morcego açoriano (Nyctalus azoreum)

É o único mamífero endémico dos Açores. Exibe características particulares como, por exemplo, o seu tamanho menor (Palmeirim, 1991) e alguma tendência para apresentar hábitos diurnos (Speakman e Webb, 1993; Leonardo, 1999), relativamente à espécie mais próxima, morcego-arborícola-pequeno (N. Leisleri). O comprimento do corpo dos adultos é cerca de 5,4 cm e o comprimento da cauda cerca de 3,5 cm (ICN, 1999). O dorso apresenta pêlos compridos de cor castanha escura na base e castanho na extremidade e o ventre é mais claro. Segundo Leonardo (1999), a membrana alar é peluda no adulto. Este mamífero existe em quase todas as ilhas dos Açores, à excepção do Corvo.

Frutuoso (1971, 1981, 1998) nas suas crónicas, datadas do século XVI, que caracterizaram, com pormenor, o arquipélago dos Açores acerca dos mais variados aspectos, não se referiu à presença de morcegos. Como consequência, alguns naturalistas chegaram a considerar que o morcego teria sido introduzido por colonizadores flamengos (Morelet, 1860; Drouet, 1861). No entanto, Chaves (1949) afirma tratar-se de uma espécie característica dos Açores, com base na opinião do Dr. Oldfield Thomas. Em 1901, o último autor distinguiu o morcego açoriano (N. azoreum) do morcego-arborícola-pequeno (N. leisleri), principalmente, pelo seu tamanho menor. Seguidamente, muitos autores consideraram tratar-se de uma espécie endémica dos Açores (Ulfstrand, 1961; Moore, 1975; Palmeirim, 1979; Le Grand, 1982; Serviço Nacional de Parques e dos Recursos Naturais, 1990). Finalmente, Palmeirim (1991) e Salgueiro et al. (2004) confirmam que o morcego açoriano é uma espécie distinta do morcego-arborícola-pequeno, quer a nível morfológico, quer a nível genético. De acordo com os últimos autores, este terá chegado aos Açores pelos seus próprios meios, há mais de 12 mil anos.

O número de morcegos colonizadores terá sido reduzido e, consequentemente, continha um fundo genético que não era representativo do da população original (este poderia possuir maior representação de genes raros, por exemplo). Assim, as populações descendentes tiveram uma grande probabilidade de divergirem da população ancestral, não só do ponto de vista genético como morfológico. Para além disto, o tipo particular de habitat que ocorria nestas ilhas terá, também, contribuído para a evolução desta espécie única.

O morcego açoriano habita jardins, parques e florestas situados na proximidade de recursos de água doce, que poderão localizar-se ou não em zonas urbanizadas. A sua presença nas últimas zonas está, geralmente, associada a áreas arborizadas (Leonardo, 1999). Ocupa abrigos na época de criação com maior frequência em árvores, seguidamente em casas, e, com menor frequência, em rochas. Registam-se tanto mais indivíduos num abrigo quanto maior a área de entrada deste. Dos abrigos que estabelece nas árvores, selecciona, preferencialmente, cavidades internas ascendentes. Os abrigos utilizados na época de criação poderão ser de três tipos: (a) com grande número de indivíduos ( = 68 +/- 67, N= 10), que correspondem a colónias de maternidade, (b) com pequeno número de indivíduos ( =5 +/- 3, N = 4) e (c) com um único indivíduo, ocupados por machos adultos ( = 1 +/- 0, N = 8). Antes da época de criação, os indivíduos permanecem em pequenos grupos ou sozinhos. Esta decorre de Abril (aquando da formação de colónias de maternidade) até Setembro/Outubro (abandono das colónias). Nesta época do ano, os machos permanecem sozinhos. As crias nascem desde meados do mês de Junho até ao início do mês de Julho (Leonardo, 1999).

