Santo Amaro (freguesia)
História, actividades económicas e culturais com uma área de 21,23 km2 a freguesia confronta a norte e sul com o oceano Atlântico, a oeste com as Velas e a este com o Norte Grande e a Urzelina. A sua topografia acidentada ditou-lhe um povoamento disperso por várias localidades, predominando a ocupação do sul. É difícil precisar a data de ocupação de Santo Amaro. Pela sua proximidade à vila das Velas é admissível que aí se tenham fixado os primeiros habitantes em inícios do século XVI (Santos, 1987: 29), concomitantemente com o desenvolvimento do eixo Urzelina-Manadas. Em finais do século XVI Gaspar Frutuoso referia a existência de uma ermida junto à Ribeira de Santo Amaro, o que pressupõe a ténue ocupação da freguesia (Frutuoso, 1998, 91), assim como a alusão de Frei Diogo das Chagas, pela qual se faziam extensas romarias a essa ermida por ocasião dos milagres verificados aquando do vulcão de 1580 (Chagas, 1989: 502; Drumond, 1990: 370). Apesar destes indícios de ocupação, Santo Amaro só seria elevado a paróquia em 1691 (Santos, 1987: 40; Avellar, 1902: 298), sendo a sua actual igreja edificada no século XVIII. A festa religiosa da paróquia realiza-se no primeiro Domingo depois de 15 de Janeiro. Pelo menos até finais do século XVIII, Santo Amaro fora também conhecido por «lugar do Almeida» por referência a Jácome Gonçalves de Almeida, ouvidor de um dos capitães donatários e aí residente (Velas. Município, 2007: 16). Aliás, em 1637, este ouvidor era o maior detentor de escravos em todo o concelho de Velas (Santos, 1987: 79; Arquivo dos Açores, 1983, V: 505).
Ao nível do património religioso assinale-se a existência de uma Casa do Espírito Santo junto à igreja paroquial, as capelas de Nossa Senhora da Luz (Queimada), Desterro e de São Vicente Ferrer (Fajã), Cristo Rei (Caminho de Cima), São José (Toledo), e a ermida da Boa Hora nos Mistérios, datada de 1711 e restaurada em 2003 (Avellar, 1902: 299; Velas. Município, 2007: 16; São Jorge. Guia [
], 2003: 90-93; Cunha, 1981, I: 266, 394).
São escassas as referências à evolução demográfica desta freguesia. Segundo uma finta municipal realizada em 1706-1707, existiam 122 fogos, já incluídos os 28 do lugar do Toledo, o que aponta para um total de 488 habitantes (Santos, 1987: 84). Em 1766 teria 508 (Madeira, 1997: 94), 637 em 1797 (Matos, 1997: 580) e 1033 em 1849 (Silveira, 2001: 837). Os habitantes distribuíam-se pelo centro da freguesia mas, também, pelo lugar do Toledo, situado na encosta norte, onde predomina a criação pecuária. Esta localidade fora ocupada mais tardiamente a partir do povoamento de Velas-Rosais e da Calheta-Ribeira-Seca, constituindo parte do arrendamento da Pontinha (Santos: 1987: 39, 156). Para além do Toledo assinalem-se os núcleos da Queimada, Fajã e Mistérios (que englobam o curato da Boa Hora desde 1861), Ribeira do Almeida e as fajãs de Vasco Martins e da Ponta Furada situadas no norte. A freguesia foi atingida pelas erupções vulcânicas de 1580 e de 1808, donde ocorrem avultados prejuízos materiais e algumas alterações topográficas (Avellar, 1902: 303; Arquivo dos Açores, 1983, V: 438). A localidade dos Mistérios resulta, precisamente, das lavas expelidas pelo vulcão de 1580.
