Piemonte, Giovanni di (João do Monte)
[século XVI] É o Dr. Gaspar Frutuoso que, ao descrever as famílias imigradas em S. Miguel, narra que «
João (Giovanni) de Piamonte veio a esta ilha como mercador, com mercadoria, com a sua mulher Leonor Dias, natural do Algarve, de gente honrada ...».
Desde o século XII, a casa piemontesa dos Sabóia foi a primeira aparentada com a coroa de Portugal, não sendo portanto surpreendente a presença de mercadores do Piemonte em terras lusitanas. Se nunca conheceremos as origens de Giovanni, vista a estrutura meramente toponímica do seu apelido entre nós, a origem algarvia da mulher é bastante esclarecedora sobre o percurso português do mercador, comum, nessa altura, à maioria dos italianos que chegavam ao país. Com quase toda a certeza, em finais de Quatrocentos ou princípio de Quinhentos, o piemontês embarcou em Génova ou noutro porto da Ligúria, o centro marítimo da península italiana de onde mais frequentemente se navegava para ocidente. Bastem as palavras de Jacques Heers sobre «...Génova, crisol das diversas populações vindas de fora, etapa para camponeses e pescadores da região antes das grande partidas rumo aos países de além-mar. Desde séculos e em todas as direcções, com uma corrente incessante, Génova realiza a drenagem, para os seus empreendimentos de colonização, dos homens dos seus campos e dos do Piemonte ou da Lombardia
». Para fora e para dentro do Mediterrâneo, os navios genoveses substituíam os carros, os autocarros, os comboios e os aviões de hoje: pela geografia e à vela, a primeira paragem portuguesa é o Algarve, onde Giovanni terá conhecido Leonor Dias e com ela casado. Não sabemos quanto tempo o mercador piemontês passou no Algarve, provavelmente não muito, visto que o apelido toponímico chegou inalterado até Frutuoso, para contrair-se logo em do Monte e mais tarde só em Monte, já em território açoriano. É difícil entendermos como e porque surgiu a oportunidade insular, se foi devido à mulher algarvia que já tinha primos nos Açores, ou se foi por puro acaso. Com Leonor Dias, Giovanni/João importou mercadorias, que constituiriam o capital necessário para as despesas de fixação na costa setentrional de S. Miguel, perto da Ribeira Grande, onde criou uma numerosa família com o descomunal João do Monte o velho, seu filho, que «tomava uma mó em pedra do engenho para o pastel e a carregava sozinho, sem a ajuda de outros, em cima a um carro». É evidente, neste episódio contado por Frutuoso, que a família de mercadores micaelenses luso-piemonteses, para além de ser de robusta constituição, se dedicou à produção da preciosa Isatis tinctoria, o pastel açoriano, que acompanhava em todas as suas fases desde o cultivo até, presumivelmente, à exportação. Pierluigi Bragaglia
Bibl. Bragaglia, P. (1991), Os Italianos nos Açores e na Madeira, das origens da colonização a 1583 (conquista espanhola da Terceira). Lisboa/Bolonha, Instituto de Língua e Cultura Portuguesa ICALP/Instituto Luís de Camões, Universidade de Bolonha [tese de licenciatura em XX capítulos, vide capítulo XVI: Um Piemontês e os seus descendentes em São Miguel]. Heers, J. (1983), Cristoforo Colombo. Milão, Rusconi: 85. Frutuoso, G. (1977-1987), Livro Quarto das Saudades da Terra. 2.ª ed.,. Ponta Delgada, Instituto Cultural de Ponta Delgada/Universidade dos Açores, I: 279-280 e 359-360; II: 108, 227. Santos, J. M. (1989), Os Açores nos séculos XV e XVI. Maia, Secretaria Regional de Educação e Cultura Direcção Regional dos Assuntos Culturais, II: 521, 679.
