SATA

Apesar dos anos conturbados da guerra, mas em ousada iniciativa e pela mão de alguns dos mesmos homens que pouco anos antes, em 1934, haviam fundado a Sociedade Terra Nostra orientada para o desenvolvimento do turismo da ilha de S. Miguel, a Bensaúde e C.a Ld.a, Augusto Rebelo Arruda, José Bensaúde, Augusto d’Athayde e Albano de Freitas da Silva Oliveira celebram em Ponta Delgada, a 21 de Agosto de 1941, a escritura de constituição da Sociedade Açoreana de Estudos Aéreos Limitada, associação precursora da SATA, designação que resulta da alteração do pacto social decidida cerca de 6 anos depois. Assim, em 19 de Fevereiro de 1947 a SATA – Sociedade Açoreana de Transportes Aéreos, Ld.a tem a sua primeira reunião, e a 15 de Junho do mesmo ano realiza-se o voo inaugural entre S. Miguel e Santa Maria utilizando um avião Beechcraft baptizado com o nome «Açor» e com o registo CS-TAA, sob o comando do capitão Marciano Veiga. A operação deste primeiro ano decorreria numa rede de linhas definidas pela pista de Santana, na ilha de S. Miguel, e os aeroportos de Santa Maria e Terceira. Contudo, ainda nem haviam decorrido dois meses de operação quando, na manhã 5 de Agosto, o avião se despenhou no mar quando se dirigia para Santa Maria, sem que tenham sido apuradas as circunstâncias que levaram ao desastre, embora os relatórios da época rejeitem ter estado na sua origem a existência de problemas técnicos. Não obstante este começo ensombrado, a firma Bensaúde & C.a Ld.a tomaria posição maioritária na SATA, cessando Augusto Rebelo Arruda a sua ligação à empresa, decisão que estará ligada ao facto de sempre ter enjeitado a responsabilidade do acontecimento, como pretenderiam alguns, dada a sua condição de gerente da empresa.

Contra o infortúnio de um tal começo, a empresa adquire dois aviões Dove que entram ao serviço no ano de 1948 e que permanecerão longos anos como o equipamento exclusivo da frota da SATA. Entre 1963 e 1965, face ao desenvolvimento do tráfego e com a perspectiva de futura abertura do novo aeroporto de Ponta Delgada e dos aeroportos da Horta e Flores a SATA adquire os aviões DC3-Dakota com 26 lugares, e é ainda na época de utilização destas aeronaves que a empresa, no ano de 1968, contrata as primeiras hospedeiras de bordo. Em 1969 é inaugurado o novo aeroporto de Ponta Delgada e neste ano, depois de ter testado o AVRO e o FOKKER 7-27 Friendship, a SATA opta pelo primeiro daqueles aviões com capacidade para 48 passageiros, e freta o seu primeiro turbo-hélice, um AVRO HS 747 o qual, em 1972, é adquirido para integrar a frota da companhia que, durante mais de duas décadas e com sucessivas aquisições, utilizará esta aeronave, comprovadamente adaptada às características da operação no arquipélago. Em 1971 é finalmente inaugurado o aeroporto da Horta, e neste ano a TAP inicia a operação para o Aeroporto de Ponta Delgada, criando ambas as situações novas exigências à SATA, a que não é estranho o surto de novos estabelecimentos hoteleiros entretanto construídos.

Depois de uma operação baseada na realização de voos fretados iniciada em 1973, a ilha das Flores inaugura o seu aeroporto em 1975 e no ano seguinte são iniciados os voos regulares entre a Horta e aquele aeroporto, do que resulta o alargamento da rede de transporte aéreo para o limite do arquipélago e impondo condições de operação algo gravosas para a companhia em resultado das limitações da pista e da sua localização. As necessidades de reforço de frota para cobrir as exigências sazonais de uma rede alargada, conduziram em 1976 a uma situação algo atípica, com a integração temporária na SATA de dois DC6 da Força Aérea Portuguesa. Seria no ano seguinte que a SATA transportaria o seu passageiro 1 Milhão. Em 1980, no novo quadro político autonómico adoptado para o arquipélago, a SATA transforma-se em Empresa Pública e neste ano a Graciosa passa a dispor do seu aeroporto, seguindo-se o Pico em 1982 e o de S. Jorge em 1983. Apenas a ilha do Corvo permanece fora do sistema de transporte aéreo, dispondo de um aeródromo apenas em 1993 onde a SATA passará a operar com um Dornier DO 228.

Em 1986, numa associação entre a SATA e a Festive Tours tem lugar a primeira operação da Azores Express iniciando os voos charter entre os Estados Unidos e os Açores, seguindo-se idêntica iniciativa com a Atlantida Tours para constituírem a Atlantida Express destinada à operação charter entre Toronto e os Açores.

Serão ensaios ainda muito tímidos de um projecto mais ambicioso que a SATA apenas em 1995 poderá concretizar, ainda que de forma mitigada, com o fretamento de um Boeing 737 para operar em regime charter. Neste quadro, alguns anos antes, em 1987, numa iniciativa comprovadamente mal estruturada, estimulada pelas tendências liberalizantes ao nível do transporte aéreo que se faziam já sentir e que só em 1993 se materializarão na Política Comum de Transporte Aéreo, a SATA, com autorização do Governo Regional dos Açores, procede à experiência com o jacto BA 146-100 para serviço inter-ilhas embora, na altura, pudesse estar subjacente intenção de alargar as rotas ao sector doméstico. Gorada esta experiência, a SATA decide em 1989 a reestruturação da frota e contrata com a British Aerospace o fornecimento de 3 aviões ATP, frota que ao longo dos últimos anos, tem constituído a base do funcionamento da empresa para o serviço inter-ilhas, estando em projecto desde 2006 a ideia de reequipar a frota da companhia com aviões actualizados.

