Santa Cruz das Flores (vila e freguesia)
História, actividades económicas e culturais Sede do concelho, fica situada na parte norte da ilha das Flores voltada a este, tem 1.810 habitantes, 576 famílias e 665 edifícios (Censos 2001: 54-94). É constituída pela vila, propriamente dita, localizada na planície a este da ilha, e pelas localidades rurais do Monte e da Fazenda a norte e da Ribeira dos Barqueiros e da Boavista a sudoeste. A estas localidades correspondem a outras tantas irmandades do Espírito Santo. Nestas seculares instituições todos os anos se realizam as respectivas festas.
De aspecto citadino, as ruas mais primitivas da vila, onde se situa a maioria dos serviços e dos comércios, convergem na Praça Marquês de Pombal, nas proximidades do antigo Convento de S. Boaventura, designadamente as ruas da Igreja, do Porto e de acesso ao norte e ao sul da ilha, estas sensivelmente alteradas na sequência da construção da pista do aeroporto, que ficou situada a oeste. Os limites da freguesia são a Ribeira da Cruz ao sul e a Ribeira de Cascalho ou da Alagoa ao norte.
Embora se desconheça a data da sua elevação a vila, sabe-se que em 1587 já era importante centro populacional e que em 1693 já teria 180 fogos e 900 habitantes (Gomes, 2003: 115-116). A partir de 1717 passaria a principal vila da ilha, posição que, graças à sua privilegiada situação geográfica, jamais deixou de ter (Gomes, 2003: 105). A paróquia tem como orago Nossa Senhora da Conceição e sabe-se que a primitiva Igreja Matriz da vila de Santa Cruz, que havia sido edificada na primeira metade do século XVI, foi incendiada por piratas de cinco navios ingleses desembarcados nas Lajes em 25 de Junho de 1587, que terão feito o mesmo a outras igrejas da ilha. Situava-se nas proximidades da actual igreja Matriz que, depois de ter sido tentada em 1782 outra construção no Cerrado da Praça, impossibilitada por falta de consistência dos terrenos, foi uma reconstrução da primitiva. Essa igreja foi então reconstruída e ampliada, e a sua entrada principal passou da rua de Santa Catarina para a rua do Rego, hoje rua da Conceição. Com o seu vistoso e rico frontispício, constituído de pedra lavrada e tendo um belo templo de três naves de pedra, apenas seria dada por concluída em 1859, tendo passado, a partir de então, por várias obras de conservação (Gomes, 2003: 118-120).
Das ermidas de S. Pedro (que terá sido a primeira igreja da ilha), de S. Sebastião, de Santa Catarina e de S. Tomás nada sobra. Por iniciativa do Padre Henrique Augusto Ribeiro (1866-1935), natural dos Cedros, da Horta, ali a paroquiar (que mais tarde recebeu o título de Monsenhor e emigrou para San José, Califórnia, onde edificou a igreja das Cinco Chagas), no lugar da Fazenda foi edificada a igreja de Nossa Senhora de Lurdes, cuja construção foi iniciada em 1897 e terá sido exteriormente concluída em 1909. No mesmo ano de 1897 foi iniciada, no lugar da Boavista, a construção de uma ermida dedicada a Santo António, a qual foi abandonada por falta de apoio financeiro. Todavia, com vista a apoiar a Festa do Mato, instituída em 1933 pelo Padre Alfredo Menezes Santos no lugar da Fonte Frade, que se realizava anualmente com grandes romarias de florentinos, foi ali inaugurada, em 1968, a Capela de Nossa Senhora das Flores (Gomes, 2003: 131-134).
Outro monumento histórico de relevo é o edifício do convento de S. Boaventura, já mencionado, cuja edificação teve origem na sequência da escritura de doação do terreno feita pelo padre Inácio Coelho em 1641, o qual promoveu nesse ano a fundação do convento, bem como o início da sua construção (Gomes, 2003: 126). Essa edificação foi feita por partes, sob a direcção de Frei Boaventura dos Anjos e de Frei Nicolau de Vitória que ali chegaram em 1642 acompanhados de um leigo que, primeiramente construíram a igreja e depois o dormitório e as demais instalações do convento (Gomes, 2003: 127-131). No século XIX, o edifício do Convento, depois de ter deixado de pertencer à Ordem Franciscana, veio a ser adquirido pelo santacruzense, António Vicente Peixoto *Pimentel (1827-1881) que legou à Santa Casa da Misericórdia de Santa Cruz das Flores, a fim de nele ser instalado o Hospital das Flores e do Corvo. Assim, depois de ter funcionado largos anos como estabelecimento hospitalar e de nele ter estado temporariamente o Externato de Nossa Senhora da Conceição, passou a funcionar como Museu das Flores, inaugurado em 11 de Novembro de 1993 (Trigueiro, 2000: 288-289).
