rede-de-arrastar

Segundo Ribeiro (1936), em S. Miguel, a esta arte de pesca chamam *tresmalho. Trata-se de uma rede idêntica àquela descrita abaixo, segundo Lopes (1948), mas sem «copo». De acordo com Bernardo e Montenegro (2003), em S. Miguel, a rede-de-arrasto é denominada rede-de-praia. Em bibliografia recente, esta arte de pesca aparece também denominada xávega (cf. Fernandes, 1984), uma designação usada no continente, particularmente no litoral algarvio.

De acordo com Fernandes (1984) e Lopes (1948), é rede rectangular, de arrasto envolvente, composta de 2 «lados» ou «asas» e de 1 «centro» de onde sai o «copo» ou «saco», de diâmetro na boca inferior à altura da rede.

Lopes (1948) descreve-a como tendo 80 a 90 braças de comprido por 5 de altura, igual, em toda a extensão. Os «lados» têm redes de duas malhas, os «ralos» e os «meios ralos», porfiando-se estes aos panos do «centro», «bastos» ou «miudeira», em que os da parte superior e inferior da «boca» do «copo» tomam o nome de «testas» («de cima» e «de baixo»). A malha dos «ralos» tem o dobro do tamanho daquela dos «meios ralos», do mesmo modo que esta é também dupla da dos panos do centro. O copo tem a mesma malhagem que os «bastos». A tralha de flutuação é chamada da «cortiça», e a da esteira, conhecida por tralha da «chumbada».

Em cada extremo da rede, «cabresteira», os chicotes dos cabos das tralhas ligam-se por meio de pé de galinha aos cabos que servem para alagem da rede para terra, sendo mais curta a pernada que dá para a tralha da cortiça de modo a que a rede, ao ser arrastada, não deixe de estar em contacto com o fundo.

À tralha da «cortiça» e a meio da «testa» de cima, está ligada, por meio dum «fiel» de 3 braças, uma bóia de cortiça chamada «vigia», que serve, não só para melhor dirigir a alagem da rede, como para evitar que o «copo» prenda ao fundo.

De acordo com Fernandes (1984), esta rede é lançada ou por uma embarcação (da praia ao mar e de volta à praia) ou por duas (do mar para a praia).

No primeiro caso, Lopes (1948) descreve a operação da rede do modo seguinte: uma embarcação aproxima-se da costa, no lugar em que pretende fazer o lanço, e desembarca os homens que hão-de ficar segurando um dos cabos de alagem da rede; depois desloca-se para o mar arriando, sucessivamente, cerca de 60 braças de cabo, um «lado» da rede, o «copo» e, finalmente, o outro «lado», ocasião em que já deve estar de novo aproada à terra; entrega o outro cabo em terra; o mestre toma a «vigia» à popa, para suspender o copo, e passa a mandar a manobra de alagem da rede.

Quando há pouco peixe a embarcação entrega a rede em terra mas, em caso contrário, prolonga-se com a tralha da «cortiça» junto ao copo, a fim de receber o peixe que os pescadores, dentro de água, quando possível, vão passando a cestos para dentro dela. Havendo rebentação na costa que dificulte o copejar da rede, ela é rebocada para o largo, depois de lhe ter sido fechada a boca do saco, e aí retirado o peixe com o auxílio de cestos.

Quando o fundo é de pedra, a rede é arrastada até que os «ralos» sejam colhidos em terra, tomando-se o peixe de dentro da embarcação por meio de *enchelavar.

Para Fernandes (1984), esta arte de pesca é usada de dia na pesca da sardinha, mas qualquer espécie de animal ou de planta que esteja na zona do arrasto é apanhada. Luís M. Arruda

Bibl. Bernardo, M. C. R., Montenegro, H. M. (2003), O falar micaelense. Fonética e léxico. S.l., João Azevedo Editor. Fernandes, L. M. R. (1984), Artes de pesca artesanal nos Açores. Horta, Secretaria Regional de Agricultura e Pescas. Lopes, F. (1948), A pesca na ilha Terceira. Boletim do Instituto Histórico da Ilha Terceira, 6: 61-101. Ribeiro, L. S. (1936), Notas sobre a pesca e os pescadores na ilha Terceira. Açoreana, 1, 3: 147-159.