mobiliário
Foi no período quinhentista que o mobiliário começou a individualizar-se e a adquirir características portuguesas próprias resultantes dos contactos comerciais e culturais com a África, Ásia e América, estando os Açores na confluência dessas rotas marítimas.
Ao longo dos séculos, a produção de móveis do arquipélago acompanhou estilisticamente os modelos continentais mas, pelas suas circunstâncias geográficas e históricas, recebeu também influências holandesas, orientais, espanholas, brasileiras e inglesas, numa interpretação local que resultou no mobiliário açoriano. No entanto, os Açores foram também um centro de exportação de mobiliário desde o século XV e, por conseguinte, de influência.
A produção de móveis nos Açores compreende três períodos distintos designados pela época do cedro (de 1432 a 1642), época do jacarandá (1642 a 1760) e época do mogno (1760 a 1950). Foi durante o período barroco que o mobiliário açoriano expressou maior criatividade aliada à qualidade, fundindo as inúmeras influências transcontinentais num cunho distinto.
Renascentista
O mobiliário renascentista açoriano é citado desde o século XVI, em Saudades da Terra por Gaspar Frutuoso, onde mencionou o fabrico e exportação para o continente e outros países de «ricas» mesas e cadeiras micaelenses feitas em cedro, teixo e sanguinho. Durante este período a influência estilística foi predominantemente flamenga, manifestada também noutros sectores artísticos devido à presença de holandeses nos Açores.
O mobiliário deste período está associado sobretudo ao mobiliário religioso das igrejas e formalmente são peças de grandes dimensões e vinculadas aos elementos arquitectónicos expressos através da talha. A peça mais comum deste período é a arca mas são também representativos os leitos, constituídos por estrados cobertos de têxteis e dosséis, assentos individuais e colectivos (bancos). As cadeiras de braços e os tronos eram os móveis de assento de uso exclusivo dos altos cargos hierárquicos. São peças mais ornamentadas ou, tal como os leitos, eram também cobertas de têxteis como, por exemplo, veludo e galões com franjas douradas. Na sequência de uma escala hierárquica social seguem-se os tamboretes com espaldar (cadeiras), tamboretes rasos (cadeiras sem espaldar) e os escabelos (bancos simples), sem ornamentação.
Dos exemplos de peças açorianas representativas do período quatrocentista, contam-se a porta renascentista da igreja matriz de Ponta Delgada e as cátedras da igreja de São Gonçalo de Angra. Do período quinhentista, contam-se também exemplos de armários renascentistas de carvalho holandês, armários com a decoração entalhada de motivos de dobra de linho ou folhas de pergaminho (revelando uma permanência do estilo gótico) e estantes de pé em ferro da Sé de Angra. Do século XVII, a Sé de Angra apresenta exemplos de um banco e armário e o Palácio de Santa Ana, em Ponta Delgada, um armário holandês.
Indo-açoriano
A partir de meados do século XVI com a estabilização do comércio marítimo português no Oriente e Extremo Oriente as importações passaram a ser predominantemente de mobiliário, têxteis, marfins, ourivesaria, acharoados, lacados, sedas e porcelanas. O contacto com estes produtos acabou por implicar uma forte influência oriental no mobiliário nacional.
Neste contexto e a partir de Goa, surgiu o estilo indo-português que, ao ser desenvolvido em finais do século XVI por outras regiões, adquiriu variações próprias resultando também no estilo indo-açoriano. A produção de mobiliário neste estilo perdurou até meados século XVIII, sendo o seu móvel mais representativo o contador, por vezes assente sobre um trempe, tendo sido também produzidos escritórios e mesas. As peças deste estilo foram também exportadas para a Europa, sobretudo para Inglaterra durante a segunda metade do século XVII.
A principal característica construtiva deste mobiliário é a substituição da utilização de pregos e cola pelo encaixe feito por espigões de madeira. As pernas são esculpidas em formas de divindades hindus (Matsya, Nagas e Nagini) e os pés por vezes em forma de pássaro mitológico hindu (Garuda), enquanto que todos os espaços vazios são preenchidos por elementos decorativos embutidos em marfim, teca, ébano, madrepérola e tartaruga. O estilo decorativo combina elementos geométricos com elementos vegetalistas estilizados e zoomórficos em composições simétricas. As aplicações de metal nos espelhos das fechaduras, puxadores e cantos são em metal amarelo rendilhado.
