reitores

Reitor, proveniente do latim rectorem, com o sentido de dirigente, tem hoje um campo vasto de aplicação quer religioso quer civil. Por isso vamos dividir este assunto em duas partes fundamentais: religioso, não religioso.

 

SENTIDO RELIGIOSO

 

Reitores de Paróquias e Santuários

Aqui há duas vertentes que importa considerar. A primeira diz respeito a instituições diocesanas, como paróquias ou santuários. No primeiro caso, o das paróquias, embora durante alguns tempos fosse usado esse termo para quem presidia às cerimónias religiosas, ele caiu em desuso.

Actualmente apenas aos dirigentes de alguns, poucos, santuários existentes nos Açores, se aplica o termo. Para que uma igreja seja considerada santuário é necessário que as entidades eclesiásticas como tal a declarem, o que exige algumas condições onde avulta a possibilidade de ser visitada durante as horas normais e que disponha de estruturas condignas.

O mais visível de todos pela importância que vem adquirindo por causa das suas festas é o do Santuário do Santo Cristo dos Milagres, apesar de quase sempre o titular desse cargo acumular com o de Monsenhor, mais individualizante, e por isso mais usado.

Na ilha de S. Miguel, apesar de ser a maior e mais povoada, há apenas este santuário, o do Senhor Santo Cristo dos Milagres, cujo reitor é Monsenhor Agostinho Tavares.

Na Terceira podemos visitar o Santuário de Nossa Senhora da Conceição, onde pontifica, como reitor, o padre Francisco de Loures Monteiro Borges de Medeiros. Além deste, e desde há muito pouco tempo, temos também o templo da Serreta, dedicado a Nossa Senhora dos Milagres, e tem como reitor o padre Manuel Carlos Sousa Alves.

Na Graciosa, encontramos o santuário do Senhor Bom Jesus que tem a presidir como reitor o padre José Carlos Vieira Simplício.

Por último em S. Jorge podemos visitar o Santuário do Santo Cristo da Caldeira, tendo como reitor o padre Manuel António das Matas Santas.

 

Reitores do Seminário

Ainda dentro dos aspectos religiosos há que considerar os reitores dos Seminários.

Na diocese de Angra houve dois seminários. O segundo criado em S. Miguel, nos meados do século XX, era um seminário/colégio e teve vida efémera. Primeiro viveu no antigo edifício do Colégio de Todos os Santos, edificação dos Jesuítas, e mais tarde em edifício construído para essa finalidade, mas a falta de aspirantes ao sacerdócio obrigou-o a fechar.

Propriamente Seminário é o situado na cidade de Angra, nascido no longínquo ano de 1860, embora a inauguração solene tivesse tido ocasião somente em 9 de Novembro de 1862. Viveu primeiro no antigo convento de S. Francisco que compartilhou com o Liceu, para a 2 de Março de 1914 se refugiar na rua Duque de Palmela, no centro da cidade de Angra, onde ainda permanece.

No respeitante a reitores podemos dividir a vida deste seminário em duas fases.

A primeira vai desde a fundação até 1936. A segunda, dessa data até aos nossos dias.

Até 1936 o reitor do seminário foi sempre o bispo da diocese, que normalmente delegava poderes no vice-reitor, um sacerdote prestigiado entre o clero da diocese, mas de cuja acção pouco se conhece, talvez por viverem na sombra do bispo da diocese.

Dos primeiros vice-reitores o mais conhecido, e não pelo desempenho do cargo, foi o Cónego Francisco de Carvalho Arruda (1864-1865), que envolto em querelas com vários colegas se refugiou em Lamego onde desempenhou cargos de muito peso.

Só para termos uma ideia no livro Padres Açorianos, onde se procuram publicitar os nomes dos mais ilustres sacerdotes açorianos só os nomes dos padres José de Almada, Manuel Cardoso do Couto e Manuel de Medeiros Guerreiro, vice-reitores durante vários anos, merecem figurar nessa antologia de padres açorianos.

Dos reitores que actuaram já com esse título, alguns há que se salientaram não só no cargo, mas em outras funções que acabaram por lhes serem confiadas.

Só alguns exemplos. O Dr. José Vieira Alvernaz, designado por primeiro reitor veio mais tarde a ascender ao cargo de bispo de Cochim.

O Dr. Manuel Moreira Candelária veio a desempenhar cargos de relevo na Acção Católica Portuguesa, exerceu também o reitorado.

