Primeiro de Maio

Embora o dia primeiro de Maio pudesse estar ligado a celebrações de festas pagãs desde os tempos mais recuados, na época contemporânea tem como referência as lutas dos trabalhadores pela redução do horário de trabalho diário para as 8 horas. A escolha desta data está relacionada com o facto de, na cidade de Chicago em 1886, a polícia ter ferido e morto vários manifestantes. Nos dias seguintes, a repressão endureceu ainda mais e a solidariedade para com os operários americanos estendeu-se a todo o mundo. Em 1889, foi tomada uma decisão no congresso socialista de Paris para que o dia primeiro de Maio passasse a ser considerado como o Dia Mundial do Trabalho.

Com mais ou menos liberdade, com ou sem autorização dos governos de vários países, o facto é que aquela data se impôs como um marco da luta pela melhoria das condições de vida. Em Portugal, a iniciativa da comemoração, em 1890, pertenceu à Associação dos Trabalhadores, filiada na Associação Internacional dos Trabalhadores. O conteúdo politico-ideológico do 1.º de Maio tem sido alvo de várias representações e a sua comemoração reflecte as várias tendências do xadrez político internacional e das respectivas forças que a promovem.

Nos Açores, o fraco desenvolvimento industrial retardou o crescimento da classe operária que só teve alguma expressão em Ponta Delgada. Sem qualquer capacidade de intervenção na sociedade, as próprias associações tradicionalmente ligadas ao meio operário eram obra do esforço de artífices e de alguns elementos da pequena burguesia que procuravam mentalizar o operariado para a defesa dos seus direitos. A não existência de um espírito reivindicativo e a falta de uma consciência de classe reflectiram-se nas poucas acções desenvolvidas e nas manifestações do 1.º de Maio. No início do século XX, o modelo comemorativo consistia no embandeiramento das sedes das associações ligadas aos operários e artífices e a sessões solenes com discursos a evocar temas de carácter social. O cortejo cívico até ao cemitério, onde se proferiam discursos e eram depostas flores nas campas de sócios falecidos ou de figuras proeminentes, como Antero de Quental, constituía a parte mais pública da comemoração. No cortejo participavam as referidas associações, corpos de bombeiros, com alguma frequência professores e alunos do ensino primário e filarmónicas que executavam o hino do 1.º de Maio. À noite, quase sempre havia sarau musical num dos largos das cidades.

Com a implantação do regime republicano, o modelo manteve-se mas o discurso radicalizou-se um pouco, devido à organização local do *Partido Socialista nas três cidades, à influência de alguns elementos anarquistas e à criação de federações operárias. Na imprensa ligada aos trabalhadores, surgiram textos a criticar o capitalismo, a defender que o espírito do 1.º de Maio exigia um «determinado número de reformas imediatas», a apelar ao empenhamento numa luta não só local mas universal, dentro do espírito internacionalista. Todavia, era enorme a diferença entre o discurso e as acções reivindicativas. Quando muito limitavam-se à entrega de algumas propostas às autoridades para que acudissem à crise operária sem qualquer tipo de confronto com o poder estabelecido.

Após a instauração do Estado Novo, o 1.º de Maio foi integrado no espírito corporativista e nacionalista, mas esse espírito foi abandonado no pós-guerra. A repressão passou a caracterizar a intervenção do regime nesse dia sempre que surgiam manifestações ou paralisações de trabalho. Nos Açores, nos anos 70, começaram a surgir nesta data panfletos, textos da Comissão Nacional de Apoio aos Presos Políticos e outros documentos ligados ao movimento estudantil universitário. No ano de 1973, foi distribuído em algumas ilhas um prospecto que denunciava os despedimentos que atingiam trabalhadores da Base das Lajes e o decreto 196/72 que permitia essa possibilidade, chamando também a atenção para as condições de trabalho dos caixeiros de Angra.

Com o regime democrático, o 1.º de Maio de 1974 foi comemorado em liberdade e com bastante adesão nas três capitais de distrito. Foram organizadas manifestações por grupos de democratas que não só denunciavam as atrocidades praticadas até então, mas também aproveitavam para exigir uma série de reformas. Nos anos seguintes, as estruturas sindicais, entretanto organizadas no arquipélago, promoveram algumas manifestações neste dia, mas o entusiasmo foi decaindo gradualmente, passados os anos de alguma agitação no período mais revolucionário. Embora se mantenha o feriado no dia 1.º de Maio, o conteúdo político e social que deu origem à sua criação no século XIX é praticamente esquecido na imprensa açoriana. Carlos Enes