No que se refere à sua actividade ao longo das 24 horas, apenas uma pequena percentagem de indivíduos executa voos em pleno dia, pelo que se trata de uma espécie essencialmente crepuscular e nocturna. A hora de saída da maioria dos indivíduos dá-se cerca de 10 minutos antes do pôr-do-sol, o que não corresponde ao padrão de actividade do género Nyctalus, no Norte da Europa, em que a saída se dá ao pôr-do-sol ou depois deste (Schober e Grimmberger, 1993). Provavelmente, isto pode ser explicado por diferenças no período do crepúsculo e pelo facto de nos Açores ocorrer um único predador diurno (o milhafre – Buteo buteo rothschildi), enquanto que no norte da Europa existem vários predadores diurnos. Nos Açores, registam-se três picos de actividade: um ao anoitecer, um a meio da noite e um ao amanhecer, tendo o primeiro maior intensidade, seguindo-se o terceiro e o segundo (Leonardo, 1999). Isto está de acordo com o que já foi registado para outras espécies de morcegos, que se alimentam de insectos voadores na Europa, principalmente, nos períodos em que as temperaturas são mais elevadas (Kronwitter, 1988; Rachwald, 1992).

O morcego açoriano, apesar de ser abundante em várias ilhas dos Açores, é considerado vulnerável na lista vermelha da IUCN (Hutson et al., 2001) e raro no Livro Vermelho dos Vertebrados de Portugal (Serviço Nacional de Parques e dos Recursos Naturais, 1990). Estes estatutos justificam-se pelo facto de o morcego estabelecer populações endémicas, extremamente isoladas em ilhas oceânicas, com elevado risco potencial de extinção, mediante alterações do seu habitat.

Em geral, a população humana não está informada acerca da biologia do morcego açoriano, nomeadamente em relação ao facto de ser endémico do arquipélago dos Açores. Apesar de uma certa antipatia por este tipo de animal, os danos causados pela perturbação de abrigos são pontuais (Leonardo, 1999). Verifica-se que os agricultores têm noções erradas quanto à sua alimentação, afirmando que se alimentam de fruta. Trata-se de um animal insectívoro cuja dieta inclui, preferencialmente, borboletas (Lepidópteros), bem como moscas e mosquitos (Dípteros) (Leonardo, 1999). Tendo em conta os hábitos crepusculares e nocturnos deste morcego, torna-se extremamente útil, porque há uma grande probabilidade de se alimentar de algumas espécies de Lepidópteros e Dípteros, que constituem pragas agrícolas ou são veículos de transmissão de doenças. Para além disto, nas árvores que albergam colónias, regista-se uma acumulação dos seus dejectos (guano) que constituem um fertilizante natural do solo.

Outras espécies de morcegos

Apesar de o morcego endémico ser comum em algumas ilhas, poderão ocorrer outros morcegos nos Açores. Como são os casos de um indivíduo de morcego-da-madeira (Pipistrellus madeirensis), que foi capturado, há alguns anos, em Santa Maria (Constância, com. pess.) e o caso do morcego-rato-grande (Myotis myotis), cuja ocorrência no arquipélago se confirmou pela colheita de crânios na ilha Graciosa (Palmeirim, 1979).

Bannerman e Bannerman (1966) foram os primeiros a referir a presença nos Açores de um morcego maior do que o endémico. Le Grand (com. pess.) também terá observado um morcego diferente do endémico. No entanto, estas observações não têm sido confirmadas por naturalistas que executam, regularmente, trabalhos de campo nas várias ilhas do arquipélago. De acordo com o exposto, a ocorrência do morcego-rato-grande parece ser acidental nos Açores. No caso de haver alguma população residente, esta será muito localizada e com efectivos baixos.

As três espécies de morcegos anteriormente referidas estão protegidas pela Convenção Relativa à Protecção da Vida Selvagem e do Ambiente Natural da Europa (decreto n.º 95/81 de 28 de Julho) e pelo acordo sobre a Conservação dos Morcegos na Europa (decreto n.º 31/95 de 18 de Agosto).