No ano de 1990, ainda no conjunto de iniciativas visando manter a SATA associada, do ponto de vista institucional, à evolução permanente no transporte aéreo na cena internacional, a SATA adere à ERA (European Regional Airlines Association) e à IATA (International Air Transport Association). É neste mesmo ano, ainda numa linha de abertura externa e de previsibilidade quanto ao futuro da companhia, que a SATA abre uma loja de vendas em Lisboa nas antigas instalações da Canadian Pacific Airlines.

Enquanto empresa qualificada para a prestação de serviços, a SATA assegurou ao longo da sua história o agenciamento de outras companhias de aviação. Santa Maria, nesta área específica, desempenhou papel relevante na qualificação do seu pessoal ao assegurar a assistência de inúmeras companhias internacionais no trânsito por aquele aeroporto, bem como a representação comercial no arquipélago, nomeadamente como agente geral da TAP, KLM, Air France, TWA, PAA, CPA. Tendo em conta a situação particular da TAP, detentora durante longos anos do monopólio das ligações entre o continente e as ilhas, a SATA manteve com esta companhia uma activa relação de negócios abrangendo, não só a assistência de escala dos seus voos, mas igualmente o agenciamento na área comercial. A par da sua função essencial de transportadora, a SATA mantém actualmente, ainda que num quadro empresarial diverso e numa filosofia de grupo, actividade como prestadora de serviço a terceiros em todos os aeroportos dos Açores. Visando uma maior racionalidade no plano da exploração das suas actividades, a SATA segmentou a sua operação nas vertentes asseguradas pela SATA Air Açores e SATA Internacional, mantendo os operadores turísticos para o sector dos Estados Unidos da América e Canada, constituindo-se ainda de forma autónoma para a exploração de aeródromos, sector de manutenção e engenharia e, por fim, operações de terra.

De um ponto de vista da evolução ao longo da sua existência, pode dizer-se que a SATA viveu o seu primeiro meio século sob a pressão de fortes constrangimentos impostos por um conjunto de condições que lhe eram estranhas. De um lado o reconhecimento da sua imprescindibilidade como elemento essencial numa região insular, a contrastar com o adiamento permanente da solução das condições técnicas e operacionais capazes de contribuir para a optimização de uma operação já de si condicionada pela acentuada sazonalidade do tráfego, pela extensão de uma rede desenhada para servir uma região descontínua onde se geram fluxos de tráfego muito assimétricos e, por vezes, fortemente direccionais, a que acresce a necessidade verificada ao longo dos anos de uma constante adaptação à penetração da TAP no arquipélago à medida que se abriam ao tráfego novos aeroportos e novos voos de cabotagem com o consequente impacto negativo nos resultados da SATA. É iniludível que a SATA viu o seu progresso permanentemente condicionado à inércia e incompetência governativas, antes e depois de 1974; aos interesses monopolistas da TAP a ponto desta última predominar na sua gestão durante muitos anos; e, por fim, a uma prolongada e perniciosa indefinição das orientações de política visando alternativas de viabilidade para que, de facto, servisse os Açores.

Em termos de estatuto empresarial, em 1972 a SATA seria partilhada entre a TAP e a Bensaúde e constituída em S.A.R.L. Com o ano de 1980 e a crescente intervenção do Governo Regional dos Açores, a SATA vê alterada a sua designação social para SATA – Serviço Açoriano de Transportes Aéreos E.P., enquanto que em 1987, numa iniciativa mais ousada e que terá em vista a sua futura emancipação como empresa de transporte aéreo, a companhia passa a designar-se SATA – Air Açores, sendo-lhe consignado um novo estatuto no qual é visível aquela preocupação de ultrapassar as barreiras do arquipélago.

Entre os galardões obtidos ao longo da sua existência, à SATA foi atribuída em 1987 a Medalha de Prata de Mérito Turístico concedida pelo Secretário de Estado do Turismo, e em 1994 a Medalha de Honra, pela ocorrência do 50.º aniversário, concedida pela ICAO – International Civil Aviation Organization.

O ano de 1999 marca uma viragem essencial na existência da SATA, ano em que a companhia, utilizando um Boeing 737 com o nome de «S. Jorge», passa a deter a concessão para ligar regularmente os Açores, a Madeira e o continente. Concretizava-se uma velha aspiração de operar sem constrangimentos para fora do arquipélago, sendo visível o sucesso da empresa no crescente dimensionamento da frota e nos resultados anuais da exploração a apontar para uma gestão bem sucedida.

Após uma experiência de operação ligando as ilhas da Madeira e do Porto Santo, na decorrência da rescisão da Aerocondor, a SATA apresentou proposta para exploração da linha, pelo que a partir de Agosto de 2007, por um período de 3 anos, assumiu a concessão da mesma. Ricardo Manuel Madruga da Costa

Bibl. Costa, R. M. M. (1989), Açores. Western Islands. Um contributo para o estudo do turismo nos Açores. Horta, Direcção Regional de Turismo. Dias, F. S. (1997), Edição Comemorativa do 1.º Voo Comercial. Diário de Navegação. Ponta Delgada, Ed. da SATA-Air Açores. Silva Júnior, J. (1991), Augusto Arruda. A Terra e o Homem. No Centenário do nascimento do Dr. Augusto Rebelo Arruda (1888-1988). Ponta Delgada, Signo [Edição patrocinada pela SATA na comemoração do 50.º aniversário da constituição da Sociedade Açoriana de Estudos Aéreos, L.da.].