Dos mais modernos, merece destaque o Dr. José Enes, que tendo reunido uma equipa de formados por Roma (a diocese de Angra era uma das que dispunha de maior número de sacerdotes a estudar nas diferentes universidades religiosas como a Gregoriana), exerceu na Terceira e também nos Açores uma influência notável.

Ainda está por estudar por completo, a influência do Seminário na região Açores. Sendo o único estabelecimento nos Açores, que ministrava um curso superior, embora pouco reconhecido legalmente, veio a exercer muita influência na região, mercê da forte preparação dos párocos, muitas vezes únicos «formados» nas paróquias que regiam.

Para além disso muitos desses sacerdotes, seja pelos dotes oratórios, seja pela escrita em livros e jornais, deixaram fama.

A acção do Seminário e de alguns reitores estendeu-se às semanas de estudo dos Açores, onde nos aparecem reflexões de sacerdotes não só nos campos da religiosidade, mas também em outros muitos, sobretudo de índole social.

 

Reitores Jesuítas

Nos Açores os jesuítas dispuseram de três estabelecimentos a que se dava o nome de colégios, onde o elemento principal era o reitor.

Constitucionalmente o colégio estava organizado à moda da Companhia. O reitor era o senhor dentro do colégio como o geral o era para a Companhia. Com uma diferença substancial. O geral, uma vez eleito, era-o para toda a vida e só razões muito sérias, de saúde ou acção papal o podiam destituir do lugar. O reitor dos Colégios era nomeado pelo Geral por um período de três anos, muito raramente repetia o cargo no mesmo colégio, e quando acabava o triénio, mesmo que não viessem cartas de Roma, indicando o sucessor, havia regras que o faziam substituir por outro.

As funções do reitor dentro do colégio são designadas por uma série de verbos dos quais podemos destacar: «velar» por todos os membros do colégio, «guardar» dos perigos, «prevenir» o mal, «fazer progredir», «defender» a saúde, «defender» os bens do colégio, «nomear» para os diferentes cargos a exercer no âmbito do colégio, «vigiar, conservar ou remover» as pessoas dos diferentes lugares.

Destas funções, sobretudo as de cariz económico, estão bem documentados nos espólios que das actividades dos colégios nos restam, quer no Arquivo de Ponta Delgada, quer no de Angra do Heroísmo, bem como nos relatórios dos avaliadores dos bens dos colégios após a expulsão dos jesuítas, no tempo do Marquês de Pombal.

Sendo a leccionação jesuíta uma actividade exercida gratuitamente, todos os colégios necessitavam de fundos económicos que permitissem aos que exerciam o «magistério» uma vida digna. Por isso, nenhum colégio funcionava se não tivesse rendas que poderiam ser pagas pela fazenda pública, como foi o caso de Angra do Heroísmo, por doação de particular ou particulares como no caso da Horta, ou por indústria dos jesuítas administrando bens doados, como no colégio de Todos os Santos, em Ponta Delgada.

Não vamos aqui apresentar listas de nomes dos reitores dos colégios que facilmente podem ser encontradas em António Franco, Synopsis Annalium Societatis Jesu in Lusitânia, ab anno 1540 usque ad annum 1725 de que se pode encontrar traduzida a parte respeitante aos Açores no volume XIV do Arquivo dos Açores (1983, XIV: 495-525).

Embora não referíramos as listas não deixaremos de acentuar as actividades de alguns destes homens que procuraram desenvolver os Açores.

No colégio de Angra do Heroísmo, o primeiro a entrar em funções, no ano de 1570, encontramos, descrita actividade de alguns destes homens, em António Cordeiro, História Insulana (1981).

O primeiro reitor, padre Luís de Vasconcelos deixou marcas profundas na sociedade terceirense e talvez pudéssemos dizer açoriana, pois não se contentou em catequizar a ilha sede do colégio, mas estendeu através dos seus enviados, a acção a outras ilhas, em especial S. Miguel. Este reitor foi o refundador do colégio, pois que uma polémica acerca das opções por Filipe II, ou por D. António, Prior do Crato provocou a saída dos Jesuítas por algum tempo, tendo voltado após a conquista da Terceira pelo Marquês de Santa Cruz.

Da excelência deste colégio, e portanto dos seus reitores, nos fala o padre António Cordeiro (1981), afirmando que bastaria uma cadeira de Teologia Escolástica e outra de Gramática para que se criasse «uma útil universidade» nas ilhas, que poderia formar clérigos para serviço da diocese.

