Ribeiro, Agostinho (D.)

[N. Lisboa, ? – m. Lamego, 27.3.1549] Trata-se do primeiro bispo da cidade de Angra, filho de Martim Ribeiro, escrivão da Casa da Índia e de D. Maria de Carvalho, pessoas abonadas e da média nobreza. Ingressou na Congregação de S. João Evangelista, nos frades dos Loios, da qual foi Provincial por duas vezes. Dada a importante reforma da política da assistência pública que teve lugar nos dois governos anteriores, o rei D. João III nomeou-o Provedor do Hospital de Todos os Santos, em Lisboa, e pregador na capela do Paço, o que eram manifestações de alta consideração em que o soberano o tinha. Após o falecimento de um dos seus irmãos em Lisboa, teve conhecimento do alegado abandono espiritual em que vivia a população da ilha do Corvo. Munindo-se das necessárias licença e jurisdição que lhe conferira D. Martinho de Portugal, então arcebispo de Braga, foi ordenado sacerdote e veio a exercer, na referida ilha, nos Açores, o cargo de seu primeiro pároco, missão sacerdotal com plena seriedade e empenhamento, dado que, ao que parece, havia falta de instrução religiosa e da graça dos sacramentos. Também o vigário de Santa Cruz das Flores, que aí devia cumprir o seu cargo, deixara de lá ir. O número de famílias era pequeno: umas trinta, o que equivalia a 150 almas, aproximadamente, tornando os trabalhos muito simplificados – o catecismo era ensinado às crianças, além de lhes serem dadas aulas de Gramática, pondo-os a ler e a escrever, para o que mandou abrir uma escola para o efeito. Mesmo assim, o padre Agostinho Ribeiro era persona non grata, na ilha, e acabou por retirar-se. Apesar desta ingrata atitude dos corvenses, voltou a Lisboa, recebeu o hábito dos cónegos seculares de S. João Evangelista, no Convento de S. Jorge de Recião e, com o decurso do tempo, foi eleito geral do seu instituto. Junto do rei, continuou a advogar os interesses e necessidades espirituais daquela e das restantes ilhas açorianas. A isto, deverá ter ficado a dever-se o facto de o monarca ter proposto, junto do arcebispo, intermediário com a Santa Sé, a sua nomeação para bispo de Angra, agora criada diocese, com o título do Salvador pelo papa Paulo III, a 3 de Novembro de 1534, no primeiro dia do seu pontificado, através da bula Aequum reputamus, erigindo o referido bispado, ao qual foi dada por catedral a igreja da dita invocação na cidade de Angra, ainda sufragânea do Funchal. Tomou posse a 24 de Junho de 1535, mantendo o cargo de provedor do Hospital e tendo partido, logo que pôde, para o arquipélago, pela segunda vez, onde, com a autoridade que lhe cabia, organizou um regulamento do serviço capitular e paroquial da Sé. Quis ainda mandar construir um novo edifício, mais apropriado para a Sé Catedral, mas o corregedor e a Câmara avisaram-no de que, para que tal se realizasse, o povo iria ser muito tributado, pelo que o bispo desistiu, de imediato, do intento. Após dois meses de serviço na ilha de S. Miguel, partiu para Lisboa, onde foi designado reitor da Universidade de Coimbra, por provisão, passada a 27 de Outubro de 1538 (embora já exercesse o cargo desde 8 de Novembro do ano anterior) continuando como bispo de Angra. A 3 de Agosto de 1540, fora transferido, como bispo, para a diocese de Lamego e aqui permaneceu como inquisidor, auxiliado por D. Manuel de Almada, cónego da Sé de Lisboa. João Silva de Sousa

Fontes. IAN/TT (Lisboa), Corpo Chronologico, parte 1.ª, maço 57, n.º 83. Arquivo de Angra, Arquivo do Cabido, Carteira do século XVI, n.º 5.

 

Bibl. Almeida, F. (1968), História da Igreja em Portugal, nova ed. dirig. por Damião Peres. Lisboa-Porto, Livraria Civilização Editora, II: 22, 405 e 679. Archivo dos Açores (1880), dir. por Ernesto do Canto. Ponta Delgada, s. ed., II: 66-69, notas [11] a [13]. Correia, F. S. (1943), Hospitais pre-quinhentistas portugueses (a lição da História), Imprensa Médica. Lisboa, s. ed., ano IX, n.º 23-34. Id. (1942), Os Velhos Hospitais da Lisboa Antiga, Revista Municipal, Lisboa, ano II. Drummond, F. F. (1981), Anais da Ilha Terceira, [reimpressão fac-similada da edição de 1850]. Porto, Governo Autónomo dos Açores, Secretaria Regional de Educação e Cultura, I: 535-547. Marques, A. H. O. (1981), A Sociedade Medieval Portuguesa. Aspectos da Vida Quotidiana. 4.ª ed., Lisboa, Sá da Costa Editora: 104. Pereira, J. A. (1950), A Diocese de Angra na História dos seus Prelados. Angra do Heroísmo, Livraria Editora Andrade: 19-22. Ribeiro, J. P. (1867), Dissertatações chronologicas e criticas sobre a Historia e Jurisprudencia ecclesiastica e civil de Portugal. Lisboa, s. ed., V: 212; Sousa, A. C. (1980), Catalogo dos Bispos da Egreja de S. Salvador da cidade de Angra, In Arquivo dos Açores [reprodução fac-similada pela edição de 1880]. Ponta Delgada, Universidade dos Açores, II: 58-69.