Dos contadores e escritórios indo-açorianos contam-se exemplos no Museu de Angra e no Palácio de Santa Ana. De estantes de pé e de mesa contam-se vários exemplos nas igrejas matriz de Ponta Delgada, São Roque no Pico, Horta, Vila do Porto em Santa Maria e Sé de Angra, e também nas igrejas de São Pedro e Santo Inácio de Loiola em Angra, Nossa Senhora da Ajuda na Graciosa e São Mateus no Pico. Relativamente a mesas existe uma peça no Palácio de Santa Ana.
Hispano-açoriano
Durante o período do governo da coroa espanhola sobre Portugal, entre 1580 e 1640, a influência filipina deu origem a uma produção de mobiliário de estilo simplificado. As políticas de austeridade traduziram-se no decreto de 1593, que proibiu a aplicação do ouro, prata e marfim nos móveis e tapeçarias, e na ascensão da Companhia de Jesus assim como da Inquisição, que pretendiam moralizar os costumes portugueses de influência oriental.
O mobiliário deste período é estruturalmente recto e de aparência robusta com elementos decorativos geométricos constituídos por almofadas e molduras de linhas direitas. As ferragens apresentam remates recortados em forma de flor-de-lis estilizada.
A peça mais representativa é a mesa em pernas de lira, normalmente com gavetas no aro, e dos exemplos do mobiliário hispano-açoriano contam-se tamboretes (ou cadeiras) na sacristia da igreja da Fajãzinha das Flores e arca, caixa, arquibanco e tamboretes no Museu da Horta, existindo também exemplos de armários.
Barroco
Com a proibição do emprego do ouro, prata e marfim e a influência barroca gradual de Itália traduzida pelas colunas salomónicas e pelo gosto dos contrastes e curvas e contracurvas, a expressão criativa do mobiliário foi-se centrando no desenvolvimento das técnicas da talha e do torneado no pau-santo vindo do Brasil. Os elementos tremidos e ondulados são os mais característicos do mobiliário português deste estilo, juntamente com as aplicações metálicas rendilhadas de influência indo-portuguesa, cuja produção perdurou até ao século XVIII e atingiu contornos únicos.
Durante a segunda metade do século XVII, Portugal passou a exportar móveis para o resto da Europa, sobretudo cadeiras e peças indo-portuguesas, acabando por marcar uma forte influência no mobiliário inglês, holandês e espanhol. Contudo, a influência mais forte foi em Inglaterra com o tratado de aliança em 1642 entre os dois países e o casamento de D. Catarina de Bragança com o rei Carlos II de Inglaterra em 1662. Estes factores contribuíram para um maior fluxo para Inglaterra de peças orientais e mobiliário português e o consequente impacto na sua produção artística.
As arcas, contadores, armários e bufetes deste período são caracterizados pela decoração entalhada dos tremidos, em espinha de peixe, e ondulações goivadas que contrastam com as aplicações de metal rendilhado de influência indo-portuguesa, enquanto que as pernas e travessas são torneadas em forma de bolbos, discos e bolachas ou colunas salomónias (torcidos). As variantes deste estilo podem apresentar as ilhargas e frentes de arcas (por vezes com gavetas) e armários com molduras e almofadas em losangos e o saial frontal dos contadores, profusamente entalhado e vazado com motivos vegetalistas ou recortado e vazado.
As peças açorianas distinguem-se pela introdução de elementos ondulados em curva e contracurva ao longo de rodapés de arcas e armários, existindo também um exemplo distinto de uma arca com embutidos em marfim, de elementos vegetalistas e ondulados, de influência indo-portuguesa. Contam-se outros exemplos de um armário-oratório datado de 1634, contadores no Palácio de Santa Ana e caixas. Existe também um núcleo particular de armários que traduz o desenvolvimento das relações comerciais entre o Brasil e os Açores e a permanência de holandeses designado por açoriano-brasileiro. Estes armários têm uma estrutura essencialmente holandesa com colunas salomónicas e pés esferóides de grandes dimensões e combinam elementos dos tremidos nas molduras e almofadas. Contam-se nos Açores inúmeros armários deste tipo, com destaque para um exemplo datado de 1679.
As camas da primeira fase do século XVII apresentam cabeceiras com arcarias sobrepostas apoiadas em balaustradas torneadas com elementos piriformes e em bolacha e separadas com faixas por vezes decoradas com embutidos, rematadas por pináculos e suportadas por colunas torneadas. Com o incremento da influência do barroco italiano aliado ao gosto pelas formas indianas, as balaustradas e colunas de sustentação do dossel evoluíram para os torneados torcidos com bolbos, discos e bolachas alternados nas cabeceiras por torneados em forma de bilros, em cima e em baixo, que se desenvolveram também no remate. Os embutidos das faixas da cabeceira foram substituídos por aplicações de metais em placas rendilhados de influência indo-portuguesa ou passaram a apresentar talha recortada e vazada com elementos vegetalistas e zoomórficos ou tremidos. Das camas de bilros açorianas contam-se alguns exemplos da fase final.
