priôlo
Nome vulgar da espécie de ave Pyrrhula murina (Fringillidae), segundo Martins et al. (2002), também conhecida por dom-fafe de São Miguel (Bannerman e Bannerman, 1966; Godman, 1870; Martins et al., 2002; Pereira et al., 2003; Ramos, 1995). É a única espécie de ave endémica desta ilha e dos Açores.
De corpo robusto, os indivíduos açorianos desta espécie são de dimensões maiores do que os continentais da espécie Pyrrhula pyrrhula. Tal como os indivíduos continentais, o priôlo de S. Miguel tem coroa negra na cabeça e bico forte, curto e cónico, de cor preta mas, de modo diferente daqueles a cobertura das asas e a parte superior da cauda são acastanhadas e não brancas como os indivíduos europeus e não apresentam dimorfismo sexual bem marcado na plumagem. Os machos europeus possuem o peito de uma coloração vermelho a rosa brilhante e as fêmeas apresentam o peito cinzento a castanho claro, mas nos açorianos é notável o facto dos machos terem o peito castanho como as fêmeas (Bannerman e Bannerman, 1966; Martins et al., 2002; Pereira et al., 2003; Ramos, 1995).
A área habitada pelo priôlo está confinada à extremidade oriental da ilha de S. Miguel, particularmente ao Pico da Vara e Planalto dos Graminhais Serra da Tronqueira, e nunca foi encontrado em qualquer outra parte do arquipélago açoriano. O seu habitat restringe-se à floresta natural açoriana de altitude, a *laurissilva (Ramos, 1995).
Os seus recursos alimentares provêm de vários tipos de habitats e variam conforme a época do ano. Alimenta-se de sementes, de frutos e de flores preferencialmente de amoras, de bagas de uva-da-serra (Viccinium cylindraceum), principalmente no Outono, e de flores de azevinho (Ilex perado azorica), de modo particular na Primavera, e até de insectos (Hemiptra) a eclodirem em folhas de louro (Bannerman e Bannerman, 1966; Martins et al., 2002; Pereira et al., 2003; Ramos, 1995).
Reproduz-se entre Junho e Agosto. Os ovos, de 4 a 5 por postura, de coloração azul clara, com pequenas manchas arroxeadas e castanhas, são incubados pela fêmea durante 12 a 14 dias. O ninho é construído pela fêmea, sobre uma árvore, e consta de uma camada interior composta por raízes, ramos finos e musgos, e de uma exterior formada por ramos de maiores dimensões. Os jovens distinguem-se dos adultos por terem a cabeça castanha mas a partir de Outubro já são semelhantes aos adultos. Surgem a voar com os adultos em meados de Julho (Martins et al., 2002; Ramos, 1995).
É considerada uma espécie em perigo na Lista Vermelha da União Internacional para a Conservação da Natureza. A sua sobrevivência está dependente da preservação da floresta endémica de altitude na parte oriental da ilha de S. Miguel. Têm contribuído para a diminuição da área desta floresta o crescimento das áreas de pastagem e de cultura extensiva de criptoméria e a expansão de espécies exóticas como o incenso (Pittosporum undulatum), a conteira (Hedychium garderanum) e a cletra (Clethra arborea). O prejuízo causado pelo priôlo aos botões das flores das árvores de fruta foi motivo para a quase exterminação desta ave. Por meados do século XIX, a municipalidade de S. Miguel foi autorizada a pagar uma recompensa pelos bicos ou cabeças de qualquer priôlo abatido (Martins et al., 2002; Pereira et al., 2003). Segundo o relato da estada de W. R. Ogilvie-Grant nas ilhas, em 1903, o priôlo era raro e a sua extinção era previsível acontecer dentro de alguns poucos anos (Hartert e Ogilvie-Grant, 1905: 125). Mas, na Primavera de 1907, Rudolf von Thanner, um colector profissional, de nacionalidade austríaca, residente nas ilhas Canárias, capturou 53 indivíduos em 60 dias, dando um exemplo deplorável que provocou um protesto violento de Percy Lowe, que haveria de ser conservador do Departamento de Aves do Museu Britânico, na revista Ibis (Lowe, 1908).
Espécie já referida por Frutuoso (1998 [1591], IV: 235), «[...] há outros que se chamam prioles, na serra, maiores que tentilhões, quase tão grandes como estorninhos e de cor parda [...]», foi capturada por Morelet (1860) quando da sua visita aos Açores, em 1857. O exemplar que levou para França foi determinado, erradamente, por Pucheran (1859), como Pyrrhula coccinea, um nome em uso para o priôlo comum da Escandinávia e do norte da Europa. A descrição da espécie foi feita por Godman (1866). Luís M. Arruda
Bibl. Bannerman, D. A. e Bannerman, W. M. (1966), Birds of the
