romeiros
A palavra romaria provém de Roma, cidade aonde os novos crentes se dirigiam nos primeiros tempos do cristianismo, por ser aí a capital do império, e mais tarde por ser lugar onde se guardavam as relíquias de muitos mártires. A romaria inicialmente tinha um cariz penitencial e fazia-se com intenções de venerar ou impetrar o auxílio divino e, no caso de sucesso, em agradecimento pelas graças recebidas.
Ao lado das romarias existiam outras formas de penitência/pedido ou agradecimento como as procissões, novenas, peregrinações. Embora com características comuns têm todas as suas especificidades. As romarias foram ao longo dos tempos adquirindo algumas componentes de festa profana, e como tal, algumas ainda hoje são famosas, sobretudo a determinados santuários.
As procissões adquirem, por norma um carácter de solenidade, envolvendo toda a comunidade e apresentando um ar festivo.
A peregrinação tem um cariz mais íntimo, mais pessoal, mais individual.
Estas noções serão necessárias para equacionar o que são verdadeiramente as «romarias» de S. Miguel, pois embora algo parecido exista em outras ilhas açorianas, é em S. Miguel, a maior ilha que elas realmente se desenvolveram com características muito próprias.
Para melhor compreensão, vamos primeiro dissertar acerca da sua origem, para depois explicar o que são realmente as romarias e traçar alguns rumos que lhes estão subjacentes nos tempos actuais.
ORIGEM
Entre as tradições religiosas de S. Miguel, os Romeiros ocupam um lugar de destaque.
Qual seja a origem e a data do seu aparecimento é assunto ainda hoje discutível. Segundo o regulamento, aprovado pelas autoridades eclesiásticas da diocese de Angra e ilhas dos Açores, a origem das romarias remonta ao ano de 1522, quando um terramoto, seguido de um deslizamento de terras, soterrou quase por completo a então florescente Vila Franca do Campo.
Teriam morrido quase todos os habitantes, Frutuoso contabiliza cinco mil, embora seja difícil apontar números exactos. Os sobreviventes, em sinal de penitência, teriam iniciado essas «romarias», que perduram até aos dias de hoje, com mais ou menos brilho, conforme os tempos.
Sendo esta uma tese difícil de sustentar, só a tradição a conserva, vejamos o que dizem os primitivos historiadores.
Gaspar Frutuoso, o primeiro que refere os fenómenos, diz que os habitantes sobreviventes fizeram «procissões em tal dia [22 de Outubro, data do cataclismo], cada ano, como sempre fizeram».
Os cronistas seguintes, sobretudo António Cordeiro, bem como Agostinho de Montalverne mais não fazem que repetir as ideias de Frutuoso, adornando-as com «factos» registados pela tradição.
E assim foi entrando nos costumes de modo a ser consagrado no já citado regulamento.
Sem dúvida que os cataclismos de 1522 e alguns que lhes sucederam, como as epidemias, novos terramotos de 1563, bem como tempestades que frequentemente assolam esta terra, e em especial a ilha de S. Miguel, terão levado os habitantes à convicção que era necessário aplacar a Divindade. Para tal criaram mosteiros, fizeram procissões, alguns mesmo foram ao extremo de se emparedarem, ficando isolados durante muito tempo. Por isso a dúvida no momento da sua origem
Mas as romarias cedo entraram nas tradições populares. A história autêntica da sua origem e começo talvez se encontre num manuscrito, várias vezes nomeado mas nunca encontrado, que um eremita das Furnas, António da Assunção, algarvio de nascimento, teria redigido, nos fins do século XVII, começos do XVIII, e dado o título de Peregrinação que costumam fazer os moradores da Ilha de S. Miguel, visitando as Igrejas de Nossa Senhora.
Neste título está resumido o essencial do que são as «romarias» de S. Miguel: visitas a todas as igrejas onde se venerasse a Virgem Maria sob qualquer das muitas evocações com que é honrada. A data da escrita do livro dá para entender que tal costume estava entranhado na população.