Da cadeira de sola, de linhas direitas e secção quadrada, a cadeira barroca desenvolveu-se associada ao estilo nacional português (definido a partir de 1680) e é caracterizada por um espaldar recortado em cima e em baixo com motivos híbridos arabescos, fitomórficos, zoomórficos, cartelas, escudos, brasões ou mascarões em couro lavrado (de herança mourisca), rematado por pregaria em metal amarelo em meia-esfera ou roseta. A testeira é entalhada com enrolamentos de curva e contracurva entrelaçados ou com um elemento concheado central. As pernas são de secção quadrada alternada com torneados em forma de balaústre com pés de torneados piriformes, de pincel ou em voluta e as prumadas da cadeira terminam com pináculos em metal amarelo. Quando tem braços estes são ligeiramente encurvados em voluta e de influência francesa. Dos exemplos açorianos contam-se várias cadeiras no Palácio de Santa Ana e igreja matriz de Santa Cruz das Flores.
Durante este período coexistiram também nos Açores mesas de abas e cancela holandesas de influência inglesa com pernas torneadas em forma de balaústre, como na Sé de Angra, caixas de açúcar vindas do Brasil, baús forrados a couro com pregaria, como o exemplar do século XVIII no Museu da Horta, mobiliário acharoado com motivos de chinoiserie, como o armário de órgão em ouro sobre encarnado na igreja de São Pedro em Angra e peças Nambam como cofres, estantes de missal, uma bandeja, moldura e caixa para relógio.
D. João V
Com o regresso de D. Catarina de Bragança a Portugal em 1693, vieram também de Inglaterra peças de mobiliário inglês que passaram a marcar o gosto da corte. O outro factor que contribuiu igualmente para a intensificação da influência inglesa no mobiliário português residiu nos acordos comerciais que estreitaram as relações entre os dois países. Por conseguinte, grandes quantidades de cadeiras inglesas em palhinha e cómodas-papeleiras lacadas foram importadas durante a primeira metade do século XVIII (até à sua proibição em 1749) tornando o estilo Queen Anne a referência estilística.
A cadeira é o móvel mais representativo das nuances da evolução do estilo e traduz a hibridez das várias influências. Deste modo, na transição do século XVII para o período joanino, a cadeira evoluiu do perfil rectilíneo para um contorno de linhas curvas e aligeirou-se. A maior inovação foi a introdução das pernas em cabriolé na prumada dianteira (inspiração chinesa no móvel inglês), constituídas por uma curva, formando uma joelheira pronunciada com motivos em talha profunda de concheados ou folhas de acanto e contracurva cuja secção vai adelgaçando e termina normalmente com pés em forma de garra-e-bola ou em sapata. O saial é entalhado com os mesmos motivos da joelheira e os espaldares são trapezoidais com o ângulo mais aberto para cima e lados serpenteados, apresentando uma tabela central em forma de balaústre, recortada e vazada nos lados (também de inspiração chinesa no mobiliário inglês) e terminando com um cachaço entalhado.
A utilização da cadeira com espaldar foi-se generalizando gradualmente, sendo também mais frequente a cadeira de braços. A sola lavrada com motivos geométricos ou vegetalistas manteve-se comum e coexistiu com a utilização de assentos em palhinha (de influência oriental no mobiliário inglês) ou estofados com damasco ou veludo. Para além da madeira natural, as cadeiras podiam ser também pintadas e douradas. As pernas de mesas, armários e camas acompanharam a introdução das pernas em cabriolé das cadeiras assim como a mesma expressão decorativa da talha volumosa. Dos exemplares açorianos joaninos contam-se cadeiras de braços no Palácio de Santa Ana (com elementos de transição para D. José I) e no Palácio dos Capitães-Generais em Angra, um armário profusamente entalhado na Sé de Angra e mesas na igreja matriz de Santa Cruz da Graciosa.
D. José I
A partir de meados do século XVIII surgiu a influência francesa, traduzida pelos motivos rocaille e pelo modelo de cadeira en cabriolet criado em 1750, enquanto que a influência inglesa permaneceu através dos modelos rococó de inspiração chinesa propostos por Thomas Chippendale na sua publicação The Gentleman and Cabinet-maker´s Director em 1754. O estilo D. José é caracterizado sobretudo pelo equilíbrio singular em como foi interpretada a simbiose das influências inglesa e francesa, através de uma talha requintada com características próprias.
