Saldanha, António de

[N. ?, ? – m. ?, 3.9.1654] Filho (o quinto) de João de Saldanha, comendador de São Martinho de Santarém, da Ordem de Cristo. Serviu na Índia entre 1613 e 1623 como soldado, capitão e capitão-mor de navios pelejando no mar e em terra. Foi capitão-mor da gente da guerra na fortaleza de Mangalor, em 1618.

Já em Portugal foi um dos fidalgos da conjura da Restauração de 1640 e formou o grupo de oito desses fidalgos, que por delegação dos outros, fixaram o dia 1 de Dezembro para o levantamento contra os usurpadores. Teria ele sido, em 1639, confidente do duque de Bragança, o futuro D. João IV, da sua disposição de aceitar a coroa portuguesa.

Participou activamente nas acções de tomada do paço e prisão da vice-rainha, a duquesa de Mântua.

Logo no dia 2 de Dezembro recebeu dos governadores interinos do Reino, a incumbência de como coronel comandar ao terço de Henrique Correia da Silva, para com ele guardar a cidade de Lisboa depois de proclamada a Restauração. Com uns poucos soldados montou cerco ao Castelo de São Jorge e conseguiu de imediato a rendição das forças castelhanas que o guarnecia. A 29 de Dezembro foi nomeado governador da Torre de Belém.

Assinou o auto de juramento dos Três Estados na aclamação de D. João IV, em 28 de Janeiro de 1641. Foi também conselheiro de guerra.

Foi ele o escolhido, no início de Fevereiro de 1642, para comandar uma armada de socorro à ilha Terceira, onde as ordenanças cercavam os castelhanos no Castelo de Angra. Era o segundo socorro porque o primeiro, uma armada comandado por Tristão de Mendonça Furtado, se perdera no mar.

António de Saldanha foi nomeado por carta patente de 22 de Fevereiro de 1642 capitão-geral de mar e terra dessa jornada. Por alvará de 11 de Março de 1642, foi-lhe dada comissão e poder bastante para acertar e negociar a rendição do governador do Castelo, Álvaro de Viveiro, e formalmente na mesma data outro alvará atribuiu-lhe jurisdição sobre a administração da justiça e da fazenda nas ilhas, podendo tomar decisões a que todos obedeceriam como se fossem do próprio rei. Na prática ia à Terceira investido no poder de vice-rei.

António de Saldanha saiu de Lisboa a 15 de Maio de 1642 e chegou ao porto de Angra a 23 com sete caravelas, informa Maldonado, que levavam 800 infantes, munições e artilharia grossa. Em sua companhia seguia Gaspar Cardoso Cardim, nomeado arcediago da Sé de Angra, provisor do bispado e vigário-geral e o mestre-de-campo Manuel de Sousa Pacheco, nomeado governador do Castelo.

Quando Saldanha chegou à Terceira a fortaleza já estaria rendida e os castelhanos fora do castelo o que lhe causou grande tristeza não escondendo ele a contrariedade. Foi recebido com pompa excessiva, porque nisso capricharam os capitães e autoridades de Angra. Recebeu das mãos do capitão-mor de Angra, João de Bettencourt, que interinamente comandou o Castelo, as chaves da fortaleza. Logo de seguida desembarcou a infantaria que fez o presídio no Castelo de Angra acabando assim a função das ordenanças.

O general desdenhou as condições da capitulação dos castelhanos e tentou emendá-las, o que conseguiu, tendo embarcado os 200 castelhanos, a 15 de Maio, dos quais apenas 57 armados com arcabuzes e mosquetes e não com todas as armas como ficara acordado nas capitulações. Contudo, como é sabido, dos oficiais maiores só saíram da Terceira o governador Viveiros e seu irmão D. Luís, tenente-capitão. Todos os outros e muitos soldados optaram por permanecer na ilha e aceitar o novo rei.

Mandou fazer obras de reforço na fortaleza na plataforma baixa da Ponta do Zimbreiro, contra a opinião de muitos técnicos de fortificação. Passou revista aos fortes da costa da Terceira.

Entretanto havia chegado a Lisboa Francisco de Ornelas da Câmara a levar ao rei a boa nova da conquista do Castelo e logo o monarca escreveu uma carta ao general Saldanha (25 de Abril de 1642) mandando-o regressar e dando instruções para trazer da ilha a artilharia dispensável e gente de armas. De novo informa Maldonado, que o general levou de Angra 25 falcões de bronze e peças de ferro, com grande desgosto dos angrenses, e ainda 6 câmaras de bronze, 25 de ferro e mais 1 peça de bronze e outras inutilizadas.

Aproveitou a passagem por Angra do governador de Cabo Verde, que se retirava para Lisboa numa fragata, nomeou-o almirante, guarneceu-a de infantaria e retirou-se.

Deixou de presídio no Castelo 300 soldados infantes divididos em 3 companhias debaixo de uma só bandeira. Deu-lhe regimento (conhecido pelo regimento velho) para bom governo do Castelo e recebeu homenagem, como o rei ordenara, do novo governador português o mestre-de-campo Manuel de Sousa *Pacheco.

A 16 de Agosto zarpou da baía da cidade com as companhias da infantaria que levantara e com os cavalos que comprara, o que fizera com a desvalorização da moeda que empreendera e com outro dinheiro da Fazenda Real. Chegou a Lisboa a 20 de Setembro de 1642.

Serviu ainda nas guerras da Restauração na fronteira do Alentejo e a 29 de Agosto de 1643 foi nomeado governador da praça de Elvas, que governou até finais de Outubro.

Ao morrer em 1654 era alcaide-mor de Vila Real e comendador de São Salvador de Sarrazes da Ordem de Cristo. J. G. Reis Leite

Fontes. Cartas patentes, alvarás e outros documentos, João Saldanha de Oliveira e Sousa – Serviços de António de Saldanha ... in A nobreza na Restauração de Portugal (1940), Lisboa, Palácio da Anunciada: 27-40.

 

Bibl. Maldonado, M. L. (1990), Fenix Angrence. Angra do Heroísmo, Instituto Histórico da Ilha Terceira, II: 243-249. Sousa, J. S. O. (1940), Serviços de António Saldanha na aclamação del rei D. João IV in A Nobreza na Restauração de Portugal. Lisboa, Palácio de Anunciada: 3-25.