Rosais (freguesia)

Geografia Freguesia do concelho de Velas, situada na ponta noroeste da ilha de São Jorge. É limitada a oriente pela freguesia de Velas e a norte, sul e oeste pelo Oceano Atlântico. Apresenta uma forma triangular quase perfeita, com 24,2 Km2, o que corresponde a 20,6 % da superfície concelhia, distando da sua sede 6,1 Km, aproximadamente.

A freguesia desenvolve-se num estreito planalto com altitudes médias bastante elevadas (350-450 m), onde sobressaem diversos aparelhos eruptivos alinhados segundo a direcção SE-NW (Figura 1). Todo o território pertence ao Complexo Vulcânico dos Rosais. A altitude máxima (504 m) é registada no Vértice Geodésico do Monte do Trigo. A linha de costa, com 22 Km, exibe imponentes arribas, altas e escarpadas, interrompidas por diversas fajãs detríticas, áreas planas que se prolongam pelo mar, formadas na base das arribas por derrocadas das encostas e aluimentos de terras. Nesta freguesia são conhecidas mais de uma dezena de fajãs situadas, sobretudo, na costa norte, sendo a mais conhecida a Fajã do João Dias. Na ponta dos Rosais emergem alguns ilhéus com características peculiares (Pão de Açúcar), rodeados por arribas rochosas com mais de 200 m de altura. No cimo desta falésia, a cerca de 290 m, ergue-se o mais alto farol dos Açores (Farol da Ponta dos Rosais), hoje desactivado devido aos estragos causados pelo sismo de 1980. A diversidade de espécies e de habitats costeiros levou à designação do Sítio de Interesse Comunitário da Ponta dos Rosais. A rede hidrográfica desta freguesia é muito incipiente, apenas a destacar as Ribeiras da Água, do Belo, da Manga e da Canada das Faias. Alguns cursos têm regime permanente e ao atingirem a costa precipitam-se em cascatas. Ao nível paisagístico, os Miradouros das Sete Fontes e do Pico do Feno constituem pontos de observação de elevado interesse cénico.

Em termos de ocupação humana, o padrão de povoamento é do tipo linear, prolongando-se o edificado pela estrada regional e vias secundárias (canadas). As habitações encontram-se a grande altitude, ocupando as vertentes voltadas a sudoeste. Registos históricos indicam que esta área já era habitada em 1568, sendo considerado o celeiro da ilha em virtude da fertilidade dos seus terrenos. A agro-pecuária, os lacticínios (produção de queijo) e a construção civil são hoje a base económica desta freguesia. No último século a dinâmica populacional teve um comportamento irregular (Figura 2). Entre 1900 e 1920 verificou-se um decréscimo populacional, ao qual se seguiu um período de recuperação, atingindo um efectivo máximo de 1459 habitantes em 1960. A partir desta data dá-se uma nova regressão demográfica atingindo, no XIV Recenseamento Geral da População (INE, 2002), 820 residentes, valor correspondente a uma densidade populacional de 33,9 hab/Km2. João Mora Porteiro

 

Heráldica Apresenta dentro de um escudo de prata um feixe de três espigas de trigo verde atado de vermelho, simbolizando a produtividade do seu solo para o cultivo de trigo, uma das suas principais riquezas ao longo da história. As sete fontes heráldicas de azul e prata alinhadas em orla (duas nos cantões, quatro nos flancos e uma em ponta) representam os locais de interesse público da freguesia, designadamente o parque das Sete Fontes. Apresenta uma coroa mural de três torres e um listel branco com a legenda «Rosais». Paulo Lopes Matos

 

História, actividades económicas e culturais Confronta a leste com a freguesia das Velas, donde dista seis quilómetros, e a norte, oeste e sul com o oceano Atlântico, possuindo uma área de 24,44 km2. Admite-se que o seu primitivo nome fosse «Rosal» relacionando-se talvez com a abundante quantidade de rosas que os primeiros povoadores aí encontraram (Avellar, 1902: 288; Santos, 1987: 35). Terá sido uma das primeiras povoações da ilha – presumivelmente pouco depois do surgimento das Velas – sendo certo que em 1557 já aí residiam cerca de 100 habitantes (Santos, 1987: 35-36), e se apresentava como um importante eixo de povoamento das Velas. Em 1568 já se anotava o ordenado do pároco em 10$00 réis (Avellar, 1902: 289). Boa parte da sua extensão agrária pertencia a dois arrendamentos de fora: o do Pinto e o da Pontinha, ambos extintos no quadro do Liberalismo. A igreja, de invocação a Nossa Senhora do Rosário, foi edificada em meados do século XVI e posteriormente reconstruída no século XVIII. A sua festa religiosa realiza-se a 15 de Agosto. Próximo da sua igreja e do coreto situa-se a casa do Espírito Santo. Passou a contar com cemitério anexo à igreja em 1842, e com escola primária para o sexo masculino a partir de 1866.