Outros reitores que se salientaram podemos enunciar o padre Matias de Sá (1606-1609), um dos mais dinâmicos actores nessas épocas, e o padre João Pereira (1690-1693), micaelense, que depois exerceu cargos diversos nestas ilhas e no continente.

No de Ponta Delgada teremos de distinguir um período em que são apenas superiores, uma vez que não existiam lições e um segundo em que estas aparecem, e surgem também os reitores.

Entre os «superiores» podemos destacar o padre Fernão Guerreiro (1592-1594) que fez jus ao sobrenome. Encetou uma série de lutas que levaram à fundação da casa, onde futuramente se levantaria o colégio, e deixou como herança um relacionamento com a cidade que poderíamos apelidar de amor/ódio, tantas e tantas foram as questões e tantas e tantas foram as ajudas mútuas.

Outros superiores que merecem destaque são o padre Matias de Sá (1604-1606) durante o reitorado do qual terão começado as aulas de Teologia Moral, e depois exerceu cargos importantes na Companhia e o padre Roque de Abreu (1618-1620), que começou as aulas de Latim, após uma tempestiva entrada dos Gracianos nessa área, que os Jesuítas queriam exclusiva para si próprios.

Como reitores salientamos os nomes do padre Luís Lopes (1536-1539), pois foi nesse período que realmente Roma reconheceu a casa como colégio. Há ainda a salientar o padre Gonçalo Arez, da nobreza micaelense e que à construção da actual igreja dedicou grande parte do seu tempo, tendo permanecido em Ponta Delgada, durante vários anos, embora não todos como reitor.

Já no século XVIII, o que salientamos é um reitor que leccionou Matemática, o padre Manuel de Torres (1748).

O colégio como os outros dois de Angra e Horta serão fechados por ordem do Marquês de Pombal, no ano de 1760.

Do Colégio do Faial, ou da Horta, então ainda vila, fundado mais tardiamente (1652), convém salientar a acção dos padres Lourenço Rebelo e Francisco Andrada que nos primeiros tempos asseguraram a direcção do colégio.

Da acção de Manuel Fernandes, nos fala abundantemente António Franco (1983).

Em 1720, sob o reitorado do padre João Martinho se lançou a primeira pedra do edifício que ainda hoje existe, sendo a Igreja a matriz da Horta e o restante espaço ocupado por serviços públicos.

 

SENTIDO NÃO RELIGIOSO

 

Reitores dos Liceus

A lei de 1836, conhecida como lei de Passos Manuel e certidão de nascimento dos liceus, fala da figura do «reitor», à qual atribui as seguintes funções no artigo 66.º: «Convocar o conselho, quando achar conveniente; Dar a execução às leis; Expedir correspondência com o governo; Inspeccionar todo o estabelecimento de ensino». Estas atribuições faziam dele a figura principal e do seu dinamismo fruía toda a comunidade liceal, que, pelo tocante aos Açores, não era muito numerosa. Cerca de uma centena de alunos, até bem entrado o século XX, e os professores ficavam-se pela dezena, ou melhor raramente a atingiam.

Das leis subsequentes, a de 1844 de Costa Cabral e a de 1860 de Fontes Pereira de Melo, só esta dedica um espaço especial ao reitor, reproduzindo os princípios de 1836 e acrescentando o dever de um «relatório anual» a enviar ao governo.

Tal como fizemos para as instituições anteriores, vamos apresentar os nomes de alguns reitores que mais se salientaram na execução dos assuntos da instrução e que imprimiram uma como que marca na vida dos liceus a que presidiram.

 

a) Liceu de Angra do Heroísmo

No Liceu de Angra do Heroísmo naturalmente o seu primeiro reitor, o padre Jerónimo Emiliano de Andrade, merece destaque especial. Egresso franciscano, após 1834, viveu para a instrução de modo a ser nomeado comissário de estudos e inerentemente reitor. A sua pouca permanência no cargo não o deixou influenciar a vida da instituição.

O sucessor, António Moniz Barreto Corte Real foi realmente a alma desta fundação. O seu longo reitorado (1847-1883) forneceu-lhe momentos de escrever a história do liceu, em o LYCEO, além de outros vários documentos que deixou.

Seguiram-se-lhe alguns nomes famosos como José Augusto Nogueira Sampaio e Manuel António Ferreira Deusdado e já mais tardiamente Eliseu Pato François que no Boletim da Acção Educativa do Ensino Liceal, traçou as etapas do desenvolvimento do liceu e tratou aspectos pedagógicos.

