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Sob o estímulo da Revolução Francesa também Portugal não ficou imune às novas ideias. O pensamento liberal, em particular, encontraria no período das invasões francesas e no clima de desordem nacional agravado pela ida da corte para o Brasil, oportunidade muito favorável para o seu florescimento. Contudo, a acção repressiva dos governadores do Reino para com todos aqueles que a rotulagem política designava, em geral, por pedreiros livres e jacobinos, a que se juntava a pressão popular igualmente adversa à sua acção, fez-se sentir de forma particularmente violenta entre 27 e 30 de Março de 1809. No ano seguinte, a repressão alcança dimensão inusitada com a prisão de 48 pessoas consideradas como perigosos agitadores.

A associação destes acontecimentos aos Açores, deve-se ao facto de terem sido deportados para estas ilhas no dia 16 de Setembro de 1810 na fragata *Amazonas, chegando a Angra no dia 25. Apenas uma parte dos deportados desembarcaria, sendo os restantes recebidos a bordo do navio britânico Lavinia que os transportaria para Londres, não sem a reprovação do regente nos termos mais veementes em carta dirigida ao capitão-general dos Açores, Aires Pinto de Sousa. Confrontado com a chegada dos deportados, não obstante ter já informado que não deveriam ser enviados para as ilhas, o capitão-general manifestou a sua total discordância quanto à decisão dos governadores do Reino, alegando não fazer sentido promover-se, com a sua presença e a suas ideias revolucionárias, a contaminação das ilhas dos Açores, até agora consideradas livres da influência perniciosa de elementos, em seu entender, tão perigosos e que vinham perturbar o sossego do arquipélago. Aires Pinto de Sousa refere-se aos deportados como «uma peste» e «uma lepra» e adverte D. Miguel Pereira Forjaz para que os governadores não mandem mais deportados porque não os receberá. Na situação de grande depauperamento da Real Fazenda dos Açores, é bem provável que o capitão-general também lamentasse a situação, em virtude da necessidade de abonar diariamente cada deportado com a quantia de duzentos e quarenta réis. Entre os deportados da fragata Amazonas, assim conhecidos, contava-se a figura prestigiada do desembargador Vicente José Ferreira Cardoso da Costa ao qual seria dada oportunidade de se radicar em S. Miguel, onde casou e permaneceu. Para além da ideia defendida por alguns historiadores de que a presença dos deportados, que se dispersaram por várias ilhas, teria constituído o foco ideológico que criou as condições para a implantação da ideia liberal favorável ao acolhimento posterior da causa de D. Pedro em terra açoriana, tem-se atribuído a Vicente Cardoso da Costa, sem que se vislumbre fundamento razoável para tal, o papel de verdadeiro responsável pela expansão do liberalismo no arquipélago.

Em Janeiro de 1815 o capitão-general recebe informação de Lisboa sobre a decisão de D. João em conceder o perdão aos deportados nos Açores. Para alguns, que a morte entretanto arrebatara, o perdão chegava tardiamente. Ricardo Manuel Madruga da Costa

Bibl. Maia, F. A. M. F. (1930), Um deportado da Amazonas. Monografia 1810-1834. Ponta Delgada, Tip. Fernando de Alcântara. Mattoso, J. (dir.) (1993), História de Portugal. O Liberalismo. Lisboa, Editorial Estampa. Serrão, J. (dir) (1984), Dicionário de História de Portugal. Porto, Livraria Figueirinhas, V: 554-557.