Reserva Natural da Caldeira do Faial
Situada na parte central da ilha do Faial, a uma altitude de 1.043 m, tem um diâmetro de cerca de 2 km, um perímetro com cerca de 6 km e uma profundidade que ultrapassa os 400 m. É uma das maiores atracções turísticas da ilha, mas, também um dos maiores santuários da natureza na região dos Açores.
As encostas rasas de vegetação são abruptas, caprichosas em sinuosidades. Aqui e ali a rocha aparece nua, formando uma fita lavada de cima a baixo pelas chuvas dos invernos. Há pequenos fios de água permanentes, friíssimos, duma sonoridade harmoniosa, que formam cascata para dentro da bacia, caindo numa poeira de prata por entre uma vegetação mais forte e mais escura. O fundo é constituído por lagos onde as plantas aquáticas se agregam em volta de juncais, pondo no espelho límpido da água a graça verde da sua cor viçosa (Costa, 1909).
Tem sido objecto de protecção especial, pelo menos desde 5 de Junho de 1948, quando a Câmara Municipal da Horta proibiu o corte de árvores no seu interior e considerou a zona como de protecção à natureza (O Telégrafo, 1948; 1968). Em 1972, pelo Decreto-Lei n.º 78/72, de 7 de Março, foi criada a Reserva Natural da Caldeira do Faial com o fim de preservar o seu elevado interesse geológico, a originalidade dos seus habitats, a sua riqueza em espécies botânicas e zoológicas endémicas e a sua beleza paisagística.
A área da reserva corresponde a uma caldeira de subsidência formada por abatimento do topo edifício do actual vulcão central da ilha do Faial. As paredes da depressão apresentam-se muito íngremes, sendo praticamente verticais a leste, norte e oeste.
No fundo, quase plano, existe um cone de escórias, basáltico, formado depois da Caldeira, que emitiu pequenos derrames lávicos, emergentes nalguns pontos. No interior da Caldeira ainda pode ser observado um doma traquítico denominado «Rocha do Altar».
A sua topografia gera um microclima responsável pela existência de habitats diversos e de vegetação característica. Entre os primeiros têm sido destacados: (a) os charcos temporários mediterrânicos, planos de água temporários e pouco profundos; (b) as charnecas macaronésicas, dominadas pela urze (Erica azorica) e pelo queiró (Daboecia azorica); (c) as formações de euforbiáceas, onde sobressai o trovisco-macho (Euphorbia stygiana); (d) as turfeiras altas activas, alimentadas essencialmente por águas das chuvas; (e) as laurissilvas dos Açores, comunidades sempre verdes, muito húmidas, compostas essencialmente por espécies endémicas arbóreas e arbustivas; e (f) as florestas macaronésicas, dominadas por cedro-do-mato (Juniperus brevifolia).
Entre as espécies botânicas endémicas, encontram-se ainda a alfacinha (Lactuca watsoniana), a erva-do-capitão (Sanicula azorica), a labaça (Rumex azoricus), a margarida (Bellis azorica) e outras.
O interior da Caldeira é também procurado por cerca de uma dezena de espécies de aves, como o milhafre (Buteo buteo rothschildi), o canário-da-terra (Serinus canarius canarius) e o mocho (Asio otus), que nidificam nas suas encostas. De entre os passeriformes, são comuns o tentilhão (Fringilla coelebs moreletti) e a toutinegra-de-barrete-preto (Sylvia atricapilla atlantis).
Esta reserva encontra-se integrada no Sítio de Interesse Comunitário Caldeira e Capelinhos, pela Directiva Habitats, e na Zona de Protecção Especial Caldeira e Capelinhos, pela Directiva Aves, fazendo parte da Rede Natura 2000.
Na área desta reserva não é permitido nem colher plantas e caçar animais, nem desenvolver quaisquer outras actividades que perturbem as características do ambiente.
Apesar de distante dos centros urbanos da ilha, em tempos, a Caldeira do Faial conheceu uma ligação estreita com a população faialense. Um pequeno nicho junto à borda, onde a 24 de Junho de cada ano era colocada uma imagem de S. João Baptista, foi objectivo da romaria mais movimentada de toda a ilha. Torneando os caminhos do mato, subindo sempre, a viagem fazia-se por caminhos velhos, fundos, sulcados pela água dos invernos. A tradição foi-se perdendo devido não só à distância que os romeiros tinham de percorrer, mas também porque, em meados do século passado, foi construída uma ermida da evocação ao mesmo santo, num local mais próximo da cidade da Horta. Aquele «nicho de S. João» acabou por ruir quando de um abalo de terra na madrugada do dia 9 de Julho de 1998. Luís M. Arruda
Bibl. Carqueijeiro E. (Coord.) (2005), Áreas ambientais dos Açores. [Horta], Secretaria Regional do Ambiente e do Mar/Direcção Regional do Ambiente. Costa, E. (1909), Sobre a Caldeira. In Álbum Açoriano. Lisboa, Tip. Anuário Comercial: 487-490. Freitas, R. (2001), Caldeira do Faial: um santuário da natureza. Paralelo 38, 10: 82-86. O Telégrafo (1948), Horta, 18 de Junho [A Caldeira do Faial considerada zona de protecção à natureza por decisão da Câmara Municipal da Horta]. O Telégrafo (1968), Horta, n.º 20.632, 7 de Agosto [O corte de árvores na caldeira do Faial foi proibido por deliberação da Câmara Municipal da Horta de 5 de Junho de 1948].