 

b) Liceu de Ponta Delgada

É mais uma instituição cuja fundação se deve a um religioso: o padre mestre João José do Amaral.

Professor de várias cadeiras ainda nos tempos do liberalismo, foi nomeado comissário de estudos mediante a renúncia de António Feliciano de Castilho. Em poucos dias, e por ordem expressa do Governador Civil de Ponta Delgada, organizou as aulas e o liceu. Mas aqui mais uma vez foram os sucessores que imprimiram o rumo dos acontecimentos. João José do Amaral morreu pouco tempo depois de ter aberto as aulas.

De entre os sucessores destacaremos André António Avelino de quem restam vários discursos de inauguração dos anos lectivos. André do Canto, oriundo de uma ilustre família micaelense, também dirigiu o liceu, e muito o influenciou. Também de destacar é a acção de Carlos Machado e Eugénio Vaz Pacheco Canto e Castro e vários outros como Gil Monte Alverne de Sequeira, um autonomista famoso. Já mais próximos da actualidade merecem destaque João Anglin, não só tradutor de várias obras mas também pedagogo notável que deixou na sua geração marcas muito consideráveis, José de Almeida Pavão e Eduardo Pacheco.

 

c) Liceu da Horta

O primeiro reitor foi João Bettencourt Correia e Ávila e exerceu grande influência não só no estabelecimento, que quis alojar em lugar condigno e dotar dos meios técnicos para o desempenho da missão, mas também pela criação do teatro Faialense e outras obras com que pretendeu ilustrar a sociedade da ilha do Faial.

Alguns dos seus sucessores, como António Lourenço da Silveira Macedo, bem como João José da Graça, o primeiro na parte histórica o segundo sobretudo nas ideias pedagógicas que desenvolveu em várias obras, merecem destaque.

 

REITORES DA UNIVERSIDADE

Nascida como Instituto Universitário dos Açores, em breve a instituição se transformou em Universidade.

Quer num caso quer no outro o seu dirigente máximo é conhecido como Reitor, a que por vezes se acrescenta o adjectivo Magnífico, quando não é só esta palavra a designar o ocupante do cargo.

Sendo uma instituição nova, começou em 1975, não é muito longa a lista de reitores.

O primeiro da Universidade e único do Instituto Universitário foi José Enes Pereira Cardoso a cujo dinamismo se devem as fundações da instituição. Vivendo o cargo num período agitado política e socialmente, o Professor José Enes soube imprimir um rumo e traçar metas que os seus sucessores procuraram continuar. Exerceu o cargo entre 9 de Janeiro de 1976 e 2 de Dezembro de 1982. António Manuel Bettencourt Machado Pires ocupou o lugar desde 3 de Dezembro de 1982 até 21 de Julho de 1995. Foi o período da confirmação da Universidade, para o que muito contribuiu a acção de Machado Pires, na sua prudência e sábia orientação.

Em 22 de Julho de 1995 entrou como reitor Vasco Manuel Verdasca Silva Garcia que governará até 20 de Julho de 2003. É a época da expansão física da Universidade em S. Miguel. Foram construídos vários edifícios que começam a dar à instituição o verdadeiro cariz de Universidade.

Sucedeu-lhe a 21 de Julho de 2003, Avelino de Freitas de Menezes, o primeiro filho total da Universidade açoriana, onde fez toda a sua carreira. Começa a olhar mais decididamente para os pólos da Terceira e Faial.

Esperemos que a sua acção seja digna da tarefa em que se envolveu. J. M. Teixeira Dias

Bibl. Cordeiro, A. (1981), História Insulana. Angra do Heroísmo, Secretaria Regional da Educação e Cultura. Dias, T. (2004), Instituições e Ideais Educativos nos Açores. Ponta Delgada, edição do autor. Dias, U. M. (1928), História da Instrução nos Açores. Vila Franca do Campo, Emp. Tipográfica. Franco, A. (1983), Synopsis Annalium. in Arquivo dos Açores. Ponta Delgada, Universidade dos Açores, XIV. Frutuoso, G. (1998), Saudades da Terra. Ponta Delgada, Instituto Cultural de Ponta Delgada. Pereira, J. A. (1958), O Seminário de Angra. Angra do Heroísmo, União Gráfica Angrense. Id. (1939), Padres Açorianos. Angra do Heroísmo, União Gráfica Angrense. Reformas do ensino em Portugal (1989-1996), colecção de documentos publicados pelo Ministério da Educação, 5 volumes.