A freguesia, longe de se confinar a um centro habitacional, estende-se por vários quilómetros ao longo da estrada que a une às Velas. Ao longo da sua existência os Rosais assumiram-se como uma importante zona agrícola dada a sua orografia mais plana e amenidade climática. Destacava-se o cultivo de trigo – sendo por isso até conhecida como um «celeiro da ilha» – e a criação de gado. A sua participação na gestão municipal era, por tal razão, bastante assídua, sendo que no século XVI dois ou três lavradores integravam o governo da autarquia e tomavam parte na fixação do preço do trigo e da carne (Santos, 1987: 36). O seu crescimento demográfico parece ter sido rápido estimando-se que em 1643 possuísse 582 habitantes, 878 em 1700, 1.221 em 1766 e 1.604 em 1797. O valor mencionado pelo Padre Cordeiro em 1714, de apenas 50 fogos (c. 200 habitantes) parece-nos, pois, incorrecto. Para o século XIX sabe-se terem existido 2.168 habitantes em 1836 e 1.765 segundo o censo de 1864. O decréscimo populacional foi, todavia, muito marcado a partir do último quartel acentuando-se no século XX em virtude da emigração para os Estados Unidos da América.

A população de Rosais dedica-se fundamentalmente à agro-pecuária, lacticínios, comércio, construção civil e carpintaria, estando dotada de uma cooperativa de lacticínios onde se produz o «queijo da ilha». No entanto boa parte dos seus residentes emprega-se na vila de Velas, principalmente no sector dos serviços. No artesanato sobressaem as toalhas de renda, tecelagem, bordados e miniaturas em madeira. Possui, ainda, uma sociedade filarmónica e grupo folclórico (Sociedade Filarmónica União Rosalense fundada em 1935).

Dos locais de maior interesse público destaca-se o Parque Florestal das Sete Fontes construído na década de 1960 pelo Eng.º Técnico João Domingos Pedro Taveira. É dotado de diversos miradouros (principalmente o do Pico da Velha e o da Ferrã de Afonso), de animais e de extensas zonas de lazer; aí se situa também a capela de S. João Baptista e o Monumento ao Emigrante. A fajã de João Dias no norte da freguesia é um local de veraneio de alguns habitantes, atraindo gentes de toda a ilha e vários turistas; possui uma ermida dedicada a Nossa Senhora de Fátima. Existem outras fajãs, nomeadamente a do Centeio, mas já abandonadas em virtude dos sismos de 1964/1965 e 1980. No extremo Oeste, a considerável distância do centro da freguesia, encontra-se o farol construído em 1958, onde em período anterior à crise sísmica de 1980, residiam permanentemente duas famílias. Paulo Lopes Matos

Bibl. Avellar, J. C. S. (1902), Ilha de São Jorge (Açores). Apontamentos para a sua História. Horta, Tip. Minerva Insulana. Chagas, D. (1989), Espelho Cristalino em Jardim de Várias Flores, direcção e prefácio de Artur Teodoro de Matos, colaboração de Avelino de Freitas Meneses e Vítor Luís Gaspar Rodrigues. Ponta Delgada, Secretaria Regional da Educação e Cultura/Centro de Estudos Doutor Gaspar Frutuoso da Universidade dos Açores. Cunha, M. A. (1981), Notas Históricas. I – Estudos sobre o Concelho da Calheta (São Jorge) e II – Anais do Município da Calheta (São Jorge), recolha, introdução e notas de Artur Teodoro de Matos. Ponta Delgada, Universidade dos Açores. Drummond, F. F. (1990), Apontamentos Topográficos, Políticos, Civis e Ecclesiásticos para a História das Nove Ilhas dos Açores servindo de suplemento aos Anais da Ilha Terceira, introdução de José Guilherme Reis Leite. Angra do Heroísmo, Instituto Histórico da Ilha Terceira. Frutuoso, G. (1998), Saudades da Terra, edição de João Bernardo de Oliveira Rodrigues, Livro VI. Ponta Delgada, Instituto Cultural de Ponta Delgada. Instituto Nacional de Estatística (2002), XIV Recenseamento Geral da População. Lisboa, Instituto Nacional de Estatística. Pereira, A. S. (1987), A Ilha de S. Jorge (Séculos XV-XVII). Contribuição para o seu estudo. Ponta Delgada, Universidade dos Açores. Sousa, J. D. (2003), Ilha de S. Jorge. Apontamentos Históricos e Descrição Topográfica. Velas, Câmara Municipal de Velas (ed. original de 1897).