Prego, Henrique da Fonseca de Sousa
[N. ?, ? m. Gaeiras, Óbidos, 25.3.1897] Assentou praça como guarda-marinha a 8 de Fevereiro de 1783 e foi sucessivamente promovido a tenente do mar, em 1784; capitão-tenente, em 1791; capitão de fragata, em 1795; capitão-de-mar-e-guerra, em 1801; chefe de Divisão, em 1808; chefe de esquadra, em 1815; vice-almirante, graduado, em 1817 e efectivo, em 1818.
Em 1802 foi intendente da Marinha da Baía e foi o comandante da nau Medusa, da esquadra que conduziu o Príncipe Regente e a Família Real ao Rio de Janeiro, em 1807. Em 1822 foi nomeado comandante da esquadra destinada às águas da Província da Baía de Todos os Santos.
O almirante Sousa Prego foi nomeado capitão-general das ilhas dos Açores numa difícil conjuntura e mandando embarcar com destino a Angra, na fragata Princesa Real, a 20 de Junho de 1828. Passados dois dias deu-se na cidade a revolta de Caçadores 5, que restabeleceu a Carta Constitucional e que demitiu o capitão-general Tovar e *Albuquerque e o expulsou da ilha. Sousa Prego chegou à Terceira a 15 de Julho, mas foi impedido de desembarcar pelos revoltosos, tendo ele decidido retirar-se para S. Miguel. As suas bagagens que chegaram passado pouco tempo foram, abusivamente, diga-se, confiscadas e vendidas em hasta pública. Demorou-se o general poucos dias em Ponta Delgada regressando a Lisboa e aí os absolutistas tinham derrotado a revolta liberal do Porto e estavam senhores da situação. Foi então decidido (5 de Agosto de 1828) reenviar o capitão-general Sousa Prego à frente de uma esquadra para subjugar a Madeira e a Terceira. Subjugou efectivamente a Madeira, onde se demorou até finais de Outubro. Chegou por fim a Ponta Delgada a 1 de Novembro, trocou correspondência com o seu antecessor, o general Tovar e Albuquerque, que em S. Miguel continuava a exercer a função de capitão-general, uma vez que Sousa Prego ainda não tomara posse e partiu por fim para a Terceira no dia 4, com a intenção de desembarcar as tropas e subjugar a ilha, mas uma vez na Terceira, não tendo conseguido entrar em contacto com o chefe dos miguelistas, capitão João Moniz *Corte Real desistiu e retirou-se para S. Miguel onde chegou a 12 de Dezembro. Desembarcado, resolveu finalmenre tomar posse do cargo de capitão-general terminando formalmente, por fim, o mandato de Tovar e Albuquerque
Tem causado perplexidade a frouxidão de Sousa Prego, que dispondo de substancial força militar não a usou contra os liberais acantonados na Terceira. Isto deveu-se, como já Francisco Faria e Maia defendeu, a pensar o capitão-general que acabaria por haver um acordo político entre D. Pedro e D. Miguel e tudo se resolveria sem luta. Os próprios liberais parece que reconheceram no final essa tendência moderada e contemporizadora de Sousa Prego, como numa carta de 1834 do major general da armada, Visconde do Cabo de S. Vicente, afirma «que durante o seu governo [nos Açores] nunca obedeceu às sanguinárias instruções que lhe foram transmitidas pelo governo».
O novo capitão-general passou a administrar com grande zelo a ilha de S. Miguel e a tentar estabelecer um bloqueio naval à Terceira, este sem êxito pois sabe-se que o número de emigrados liberais ia crescendo na ilha e a sua organização e defesa ia progredindo principalmente com a nomeação de Vila Flor para capitão-general, pelos liberais.
Entretanto o governo de D. Miguel decidiu, em Julho de 1829, voltar a atacar a ilha Terceira para a subjugar e enviou uma nova armada sob o comando de José Joaquim da Rosa *Coelho. Nela embarcou em Ponta Delgada o capitão-general Sousa Prego que assim partilhou as responsabilidades do verdadeiro desaire em que acabou esta expedição derrotada a 11 de Agosto de 1829 na baía da Praia. Foi decidido desistir de novo ataque, mandando distribuir a tropa por várias ilhas para reforçar a defesa e retirar o grosso da esquadra para Lisboa. Não se livraria Sousa Prego de ser acusado pelos seus próprios companheiros de comando de ser o responsável pela derrota por falta de firmeza e de preparação dos meios de desembarque.
As vitórias dos liberais comandados por Vila Flor sucederam-se, primeiro com a conquista das ilhas do Pico, S. Jorge e Faial em Julho de 1830, praticamente sem resistência e com a decisão de se concentrar as forças absolutistas em S. Miguel, onde acabaram derrotados e a ilha conquistada em Agosto desse mesmo ano.
O capitão-general refugiou-se em casa do cônsul inglês e daí evadiu-se para Londres, perdendo de novo todos os seus bens móveis. Regressou a Lisboa e em 19 de Setembro de 1831 alcançou autorização régia para se justificar em Conselho de Guerra. Mas tal Conselho foi formado com grande dificuldade e acabou por ficar sem efeito tendo contudo o almirante sofrido várias vicissitudes, nomeadamente redução do soldo para metade. Com a vitória liberal foi demitido por decreto de 5 de Setembro de 1833 para nos termos da carta de lei de 24 de Agosto de 1840 vir a ser reintegrado como vice-almirante separado do quadro efectivo da armada.
Passou a residir desde 1842 na Quinta das Gaeiras, em Óbidos, onde faleceu. J. G. Reis Leite
Fontes. Arquivo Geral da Marinha (Lisboa), Livros Mestres 378, 380, 385, 386 e 409 e cx. 767.
Bibl. Drumond, F. F. (1981), Anais da Ilha Terceira. 2.ª ed., Angra do Heroísmo, Secretaria Regional da Educação e Cultura, IV: 181, 185, 186, 218, 219, 223, 281. Maia, F. A. M. F. (1988), Capitães-Generais (1766-1831). 2.ª ed., Ponta Delgada, Instituto Cultural de Ponta Delgada: 277-289, 307-350.