ORGANIZAÇÃO
A romaria, se outrora era mais ou menos espontânea, hoje, íamos a afirmá-lo, encontra-se organizada regulamentarmente.
As romarias realizam-se nas sete semanas da Quaresma, e se outrora eram de sábado a domingo seguinte, hoje, são de sábado, manhã cedo até sábado seguinte pela tardinha.
Muito antes da data acordada para a saída, começa a preparação. Ensaios de cantos, recomendações de «coisas a levar», comportamento dos irmãos, na romaria todos se tratam de irmãos, quer para os que constituem o grupo, quer para com todos os que com os romeiros se cruzam.
Tudo perfeitamente ensaiado, no sábado pré-determinado, sai-se. Aí pelas quatro, cinco horas da manhã o grupo começa a marcha, ouvida a missa se algum sacerdote se mostra disponível para a celebração.
Depois começa o caminho. Chova, vente ou faça sol, ei-los que caminham, filas ordenadas, por montes, vales e carreiros. Quando não há outro remédio, a estrada também serve.
Pernoitam em lugares pré-determinados e aceitam, de bom grado, o acolhimento dos «irmãos» do lugar.
AS INSÍGNIAS DO ROMEIRO
O romeiro veste roupa apropriada. Se nos dias de hoje a essas roupas são atribuídas simbologias próprias, não podemos esquecer que outrora eram elementos indispensáveis à caminhada e sobretudo essenciais para aqueles dias mais invernosos, e para as noites em que não encontravam «irmãos» suficientemente caritativos que lhes proporcionassem leito condigno.
Essas insígnias são: o bordão, o lenço, a cevadeira e o xaile, e naturalmente o terço.
O bordão, varapau adaptado ao tamanho do caminhante, servia de amparo nas dificuldades do caminho e que não eram, não são ainda hoje, poucas. Lêem-no hoje muitos como a réplica do ceptro/cana com que Cristo foi agraciado na sua paixão. Alguns desses bordões, pela arte ou antiguidade, mereciam um trabalho isolado.
O xaile, manta cruzada sobre os ombros, servia para cobrir o corpo, sobretudo nas noites em que o aconchego era menor e defendê-lo da chuva quando esta caía. Comparam-no os simbologistas ao manto de púrpura que cobriu o corpo de Cristo.
O lenço, normalmente um pano bem ornado representa a coroa com que Cristo foi ornamentado na noite da paixão.
A cevadeira é um artístico saco onde em tempos não muito recuados os romeiros guardavam a comida que lhes serviria de alimento nos almoços e jantares. Por norma, hoje, muitos dos ranchos de romeiros dispõem já de «assistência» que dispensa grandes cargas às costas.
A «romaria», em S. Miguel, consiste numa volta à ilha, por caminhos, estradas ou atalhos, visitando todas as igrejas, capelas ou lugares onde se venera qualquer imagem da Virgem. Note-se que no momento actual, são visitadas as igrejas principais das freguesias havendo alguns templos dedicados a Santos ou mesmo à Virgem, que não são visitados.
A volta é feita da mesma maneira, tendo sempre o mar à esquerda.
Em cada lugar de paragem, ontem ou hoje, «levantam-se» orações, outrora da lavra do mestre, hoje, após a intervenção das autoridades eclesiásticas, orações aprovadas pela hierarquia.
A HIERARQUIA NO RANCHO
O rancho de romeiros não é um simples grupo de indivíduos que se junta, em penitência.
Há todo um conjunto de regras a que se torna imperioso obedecer, além de «autoridades» dentro do grupo.
O principal do grupo é o mestre. É a autoridade indiscutível, e sobre os seus ombros caem diversas tarefas: coordenar, sanar qualquer pequeno problema que surja, orientar o grupo. É a alma do rancho e todo o funcionamento do mesmo decorre da sua maneira de actuar. Se outrora aparecia espontaneamente, digamos, hoje precisa ser aceite pela hierarquia eclesiástica e aprovação pelas estruturas que coordenam os romeiros, criadas também regulamentarmente.