Está a freguesia dotada de pequenos portos, mormente na Queimada (1863) e Fajã, havendo a assinalar pequenas fortificações hoje destruídas como o forte de S. Miguel Anjo, na Queimada, e o do Desterro, na Fajã; neste último ocorreu o desembarque da expedição liberal («salto de Vila Flor») em 9 de Maio de 1831 (Avellar, 1902: 301). A escola primária masculina data de 1862, e a feminina de 1868; o cemitério paroquial foi inaugurado em 1834 (Avellar, 102: 299).
As principais produções da freguesia assentavam na pecuária e no fabrico do queijo da ilha, a par da agricultura de subsistência. Actualmente a economia de Santo Amaro continua a basear-se na produção de queijo através da sua Cooperativa de Lacticínios e de uma outra queijaria recentemente instalada. A inauguração do aeroporto de S. Jorge, em 1983, trouxe maior dinamismo à freguesia, com o aumento do número de serviços e infra-estruturas. Na zona da Queimada e Fajã existem, ainda, diversas moradias, quintas e pomares de habitantes da freguesia e ilha, designadamente das Velas. Assinale-se a existência de um pólo agrícola da Escola Profissional de São Jorge, e de alguns solares, nomeadamente o dos Remédios.
Em Santo Amaro encontram-se diversos trilhos pedestres, nomeadamente o de acesso à Gruta da Caldeira, a Reserva Florestal de Recreio das Macelas com cerca de 6 hectares, e diversos miradouros, entre os quais se contam o das Macelas e o mirante sobre a vila das Velas. Na sua gastronomia destacam-se o fabrico da espécie, rosquilhas brancas, esquecidos, suspiros e vésperas, doces, aliás, comuns a toda a ilha (Velas. Município, 2007: 20). A Sociedade Filarmónica de Recreio Amarense, fundada em 1929, desempenha diversas funções culturais para além da divulgação da música. Paulo Lopes Matos
Bibl. Arquivo dos Açores (1983). Ponta Delgada, Universidade dos Açores, V. Avellar, J. C. S. (1902), Ilha de São Jorge (Açores). Apontamentos para a sua História. Horta, Tip. Minerva Insulana. Chagas, D. (1989), Espelho Cristalino em Jardim de Várias Flores, direcção e prefácio de Artur Teodoro de Matos, colaboração de Avelino de Freitas Meneses e Vítor Luís Gaspar Rodrigues. Ponta Delgada, Secretaria Regional da Educação e Cultura/Centro de Estudos Doutor Gaspar Frutuoso da Universidade dos Açores. Cunha, M. A. (1981), Notas Históricas. I Estudos sobre o Concelho da Calheta (São Jorge), recolha, introdução e notas de Artur Teodoro de Matos. Ponta Delgada, Universidade dos Açores. Drumond, F. F. (1990), Apontamentos Topográficos, Políticos, Civis e Ecclesiásticos para a História das Nove Ilhas dos Açores servindo de suplemento aos Anais da Ilha Terceira, introdução de José Guilherme Reis Leite. Angra do Heroísmo, Instituto Histórico da Ilha Terceira. Frutuoso, G. (1998), Livro VI das Saudades da Terra, edição de João Bernardo de Oliveira Rodrigues. Ponta Delgada, Instituto Cultural de Ponta Delgada. Madeira, A. B. (1997), População e Emigração nos Açores (1766-1820). Apêndice documental. Ponta Delgada, Universidade dos Açores. Matos, P. L. (1997), A população da ilha de S. Jorge na última década de Setecentos: estrutura e comportamentos, in O Faial e a Periferia Açoriana nos Séculos XV a XIX. Horta, Núcleo Cultural da Horta: 551-582. Pereira, A. S. (1987), A Ilha de S. Jorge (Séculos XV-XVII). Contribuição para o seu estudo. Ponta Delgada, Universidade dos Açores. São Jorge. Guia do Património Cultural (2003). S.l., Atlantic View Actividades turísticas. Velas. Município (2007). Velas, Câmara Municipal de Velas. Silveira, L. N. E. (2001), Os Recenseamentos da População Portuguesa de 1801 e 1849. Edição Crítica. Lisboa, Instituto Nacional de Estatística, II.
