou-se: como se deduz de documentos posteriores, o alvará de constituição de uma nova associação, herdeira do Sindicato, data de 27 de Dezembro de 1935, quando foram aprovados os estatutos e autorizada a nova denominação Sociedade Agrícola Ilha das Flores. A escritura tinha sido feita «... perante a professora oficial desta freguesia e regedor, respectivamente, Maria Luísa Serpa e António Lourenço Henriques, em 21 de Julho de 1935». A sede, hoje completamente desaparecida, ficava no lugar da actual Casa do Povo e Junta de Freguesia, no centro do aglomerado, e o renome da manteiga também provinha da qualidade da sua água: a fábrica guardava uma nascente no interior, como somente a do industrial António Caetano Serpa, nos Vales de Santa Cruz. Os níveis da produção alcançados em 1939-1940, de 15.038 kg ou 15 toneladas de manteiga, aparecem-nos como um recorde para a pequena unidade, porque os anos seguintes denunciam uma quebra dramática, devido à sempre maior influência da conjuntura bélica. Os números da produção revelam que a mesma, em três anos, ficou reduzida a menos de metade: «no ano findo de 1943 laborámos 152.705 litros de leite, com os quais foram fabricados 7.425 kg de manteiga». Em 1950, quando já houvera uma retoma, basta a leitura do Relatório da unidade fabril para sabermos que a conjuntura do mercado, infelizmente para os agricultores do Lajedo, não correspondeu ao esmero da produção: «Durante este período registou-se a maior crise económica de que temos memória, devido à imobilidade das vendas da manteiga em virtude da superabundância do artigo que inundou o mercado e excedeu em várias dezenas de toneladas as possibilidades do consumo». Na década de 50, a Mendes & Martins de Lisboa era o maior fornecedor de peças para as máquinas da cooperativa, mas em 1955, José de Freitas Escobar Júnior escrevia directamente para a fábrica Melotte, grande produtora de desnatadeiras na Bélgica, para ver se as encomendas ficavam mais baratas e se chegavam mais depressa. Entre 1964 e 1965, verificou-se uma baixa de rendimento que J. F. E. Júnior, ainda secretário da Direcção e nessa altura já o contabilista mais procurado da ilha, imputava principalmente à emigração e às inexplicáveis desistências de lavradores associados: «É de todos sobejamente conhecida a razão desta baixa de produção, visto que a maior parte se deve à saída de sócios, uns que se ausentam da sede da cooperativa e outros que, por motivos de ordem pessoal nos quais todavia não influi o factor económico, preferem vender o leite na indústria particular». Nesses anos, o sindicato tornou-se Cooperativa e realizou também experiências no fabrico de queijo, mas as quantidades não tinham alguma expressão no gráfico de exportações e vendas. O quadro do pessoal da «fábrica de manteiga sita no Lagedo, Flores, e posto de desnatação da Costa», era composto por 2 empregados e 4 operários em 1968, 2 empregados e 2 operários em 1969 e 1 empregado e 3 operários em 1970: uma curva descendente, como a da produção, que se fixou em 12.275 kg em 1969, 11.096 kg em 1970 e 10.645 kg em 1971. Em 1972 e 1973 só aparecem entradas de 2 fontes: o saldo da Martins & Rebello, indústria continental que era o maior adversário das cooperativas e que passou a comprar a quase totalidade da produção do Lajedo, e o intróito constituído pelas pequenas receitas das vendas de manteiga na fábrica, a pronto pagamento. Em finais de 1973, dado o seu peso histórico no cooperativismo insular e a «vergonha» de ter tido de ceder à Martins & Rebello, o Lajedo aderiu de pronto à União das cooperativas florenses, que morreu todavia logo no final do seu primeiro ano de vida. Ainda, no último trimestre de 1973 a Cooperativa Agrícola de Lacticínios do Lagedo das Flores destina 17.606 litros de leite à laboração do queijo, que terá ocorrido na Fazenda das Lajes; desta quantia, 5.593 litros provinham de lavradores do Lagedo e os restantes 12.013 da Costa. Durante 1974, a produção da cooperativa já sofreu de manifesta irregularidade, acompanhando o desmantelamento da União: a última manteiga fabricada no Lajedo não chega a 1,5 toneladas. Em Setembro de 1974, os associados inscritos na cooperativa são somente 34, em número, e 1975 assinala, de facto, o fim da produção. A lavoura da freguesia estava reduzida pela emigração aos seus mínimos históricos, e boicotada pelo fraco espírito associativo das gerações que se seguiram à dos fundadores do cooperativismo florense. Os limites do associativismo insular, depois da federação das cooperativas que se esperava há cerca de 30 anos, e que deveria ter sido a solução mais viável, pareciam demonstrados pelo fracasso da União. A actividade do Sindicato (1918), depois Sociedade (1935) e enfim Cooperativa (1965) do Lajedo, desenvolveu-se até meados da década de Setenta e se a associação, na sua última década e sobretudo através da experiência unionista, chegou esporadicamente a produzir queijo, a mesma passa à História, essencialmente, com a especialização que caracterizou toda a sua existência: o fabrico de manteiga. Pierluigi Bragaglia

Bibl. Bragaglia, P. (1997), História dos Lacticínios da Ilha das Flores – Perfil Histórico do Pioneirismo Associativo da Ilha das Flores e da Produção e Exportação dos seus Lacticínios no Séc. XX. Lajes das Flores, Câmara Municipal de Lajes das Flores