A seguir ao mestre, vem o contramestre, substituto do primeiro em caso de força maior.
Consideramos ainda o procurador de almas e os guias.
Ao procurador incumbe aceitar os pedidos de orações feitas pelos fiéis, lembrando a estes que devem rezar tantas ave-marias quanto o número de irmãos romeiros.
Os guias, tal como o nome indica, servem para orientar a caminhada do rancho, para o que devem conhecer os trilhos a seguir, bem como os melhores lugares para o repouso necessário a tal aventura.
A vida do romeiro durante a semana não é fácil. Ergue-se por volta das quatro, cinco da manhã. Toma uma refeição frugal e se é possível, por haver sacerdote disponível, assiste ao santo sacrifício da missa.
Terminadas estas tarefas começa a caminhada, visitando as igrejas ou capelas conforme o relatado anteriormente. A meio da manhã terá uma refeição. Antigamente servir-se-ia da comida que levava. Nesses recuados tempos, na quarta-feira seguinte à saída, recebia a visita da família que normalmente lhe fornecia uma refeição melhorada e reforçava o farnel para o resto da jornada.
Hoje, muitos dos ranchos dispõem de apoios logísticos que lhes possibilitam melhores refeições e as visitas familiares são mais frequentes.
Naturalmente há sempre que considerar a existência de alguns romeiros que fazem a caminhada em verdadeiro jejum, muitas vezes alimentando-se somente a pão e água.
Embora a hierarquia procure contrariar essas tendências, até ao momento tem-nas respeitado.
A tarde é uma cópia da manhã. Chegados ao lugar de pernoita, esperam no adro das igrejas que os «irmãos» do local os vão buscar, para lhes dar guarida, começando pelos jovens e acabando no mestre e seus ajudantes. Estes são sempre os últimos a abandonar o adro e ao outro dia os primeiros a chegar. A recepção em casa de irmãos, quantas vezes desconhecidos, obedece a regras muito rigorosas que vão desde a saudação religiosa na entrada, à possível despedida igual se os habitantes já estiverem levantados, até aos agradecimentos pela refeição da noite e pelo proporcionar de água quente para retemperar os pés.
Passada a semana, a entrada na freguesia faz-se com uma cerimónia solene na Igreja paroquial, sede de onde o rancho é original, e só depois é permitido ao romeiro, rumar a sua casa onde reentrará no comum dos dias familiares.
Até ao momento falamos unicamente de homens. E as mulheres?
É assunto altamente polémico. A verdade é que se também já podemos falar de ranchos de romeiras, o cerimonial e os dias são muito diferentes. Normalmente será caminhada de um só dia entre dois povoados próximos, e quer a hierarquia eclesiástica quer as estruturas que neste momento regem os romeiros são totalmente contra a mistura dos dois sexos, e não favorecem os ranchos femininos!!!
Será actividade em extinção?
Se nos confrontamos hoje com um abandono das práticas religiosas, o que pensar das romarias? Seguirão essa tendência?
Como dissemos por norma os ranchos têm origem nas freguesias, embora possam levar romeiros de várias.
Só para elucidação, por exemplo em 1996, saíram 26 ranchos. Em 2006 foram cinquenta e tantos, contando mesmo um que se organiza na diáspora e que desde há quatro ou cinco anos vem cumprindo as suas promessas. Embora o número de romeiros seja variável, desde há anos a tendência, na maioria dos casos é para aumentar e não diminuir. E alguém que vai por promessa, ou por simples experiência, por norma, repete, mesmo algumas vezes.
É realmente um caso para pensar o que faz correr estes homens, e sobretudo para apreciar a sua influência no desenvolvimento da religiosidade açoriana. J. M. Teixeira Dias
Bibl. Dias, T. (texto) e Saraiva, Á. (fotografia) (1987), Romeiros, Peregrinos de Hoje. Ponta Delgada, Edição de Álvaro Saraiva. Frutuoso, G. (1977-1987), Livro Quarto das Saudades da Terra. 2.ª ed., Ponta Delgada, Instituto Cultural de Ponta Delgada.
