RTP-Açores
A RTP realizou a primeira emissão de televisão no arquipélago dos Açores no dia 10 de Agosto de 1975. Uma emissão de seis horas, com início às 15 horas e 30 minutos, inaugurou uma nova etapa de alargamento da televisão em Portugal e deu vida a um projecto que remontava a 1964 mas que, em dez anos, não conseguira ultrapassar as dificuldades da distância e da descontinuidade geográfica dos Açores. Cumpriu-se em 1975, sendo Ramalho Eanes presidente da RTP. A mudança de regime político operada em 25 de Abril de 1974 e o subsequente clima reivindicativo da singularidade política insular favoreceram o rápido desenvolvimento de um arrojado programa de infra-estruturas e de equipamentos. Em menos de um ano, construíram-se dois emissores, um na serra de Santa Bárbara, na ilha Terceira, outro no pico da Barrosa, em S. Miguel, o que, para além das estruturas físicas e de equipamento para transporte de sinal por feixes hertzianos, implicou também a montagem de geradores eléctricos próprios. Construíram-se igualmente cinco retransmissores: no Salto do Cavalo (ilha de S. Miguel), na Lomba do Fogo (ilha do Pico), no Cume (ilha Terceira) e ainda um na ilha Graciosa e outro na ilha de Santa Maria. Das nove ilhas do arquipélago apenas ficaram de fora, na fase inaugural das emissões, Flores e Corvo. No entanto, nas sete ilhas cobertas abundavam as «zonas escuras» e a festa da novidade só chegou a cerca de 60% dos açorianos. A produção da emissão, em instalações provisórias e adaptadas para o efeito na antiga Estação Agrária de S. Gonçalo, em Ponta Delgada, era assegurada por algum equipamento, a que não faltava uma rudimentar régie. Faltava, porém, equipamento de reportagem, pelo que o noticiário não incluía imagens de exterior. A emissão era composta por programas que chegavam de Lisboa, em bobines de filme ou de videotape, por via aérea. Assegurava-se, assim, uma pequena emissão diária de 3 horas, que se alargava a 6 horas nos fins-de-semana, mas com um descanso semanal à segunda-feira. Em 1976, tendo como únicos meios de comunicação directa com Lisboa o telex e o telefone, a RTP-Açores fez a histórica cobertura de quatro actos eleitorais Assembleia da República, Presidência da República, Autarquias Locais e Assembleia Regional. Também em 1976 aconteceu o primeiro debate político na RTP-Açores em debate esteve o projecto de Estatuto de Autonomia Político-Administrativa para os Açores. Davam-se, assim, no campo da informação, os primeiros passos para o arranque, em 1977, da produção regional. Um percurso que começou por ser hesitante e marcado pelas carências de recursos financeiros, humanos e técnicos, mas que, fruto da vitalidade criativa local e de um processo de investimento progressivo, veio a atingir momentos altos de reconhecida qualidade a partir de meados dos anos 80. 1977 foi, aliás, ano de outros avanços decisivos: o aumento do número de horas de emissão (5 horas), o aumento do quadro de pessoal, a construção e equipamento do novo estúdio e a mudança definitiva para a rua Ernesto do Canto, em Ponta Delgada, bem como a organização das delegações de Angra do Heroísmo e da Horta. Finalmente, o momento histórico que revolucionou as emissões televisivas nos Açores: a 18 de Dezembro realizou-se a primeira ligação via satélite entre Lisboa e os Açores. Ao longo dos anos seguintes, novas ligações viriam a permitir a transmissão em sentido inverso, isto é, dos Açores para Lisboa, e dos Açores para outras partes do mundo, nomeadamente, para os Estados Unidos, e vice-versa momentos que foram diluindo as marcas mais profundas do ancestral sentimento colectivo de isolamento. Por outro lado, pela transmissão de acontecimentos comunitários relevantes, como as tradicionais festas religiosas e profanas, foram-se criando progressivamente novos elos de proximidade entre as populações das diversas ilhas, entre estas e as suas comunidades emigradas no exterior e entre os Açores e a população portuguesa do continente. Este processo irreversível, que a própria dinâmica da evolução política e social fez acelerar, traduziu-se no reconhecimento oficial dos Centros Regionais dos Açores e da Madeira da RTP o Decreto-Lei n.º 156/80 de 24 de Maio dotava os Centros de estrutura própria e de autonomia de direcção e de gestão financeira. Nos anos 80 a RTP-Açores adoptou definitivamente a cor na produção e na emissão (1982) e deu-se a conhecer no país e no estrangeiro. A série de ficção «Xailes Negros», documentários como «Pedras Brancas» e «Açores» e musicais como «Memória do Vale» e «Balada do Atlântico» foram recebidos com surpresa e prémios no país e marcaram presença no mercado internacional e em emissões estrangeiras a partir de 1986-1987. A efeméride dos dez anos de televisão nos Açores fora, de resto, assinalada em 1985 com um evento internacional, que veio a transformar-se num certame competitivo anual, subordinado à temática marítima na Horta, realizou-se a 1.