piemontês (um) em S. Miguel, sua descendência e sobre o apelido micaelense Monte
Giovanni di Piemonte (João da Piamonte), imigrante quinhentista na Ribeira Grande de S. Miguel, deixou descendência insular que adoptou o seu apelido aportuguesado em Monte: por acaso ou por lógica, no século XXI os Monte aparecem nos Açores, com relativa frequência, somente em S. Miguel.
O Armorial Lusitano confere ao apelido Monte uma antiga origem territorial e as armas que lhes são atribuídas e homologadas nos registos heráldicos portugueses, são deveras italianas, mas da família homónima de Roma e Veneza, que nada tem a ver com a região do Piemonte, no Noroeste da Itália. A grande difusão do apelido em Portugal, onde conheceu também uma génese autónoma, impede de considerar todas as famílias que o trouxeram como provenientes do mesmo lugar. Porventura, só os Monte micaelenses terão longínquas raízes piemontesas. Nos começos do século XVI, João da Piamonte e Leonor Dias, do Algarve, estabeleceram-se na região da Ribeira Grande e aí tiveram 5 filhos: João do Monte, Gaspar do Monte, Amador do Monte, Ambrósio do Monte e Bonifácio do Monte, todos cavaleiros que foram à África; sobretudo Amador do Monte fez ali muita fortuna, como também na Índia, e morreu solteiro. João do Monte casou na Lagoa com mulher nobre, da qual teve Simão do Monte e Sebastião de Oliveira, para além de filhas que cedo faleceram. Talvez foi o mesmo João do Monte quem, a 9 de Janeiro de 1555, apresentou aos funcionários do município da Ribeira Grande um diploma régio que o nomeava alcaide, por um período de três anos. Gaspar do Monte foi capitão da bandeira de Rabo de Peixe, um corpo armado que nos Açores desempenhava funções eminentemente defensivas, a diferença do Brasil, onde as bandeiras efectuavam incursões armadas no interior para abrir vias de comunicação e raptar indígenas. A bandeira de Gaspar do Monte era composta por cerca de 250 homens e à sua morte lhe sucedeu no seu comando o filho, João do Monte o Moço. Gaspar casou com uma irmã de Duarte Pires, da Lomba, da qual teve 7 filhos: Gaspar do Monte, Baltasar do Monte, que foi vigário de Santo António e depois da Fajã, no território da cidade, João do Monte o Moço, Isabel do Monte, mulher de Martim dAlbernaz, Susana do Monte, que casou com Pedro Anes, rico mercador, várias vezes juiz e conselheiro da Ribeira Grande, Beatriz do Monte, mulher de Diogo de Morim e finalmente Guiomar do Monte, casada com Francisco Soares, de quem teve filhos... Os descendentes do piemontês Giovanni foram prolíficos, procurando incansavelmente melhorar a sua condição, adquirindo bens imóveis na ilha e servindo militarmente o rei até obter, em alguns casos, a nobilitação. A suposição de que a cidade de proveniência de Giovanni, progenitor dos Monte micaelenses, fosse mesmo Torino (Turim), capital da região do Piemonte, surge de forma quase hilariante e baseia-se numa incrível coincidência, relativa à possível presença de piemonteses em S. Miguel. Folheando o livro regional escrito por Augusto Gomes e intitulado A cozinha tradicional da Ilha de São Miguel, salta aos olhos uma receita com nome um tanto singular: Bacalhau de Torino! Se os ingredientes não são significativos no que poderia respeitar a uma especialização piemontesa, importada para S. Miguel, para o preparo do bacalhau, o de Torino é inelutável e não se pode referir, nem em italiano nem em português, a outra coisa senão à cidade da Mole Antonelliana, seu monumento mais emblemático. Sem pretensões de máximo rigor histórico, a questão que a curiosidade impõe é elementar: foram os (Pie-)Monte a perpetuar uma boa receita para o bacalhau, oriunda da cidade transalpina do patriarca Giovanni, numa tradição culinária micaelense? Pierluigi Bragaglia
Bibl. Bragaglia, P. (1991), Os Italianos nos Açores e na Madeira, das origens da colonização a 1583 (conquista espanhola da Terceira). Lisboa/Bolonha, Instituto de Língua e Cultura Portuguesa ICALP / Instituto Luís de Camões, Universidade de Bolonha [tese de licenciatura em XX capítulos, vide capítulo XVI: Um Piemontês e os seus descendentes em São Miguel]. Heers, J. (1983), Cristoforo Colombo. Milão, Rusconi: 85. Frutuoso, G. (1977-1987), Livro Quarto das Saudades da Terra. 2.ª ed., Ponta Delgada, Instituto Cultural de Ponta Delgada / Universidade dos Açores, I: 279-280 e 359-360; II: 108, 227. Gomes, A. (1988), Cozinha tradicional da Ilha de São Miguel. Angra do Heroísmo, Secretaria Regional de Educação e Cultura Direcção Regional dos Assuntos Culturais: 70. Santos, J. M. (1989), Os Açores nos séculos XV e XVI. Maia, Secretaria Regional de Educação e Cultura Direcção Regional dos Assuntos Culturais, II: 521, 679. Zuquete, A. E. M. e Faria, A. M. (1961), Armorial Lusitano. Lisboa, Ed. Enciclopédia: 373.
