Mutualista Açoreana

Desde o começo do povoamento que os transportes de, e para as ilhas, e mesmo inter-ilhas foram um dos maiores problemas dos habitantes açorianos.

Quem se dá ao trabalho de ler as primitivas crónicas ou os relatos simples de viagens desses tempos encontra descrições de naufrágios, muitos à vista de terra, desaparecimento de navios, tempestades e calmarias, e não menor mal, a pirataria que tudo levava.

Não havia «carreiras regulares» de início, mas os conhecimentos náuticos que os portugueses foram adquirindo ao longo dos tempos permitiu estabelecer uma tábua de navegação em que as dificuldades eram minoradas.

Com o aperfeiçoamento das técnicas de navegação e sobretudo com o aparecimento da força do vapor as condições melhoraram e as carreiras regulares fizeram a sua aparição.

Segundo Carreiro da Costa – Esboço Histórico dos Açores – só em 1846 começaram essas carreiras regulares, apesar de já talvez em 1832 D. Pedro ter chegado aos Açores em barco a vapor.

Em 1846 teria surgido a primeira carreira regular a vapor, e passados alguns anos apareceram a Companhia Açoreana de Navegação e Companhia União Mercantil tendo esta obtido o exclusivo do transporte para as cidades açorianas.

O pouco cuidado da Mercantil na sua organização fez surgir muitas reclamações e os privilégios de que usufruía foram cortados.

Surgiram depois a Companhia Lusitânia e a Empresa Insulana de Navegação que dominaram os transportes marítimos durante muitos anos.

A constituição de companhias, por vezes conseguindo o exclusivo direito de transporte, veio agravar a situação.

No Açoriano Oriental (1920) pode ler-se um título suficientemente elucidativo dessa situação: A vergonhosa e escandalosa falência dos Transportes Marítimos do Estado.

É precisamente nessa data de 1920 que vai nascer a Mutualista Açoreana.

Fruto da fusão de Empresa Micaelense de Transportes Marítimos e a Empresa de Navegação Açoreana Lda, tem a escritura de constituição lavrada a 27 de Dezembro de 1920.

Constituída por açorianos e para açorianos, a Mutualista, de começo trabalhou com barcos de outras companhias mas adquiriu um próprio a que deu o nome de Nossa Senhora dos Anjos, devido ao facto de muitos dos seus instituidores viverem na freguesia da Fajã de Baixo, cuja padroeira é precisamente a Senhora evocada com esse nome.

Em 1950, a Mutualista foi adquirida pela casa Bensaúde que lhe consignou o navio Corvo, nome que se manteve por muitos anos, embora o navio fosse sendo substituído.

Fez também parte da sua frota um outro navio, igualmente com nome açoriano, Furnas.

Apesar do trabalho desta e outras companhias de navegação, o Primeiro Congresso Açoriano, reunido em Lisboa de 8 a 15 de Maio de 1938 dedica a sessão décima aos problemas do transporte.

Aí se lê: «Pode mesmo afirmar-se, conforme se depreende do Relatório do Congresso que foi presente ao Governo, que as comunicações com os Açores apresentam hoje uma anomalia de que é necessário cuidar-se».

Das muitas comunicações apresentadas nesse Congresso acerca dos transportes ressaltam várias ideias que vão desde a dificuldade de navegar em certas épocas do ano, até à pouca existência de infra-estruturas.

Deixando de parte as diferenças entre as ilhas, avulta de longe o défice das mercadorias provenientes dos Açores. Assim as importações para as ilhas cifram-se em 1937, em 35.050 toneladas enquanto que as exportações das mesmas ilhas se ficam por 12.252 toneladas.

Competindo com companhias de outra dimensão, como a *Empresa Insulana de Navegação e os *Carregadores Açorianos que dispunham de uma frota bastante alargada, a Mutualista trabalhando com o Corvo sobretudo na década de sessenta, e anteriormente com o Furnas, foi conseguindo alguns lucros e vingar nessa actividade.

Publicados vários relatórios dessa década de sessenta podemos colher neles algumas indicações que nos mostram a eficiência da Mutualista. Assim no relatório de 1962 verificamos ser a receita dos trabalhos efectuados de 3.341.780$55, cifrando-se a despesa em 826.880$60, o que produz um lucro de 2.514.899$95, o que para uma pequena companhia nos parece um feito notável.

Não tão satisfatórios seriam os resultados nos anos seguintes, embora ainda com lucros.

No ano de 1967 temos os seguintes números: receita 3.773.189$10, despesa 2.746.750$70, e como resultado de gestão 1.026.438$40.

Nos começos da década de setenta, encontramos algumas novidades. Logo em 1970 a Mutualista consegue que o Ministro da Marinha autorize a sociedade a mandar construir um novo barco, para no ano seguinte nos aparecer o seguinte parágrafo: «Procurando melhorar as possibilidades de transportes, foi adjudicado no final do ano a um estaleiro português a construção de uma nova unidade com maior capacidade de carga e características mais ajustadas à carreira».

Como resultados em 1970 encontramos de receitas 14.651. 604$70 e despesa 11.724.884$70 o que dá um saldo de 2.926.720$00.

Apesar de todas as dificuldades a Mutualista, além de cumprir os objectivos que os seus fundadores se propuseram, conseguia dar alguns lucros.

Mutualista na actualidade

Segundo a reformulação dos Estatutos, registados notarialmente a 6 de Julho de 2000, «A sociedade gira sob a firma MUTUALISTA AÇOREANA DE TRANSPORTES MARÍTIMOS, S.A. e tem por objecto a actividade de transporte marítimo e actividades conexas». A reformulação do nome não implicou mudanças substantivas nem objectivos muito diferenciados.

O relatório de actividades de 2004 realça o bom desempenho do sector transportes durante todo o ano e perspectivas de continuação da situação nos próximos anos.

Este facto obriga a Mutualista Açoreana a recorrer por vezes às parcerias com outras companhias, embora opere nos últimos tempos com dois navios: O N/M Açor B e o fretado N/M Hydra J que perfizeram o total de 51 viagens.

Naturalmente há certas dificuldades a ter em conta como a variação do preço dos combustíveis e a retenção de contentores por alguns clientes que provocam problemas, nem sempre fáceis de resolver.

Não apresentando números o relatório faz o seguinte diagnóstico: «Embora ainda negativos, a empresa continuou a recuperar os resultados operacionais, apesar da facturação bruta global dos fretes da linha regular ter decrescido ligeiramente – 1,26% e seriam mesmo positivos caso a sociedade tivesse recebido a totalidade do subsídio estruturante a que tinha direito». José M. Teixeira Dias

Bibl. Açoriano Oriental (1920), Ponta Delgada, 13 de Novembro. Costa, F. C. (1978), Esboço Histórico dos Açores. Ponta Delgada, Instituto Universitário dos Açores. Gaspar, M. V. (2003), Dos Barcos de boca aberta aos Navios a motor. Ponta Delgada, Ed. do autor. Relatórios (1962, 1963, 1967, 1972 e 2004) e Estatutos da Mutualista Açoreana.