A população local vive essencialmente dos serviços, da agro-pecuária e da pesca. Os serviços públicos são os maiores empregadores, havendo, contudo, vários empregadores privados, designadamente no sector comercial. Na agro-pecuária, mais evidente nos meios rurais, predominam as pequenas explorações de tipo familiar voltadas essencialmente para o gado bovino de carne e leite, já que a produção de trigo, milho, batatas doce e branca, inhames, feijão, couves e outras hortaliças já têm pouca expressão económica. Situados em ribeiras da freguesia chegaram a existir, para moer cereais, cerca de 19 moinhos de água, de tipo rodízio de roda horizontal, sem terem estado todos em actividade. A cooperativa agrícola de lacticínios que havia sido criada em 1918 hoje faz parte da União das Cooperativas de Lacticínios, cuja sede e fábrica se situa no lugar dos Vales da freguesia. Quanto à pesca, que antigamente era complementada com a caça ao cachalote, está em acentuada decadência devido à escassez de peixe e à falta de gente nova para revitalizar a actividade (Trigueiro, 2003: 41-59). Para a caça do cachalote, que ali fora iniciada ainda no século XIX, chegaram a existir duas empresas armadoras que, nos últimos anos da sua actividade, nas décadas de 1970 e de 1980, viriam a fundir-se com a de Lajes das Flores, formando a União das Armações Baleeiras das Flores e do Corvo, cujo património, já muito reduzido e envelhecido, hoje pertence à empresa armadora José Augusto Lopes (herdeiros).
Nela situa-se a Escola Básica Integrada Padre Maurício António de Freitas, em cujo estabelecimento é ministrado o ensino secundário, onde são recebidos estudantes de toda a ilha.
A Filarmónica «União Musical e Cultural Dr. Armas da Silveira», que terá sido a herdeira ou continuadora de outras bandas já existentes na vila a partir das últimas décadas do século XIX, possuidora de sede própria aberta, tem a sua actividade musical suspensa. Conheceu tempos áureos da sua actividade musical e teatral quando entre 1915 e 1942 na vila existia também a Filarmónica «União Musical Operária Nossa Senhora da Conceição», rivalizando com esta nas mesmas artes culturais e recreativas (Trigueiro, 1998: 17-35).
A partir de 1939 organizou-se na vila a primeira equipa de futebol, o Sporting Club das Flores, que competia com as equipas da vila das Lajes e das freguesias da Lomba e da Fajã Grande. Em 1940 foi ali recebida a equipa de futebol do Sporting Club da Horta, que era assim a primeira equipa a deslocar-se à ilha, onde permaneceu cerca de uma semana. Seguiu-se, em 1953, a organização da equipa da União Desportiva de Santa Cruz das Flores que, para além de defrontar as equipas de futebol da ilha, recebeu, em 1956 a equipa do Fayal Sport Club, que ali se deslocou integrada numa excursão teatral da FNAT, que integrava um grupo de variedades musicais. A modalidade de futebol, embora passando por curtos períodos de suspensão, tem sido ali praticada, quase sempre com a existência de duas equipas locais. Desaparecidas aquelas equipas, foi criada, em 1964, a do Boavista que, com outras equipas da ilha, integraram o desporto da FNAT/INATEL. Em 1974 foi criada a equipa do «Minhocas», que entrou na mesma organização, clubes estes que instituíram sedes próprias ainda hoje existentes (Trigueiro, 1998: 49-62). Já depois de meados de 1980 essas equipas passaram para o futebol federado na Associação de Futebol da Horta, onde chegaram a ter representação nos regionais, tendo chegado a possuir futebolistas profissionais que as deixaram em péssimas situações financeiras. A vila está assim dotada de um campo de futebol municipal, com piso sintético, de um ginásio e de polidesportivos onde se praticam outras modalidades, nomeadamente o futsal.
Com existência desde a década de 1980 o Grupo de Teatro a «Jangada» tem vindo a exercer importante actividade teatral amadora, quer na ilha, quer fora dela. Para a divulgação do folclore também existe na vila o Grupo de Modas e Cantares, criado em 1986, hoje ligado à Casa do Povo local (Trigueiro, 1998: 33-34), cuja actividade tem passado por diversas suspensões temporárias.
Pertencente à Santa Casa da Misericórdia de Santa Cruz das Flores, funciona em instalações próprias o Lar de Idosos, inaugurado em 10 de Outubro de 1994 (Trigueiro, 2000: 297). Essa instituição possui também uma farmácia que funciona anexa ao Centro de Saúde das Flores. José Arlindo Trigueiro
Bibl. Censos 2001. Angra do Heroísmo, SREA - Região Autónoma dos Açores. Gomes, F. A. N. P. (2003), Ilha das Flores: da redescoberta à actualidade. Lajes das Flores, Câmara Municipal de Lajes das Flores. Trigueiro, J. A. A. (1998), Filarmónicas das Flores. Santa Cruz das Flores, Câmara Municipal de Santa Cruz das Flores. Id. (1998), Futebol na Ilha das Flores. Lajes das Flores, Câmara Municipal de Lajes das Flores. Id. (2000), Açores-20 anos de Autonomia. Horta, Edição do autor. Id. (2003), Retalhos das Flores Factos Históricos do Século XX. Lajes das Flores Câmara Municipal de Lajes das Flores.
