Rua, Francisco de la

[N. ?, ? – m. ?, ?] Capitão. Governador interino do Castelo de São Filipe do Monte Brasil (1607 a 1609). Veio para os Açores em 1583, na expedição do Marquês de Santa Cruz, servindo como alferes do terço de D. Francisco Bobadilha. Servira, anteriormente, no reino da Flandres. Durante as operações de desembarque na baía das Mós, caiu ao mar com a bandeira. Apesar deste percalço, foi dos primeiros espanhóis a saltar em terra. Pelo seu desempenho em combate, o Marquês deu-lhe uma companhia de infantaria com a qual serviu nos Açores. Cedo terá ido para o Faial, pelo menos em missões pontuais, onde o encontramos, em 1587, a combater corsários que haviam desembarcado na ilha, fazendo alguns prisioneiros. Entretanto, na Terceira, o mestre-de-campo Juan de *Horbina enfrentava a ameaça de um motim dos soldados, devido à penúria e falta de pagamento de soldos. O capitão Francisco de la Rua foi chamado a Angra, sendo-lhe entregue o comando de quatro companhias que acabou por aquietar. Em 1591, assumiu o governo militar do Faial e o comando do destacamento espanhol aí sediado, substituindo nessas funções o capitão Diogo Soares de Salazar. A ameaça sempre latente de acometimento da ilha por forças inimigas, contra as quais o pequeno contingente que comandava – cerca de cento e trinta soldados – pouca resistência poderia dar, preocupou-o, naturalmente. Em 1594, propôs o reforço da guarnição com uma companhia de arcabuzeiro, pretensão considerada necessária, mas não satisfeita. A situação agravou-se, em 1596, quando a intenção da Grã-Bretanha de enviar para os mares dos Açores uma significativa força naval passou a ser conhecida. O capitão Francisco de la Rua expôs superiormente as suas preocupações, porém o contingente que guarnecia a vila da Horta não foi reforçado: o rei mandou que a guarnição recolhesse à Terceira, se viesse a verificar-se situação de perigo efectivo! Porque o inimigo não avisaria quando e onde atacaria, o capitão Francisco de la Rua, previdentemente, elaborou um plano de defesa para a sua companhia, abrindo trincheiras e levantando obras de faxina no monte Queimado, atrás das quais pretendia posicionar a sua companhia e defender-se com honra. Com a chegada ao arquipélago da armada do Conde de Essex, o mestre-de-campo D. António *Centeno, ao tempo governador do presídio espanhol nos Açores, ainda ordenou, primeiro que o capitão Francisco de la Rua retirasse com a sua gente e artilharia para o Pico, depois que recolhesse à Terceira. A dificuldade de transportar a artilharia para o Pico, bem como o pedido da Câmara da Horta para que o capitão Francisco de la Rua não abandonasse a vila, levaram-no a não dar cumprimento às ordens do mestre-de-campo; e a presença dos navios do Conde de Essex no canal entre S. Jorge e a Terceira, inviabilizou a retirada para Angra. Quando os primeiros corsários ingleses desembarcaram no Faial – 29 de Setembro de 1597 –, o capitão Francisco de la Rua mandou contra eles as tropas das Ordenanças, comandadas pelo capitão-mor Lopo Gil Fagundes, recolhendo com a sua gente à precária fortificação do monte Queimado; e quando as forças desembarcadas, pelo elevado número, puseram em perigo a sua posição, abandonou a artilharia e refugiou-se no interior da ilha, deixando a Horta a saque. Pôde, assim, afirmar que não perdera nenhum homem. Passado o perigo, embarcou com os seus soldados para Angra. Em Abril de 1598, já estava com uma companhia de piques nas Lajes e Vila Nova, na Terceira. No mesmo ano, seguiu com a sua companhia para S. Miguel, em reforço da companhia de D. António de Portugal, aí estacionada. Após a redução do contingente espanhol nos Açores à guarnição de Angra, ficou na Terceira. Em 1602-1603 e em 1606, por ordem do mestre-de-campo D. Diego de *Miranda Quiros, o capitão Francisco de la Rua foi à Corte expor a situação do presídio, vendo, neste último ano, os seus serviços nos Açores recompensados com um aumento de soldo. Assumiu interinamente o governo do Castelo, por morte de D. Diego de Miranda Quiros. O seu governo foi marcado pela denúncia de utilização em proveito próprio do trabalho dos soldados, nomeadamente no cultivo do Monte Brasil, e de desvio do dinheiro destinado às obras do Castelo, para socorro da gente de guerra. Em princípios do ano de 1609, após ter entregue o comando do presídio a D. Pedro Sarmiento, voltou à Corte, uma vez mais para dar conta da situação da guarnição espanhola na Terceira. Foi, então, provido no lugar de sargento-mor da milícia do Reino, e nomeado governador das Canárias. Casou no Faial com D. Beatriz, natural da ilha.

Manuel Faria

Fontes. Archivo General de Simancas, Guerra y Marina, leg. 490, docs. 10, 11 e 17; leg. 491, doc. 94 e leg. 575, doc. 140. Idem, leg. 405, doc. 150; leg. 489, doc. 66; leg. 490, doc. 9, 10, 11, 17 e 415; leg. 511, doc. 49; leg. 514, doc. 104; leg. 517, doc. 40; leg. 519, doc. 59; leg. 584, doc. 197; leg. 592, doc. 265; leg. 595, doc. 27; leg. 608, doc. 103; leg. 654, doc. 258; leg. 681, doc. 42; leg. 685, doc. 67; leg. 688, doc. 12; leg. 713, doc. s.n.º; leg. 744, doc. s.n.º. [Ed. em CD do Instituto Açoriano de Cultura].

 

Bibl. Drumond, F. F. (1981), Anais da Ilha Terceira. Angra do Heroísmo, Secretaria Regional de Educação e Cultura: I: 419 e 421 [Fac-simil. da edição de 1850]. Leite, J. G. R. e Faria, M. A. (ed.) (2005), Livro do Tombo da Câmara da Vila da Praia. Angra do Heroísmo, Instituto Histórico da Ilha Terceira: 143. Maldonado, M. L. (1990), Fenix Angrence. Angra do Heroísmo, Instituto Histórico da Ilha Terceira, II: 20 e 28. Meneses, A, F. (1987), Os Açores e o Domínio Filipino (1580 – 1590) II – Apêndice Documental. Angra do Heroísmo, Instituto Histórico da Ilha Terceira: 280 e 282.