ª edição da Mostra Atlântica de Televisão (MAT). Em 1988 foi instituído e atribuído pela primeira vez o Açor de Ouro o galardão da MAT e, alguns anos mais tarde, o Açor de Cristal viria a distinguir uma personalidade, nacional ou estrangeira, que pelo seu percurso e obra pessoal fosse reconhecida como promotora de conhecimentos, valores e cultura do mar. A última MAT realizou-se em Lisboa, em 1998, integrada na temática geral da EXPO98: Os Oceanos Um património para o futuro. «Notícias dos Açores» assegurava, desde 1987, uma presença semanal da RTP-Açores, via satélite, junto de uma vasta comunidade de mais de 500 mil emigrantes, nos Estados Unidos, Canadá e Bermudas. Foi já depois de ser vista além fronteiras que a RTP-Açores passou a ser, finalmente, captada nas ilhas Flores e Corvo. Tratou-se de um verdadeiro «feito» da engenharia e da tecnologia das comunicações, uma vez que, para além de ter implicado a construção de dois emissores Cabeço Gordo, na ilha do Faial e Morro Alto nas Flores o sinal passou a dar, de uma ilha à outra, um «salto» de 273 kms, o que tornou esta obra a maior ligação por feixes hertzianos da Europa e a terceira do mundo, com as dificuldades acrescidas de se realizar sobre o mar. A cobertura do arquipélago pela RTP-Açores, que já em 1981 atingira os 70%, passava, assim, a aproximar-se dos 90% no final dos anos 80, ao abranger as ilhas do grupo ocidental e algumas zonas de outras ilhas, entretanto servidas por novos retransmissores. Esta rede de transporte de sinal por feixes foi, por outro lado, complementada com o cabo de fibra óptica, que passou a ligar todos os emissores entre si e estes aos três pólos da RTP-Açores. Por esta altura, a emissão atingia já mais de doze horas diárias (1989) e a produção regional marcava presença significativa, tanto ao nível da ficção e de programas culturais, desportivos e de entretenimento, como no campo da informação. No final da década de 80 a informação integrara já nas suas práticas de trabalho a recepção diária de noticiários da RTP1, a realização de «directos», quer em programa autónomo, quer no Telejornal, e juntara já à regularidade das reportagens de rotina a capacidade de responder com eficácia a acontecimentos extraordinários, como actos eleitorais, visitas oficiais, eventos nacionais e internacionais e até acidentes e catástrofes naturais. Desde 1975 que os Açores tinham deixado de estar sós; nos anos 90 a RTP-Açores teve de aprender a não estar só no espaço de oferta de televisão nos Açores. O surgimento das televisões privadas em Portugal, a RTP1 em canal aberto a partir de 1997 e o progresso tecnológico das comunicações, rapidamente reflectido na proliferação de antenas parabólicas particulares e no acesso à televisão por cabo nos principais centros urbanos do arquipélago, criaram uma nova realidade. A democratização do acesso às 4 principais emissões nacionais, incluindo duas de empresas privadas, foi garantida a partir de 2005, com apoio financeiro do Governo Regional dos Açores. Actualmente, a RTP-Açores emite cerca de 20 horas diárias, que incluem programas regionais (48%), para além de outros seleccionados dos vários canais da RTP. Além dos 4 programas diários de informação e 5 não diários, a RTP-Açores produz ainda programas de info-entretenimento em simultâneo com a RTP-Internacional, particularmente direccionados para as comunidades de emigrantes. A RTP-Açores é inteiramente financiada pelo orçamento geral da RTP, através das indemnizações compensatórias do orçamento geral do Estado.
As novas condições tecnológicas e de comunicação trouxeram ao panorama da televisão nos Açores mudanças significativas. No entanto, à RTP-Açores coube um papel histórico pioneiro. No campo da comunicação televisiva, como no da construção da moderna identidade do arquipélago. Pela capacidade inovadora de ligação entre todas as ilhas, a RTP-Açores foi um agente activo da construção do conceito de Região um conceito socio-cultural moderno, que nunca existira antes nos Açores, desde sempre organizados e entendidos por grupos de ilhas ou por distritos. Um conceito que, consagrado constitucionalmente no Estatuto da Região Autónoma dos Açores, corresponde à etapa actual da interpretação político-administrativa de Portugal no Atlântico.
Conceição Tavares
Fontes. Informações recolhidas junto da Direcção da RTP-Açores.
Bibl. AA. VV. (1990), RTP-Açores. Edição comemorativa do XV aniversário. Lisboa: TVGuia Editora.
