Saldanha (1.º conde, 1.º marquês, 1.º duque de)

[N. ?, 17.11.1790 – m. Londres, 21.11.1876] João Carlos Gregório Domingos Vicente Francisco de Saldanha Oliveira e Daun. Figura controversa, mas incontornável do liberalismo português, a sua biografia é sobejamente conhecida, interessando aqui invocar somente a sua ligação aos Açores.

Quando nos finais de 1828 os liberais viviam na Terceira dias difíceis provocados pelas profundas dissidências no seio da Junta Governativa dirigida pelo general Diocleciano *Cabreira, *Palmela decidiu nomear governador das armas dos Açores o então conde de Saldanha para substituir Cabreira e repor a ordem na ilha. Saldanha reuniu um grupo de 600 voluntários de entre os emigrados em Plymouth, onde se contavam nomes sonantes da esquerda liberal, e com eles embarcou em quatro navios fretados, a 6 de Janeiro de 1829, rumo à Terceira.

Palmela tentou obter autorização do governo inglês para esta saída de emigrados para a ilha, mas percebeu que, mesmo indo os voluntários desarmados, o governo inglês, que fazia bloqueio nos mares dos Açores, impediria o desembarque. Assim, deu instruções a Saldanha para que no caso de não poder efectuar o desembarque seguisse para o Brasil com os seus homens.

Na Terceira o general Cabreira, que tinha grandes desinteligências com Saldanha, ao saber da notícia da sua nomeação resolveu abandonar a ilha e fazer-se substituir pelo irmão, o brigadeiro Sebastião *Cabreira na presidência da Junta Governativa.

Saldanha chegou à Praia a 16 de Janeiro e, tal como previa, foi impedido de desembarcar por duas fragatas inglesas, a Ranger e a Nimrod, comandadas pelo comodoro Walpole que abriu fogo sobre o navio em que estava o próprio Saldanha. Seguiu-se uma troca de correspondência entre ambos os comandantes e um protesto formal de Saldanha e dos seus companheiros, tendo este declarado que se o comodoro o impedia de desembarcar se considerava seu prisioneiro, coisa que Walpole não queria, mas tratou de comboiar os navios de Saldanha e conduzi-los para longe de águas açorianas até 24 de Janeiro.

Saldanha na sequência deste episódio decidiu não tomar a rota para o Brasil como as instruções de Palmela mandavam, mas aportou a França. Enfureceu-se Palmela com a desobediência, não se coibindo de censurar Saldanha, afronta que este nunca lhe perdoou, iniciando assim uma animosidade entre ambos com consequências políticas graves.

Palmela demitiu mesmo Saldanha do cargo de governador das armas dos Açores e comunicou-o por escrito ao general Cabreira, dizendo que a demissão era efectiva mesmo que o conde tornasse à ilha.

Contudo, apesar deste desaire o episódio da Praia causou a maior sensação e repúdio na Europa, muito principalmente em França, onde o governo de Neuvile era favorável aos liberais portugueses o que levou o governo inglês a moderar o seu bloqueio, permitindo assim que Palmela enviasse com êxito socorros aos liberais na Terceira. Em Março de 1829 tinham desembarcado na ilha 1000 homens, 50 peças de artilharia e 400 espingardas.

Outra das influências de Saldanha na situação dos liberais nos Açores prende-se com a sua autoridade como chefe da esquerda liberal, herdeira dos princípios constitucionais do vintismo e inimiga do cartismo de D. Pedro e dos seus amigos.

Na França, Saldanha colaborou no periódico Le Nacional e conviveu com os democratas franceses que certamente o influenciaram nas suas opções esquerdistas e na fundação e propagação da Maçonaria e da Carbonária. Foi grande a influência dessas correntes de política liberal nas ilhas dos Açores sonde emigrados amigos de Saldanha fizeram a propaganda da esquerda liberal e organizaram lojas maçónicas e a carbonária, que assinou e formou os quadros do radicalismo que tomou força na política açoriana depois da saída de D. Pedro com o Exército Libertador, em Junho de 1832.

Assim, Saldanha sem nunca ter estado nos Açores teve enorme influência nos destinos do liberalismo nas ilhas, principalmente no período em que foi o chefe dos radicais, também conhecidos por saldanhistas, o que durou até 1835, quando ele próprio voltou às hostes cartistas. J. G. Reis Leite

Fonte. Protesto de Saldanha e seu companheiro dirigido ao comodoro Walpole e correspondÊncia trocada entre Saldanha e o mesmo comodoro in Francisco Ferreira Drumond, (1981), Anais da Ilha Terceira. 2.ª ed., Angra do Heroísmo, Secretaria Regional da Educação e Cultura: 370-383.

 

Bibl. Costa, A. (S. M.), (1879), Vida do Marechal Saldanha. Lisboa, Imprensa Nacional. Drumond, F. F. (1981), Anais da Ilha Terceira. 2.ª ed., Angra do Heroísmo, Secretaria Regional da Educação e Cultura, IV: 195-197. Leite, J. G. R. (2007), Teotónio de Ornelas. Angra do Heroísmo, Instituto Açoriano de Cultura: 75-96. Maia, F. M. A. F. (1988), Capitães-generais (1766-1831). 2.ª ed., Ponta Delgada, Instituto Cultural de Ponta Delgada: 297-304. Nobreza de Portugal (1961). Lisboa, Editorial Enciclopédia III: 260-273.