A generalidade das pessoas mostra aversão aos morcegos, por estes terem hábitos nocturnos, faces bizarras e por se parecerem com os vampiros. Estas razões dificultam a obtenção de informações sobre estes animais por parte das pessoas em geral, pelo que se torna necessário realizar acções de Educação Ambiental acerca dos mesmos. [ver mamíferos terrestres] Fátima Melo Medeiros

Bibl. Bannerman, D. A. e Bannerman, W. M. (1966), Birds of the Atlantic Islands. Vol. 3: A History of the Birds of the Azores. Edimburgo e Londres, Oliver & Boyd. Chaves, F. A. (1949), Introdução de algumas espécies zoológicas na ilha de S. Miguel depois da sua descoberta. Açoreana, 4: 325-342. Drouet, H., (1861), Élements de la faune açoréene, Paris, 245 pp. mss. Frutuoso, G. (1971), Livro terceiro das Saudades da Terra. Ponta Delgada, Instituto Cultural de Ponta Delgada. Id. (1981), Livro quarto das Saudades da Terra. Ponta Delgada, Instituto Cultural de Ponta Delgada. Id. (1998), Livro sexto das Saudades da Terra. Ponta Delgada, Instituto Cultural de Ponta Delgada. Hutson, A. M., Mickleburgh S. P., Racey, P. A. (2001), Microchiropteran bats: Global Status Survey and Conservation Action Plan. IUCN/SSC. Gland, Chiroptera Specialist Group. Kronwitter, F. (1988), Population structure, habitat use and activity patterns of Noctule bat, Nyctalus noctula Schreb, 1774 (Chiroptera: Vespertilionidae) revealed by radio-traking. Myotis, 26: 23-85. Le-Grand, G. (1982), Pico da Vara uma Zona de Valor Internacional a Preservar. Universidade dos Açores. Leonardo, M. J. V. (1999), Alguns aspectos da Biologia, Ecologia e Etologia de Nyctalus azoreum (Thomas, 1901). Relatório de Estágio de Licenciatura em Biologia Ramo Ambiental e Evolução, Universidade dos Açores (policopiado). Moore, N. W. (1975), The diurnal flight of the Azorean bat (Nyctalus azoreum) and the avifauna of the Azores. Journal of Zoology, 177: 483-466. Morelet, A., (1860), Notice sur l’histoire naturelle des Açores, suivie d’une description des mollusques terrestres. Paris, J.-B. Bailliers & Fils, Ed. Palmeirim, J. (1979), First record of Myotis myotis on the Azores Islands (Chiroptera: Vespertilionidae). Arquivos do Museu do Bocage, Lisboa, (2.ª Série), 7, notas e suplementos n.º 46: 1-3. Palmeirim, J. M. (1991), A morfometric assessment of the systematic position of the Nyctalus from the Azores and Madeira (Mammalia: Chiroptera). Mammalia, 55: 381-388. Rachwald, A. (1992), Habitat preference and activity of the Noctule bat Nyctalus noctula in the Bialowieza Primeval Forest. Acta Theriologica 34, 4: 413-422. Salgueiro, P., Coelho, M. M., Palmeirim, J. M., Ruedi, M. (2004), Mitochondrial DNA variation and population structure of the island endemic Azorean bat (Nyctalus azoreum). Molecular Ecology, 13: 3357-3366. Schober, W. e Grimmberger, E. (1993), Bats of the Britain and Europe. London, The Hamlyn Publishing Group Limited. Serviço Nacional de Parques e dos Recursos Naturais (1990), Livro Vermelho dos Vertebrados de Portugal, I – Mamíferos, Aves, Répteis e Anfíbios. Lisboa, SNPRCN. Speakman, J. R. e Webb, p. i. (1993), Taxonomy, status and distribution of the Azorean Bat (Nyctalus azoreum). Journal of Zoology, 231: 27-38. Ulfstrand, S. (1961), On the vertebrate fauna of the Azores. Boletim do Museu Municipal do Funchal, 14: 75-86.