A cadeira evoluiu para uma silhueta mais adelgaçada e curvilínea de espaldar mais baixo e a volumosa talha do período anterior deu lugar a uma talha rasa e fina com motivos decorativos de concheados com variações assimétricas. Inspirados na cadeira francesa cabriolé, os espaldares D. José são em forma de viola, abaulados mas substituem o encosto estofado original francês pela tabela recortada e vazada com entalhes rendilhados de fitas entrelaçadas (ribbon lace) à maneira de Chippendale. Os assentos são estofados com adamascado carmesim, em palhinha ou em couro almofadado finamente lavrado e as pernas terminam numa pequena voluta, em garra-e-bola ou sapata. Os motivos rococó são de talha rasa e situam-se sobretudo nos pés, joelheiras, saial, tabela central e cachaço.
Existem também modelos de influência francesa mais forte com o espaldar recto em viola e braços estofados mas que por vezes é substituído por palhinha, pintura de tons claros e talha com motivos florais, enquanto que os modelos mais próximos da influência inglesa apresentam o espaldar integralmente em estilo Chippendale e menos decoração entalhada. Durante este período surgiram também vários tipos de cadeiras com diferentes especializações tais como a cadeira de secretária, cadeira de barbear ou a cadeira de canto, mas também permaneceram os tamboretes rasos e a cadeira dobradiça em couro e surgiram em maior quantidade os conjuntos de canapés com cadeiras braços. Dos exemplos açorianos josefinos contam-se várias cadeiras estofadas de braços de influência francesa no Palácio dos Capitães-Generais em Angra e um tamborete raso na igreja de São José em Ponta Delgada, existindo também no arquipélago vários modelos de canapés e cadeiras com tabela Chippendale.
Quanto às camas, apresentam uma cabeceira com um trabalho exuberante de talha vazada com cocheados, motivos florais estilizados e um remate em feixe de plumas, das quais existem vários exemplos nos Açores e, na sua fase final, evoluíram para formas mais simples com o remate recortado e uma talha rasa não vazada. As pernas seguem as mesmas formas das cadeiras e no caso de camas sem dossel as colunas terminam em maçanetas torneadas. As espreguiçadeiras mantêm as mesmas características das cabeceiras das camas e apresentam o estrado em palhinha ou couro.
Durante este período surgiram as cómodas como evolução das arcas, passando a ser igualmente um dos móveis mais representativos deste estilo que se desenvolveram em inúmeras variantes como a meia-cómoda, cómoda-papeleira e cómoda-papeleira com alçado de oratório. Enquanto que a meia-cómoda tem características mais semelhantes com as cadeiras ao nível da forma das pernas e saial assim como na aplicação da talha, na cómoda inteira e cómoda-papeleira os entalhes aparecem nas pilastras laterais de quina e os pés terminam em voluta e folhas de acanto estilizadas largas. A frente é abaulada, tal como as ilhargas, ou com quebras verticais que acompanham o recorte do aro e os puxadores são em prata ou bronze com a mesma gramática decorativa rococó da talha. Existem também variantes híbridas com pés em garra-e-bola de influência inglesa ou de linhas mais direitas, puxadores em madeira torneada e embutidos já de gosto neoclássico. Nos Açores existem vários exemplos de cómodas e suas variantes como os arcazes da sacristia na igreja da praia do Almoxarife no Faial que representam bem as características deste estilo. Também durante este período desenvolveram-se vários tipos de mesas como de encostar, de jogo e em pé-de-galo (de influência inglesa) que acompanham as mesmas características das formas das cadeiras.
Neoclassicismo
A descoberta das ruínas romanas de Pompeia e Herculano e o cansaço da exuberância do rococó transformaram o gosto europeu e deram origem ao surto do movimento neoclássico entre 1760 e 1830 com uma reinterpretação do mundo antigo greco-romano. Inicialmente a influência foi francesa mas à medida que os ideais revolucionários se foram desenvolvendo em França, pondo em causa a monarquia, Portugal foi-se afastando dessas influências, unindo-se cada vez mais com Inglaterra até ao isolamento de ambos os países com as invasões napoleónicas. O outro factor que contribui para a intensificação da influência inglesa directa nos Açores, sobretudo em São Miguel, foi o comércio da exportação de laranjas para Inglaterra e a vinda de mobiliário inglês.
O neoclassicismo desenvolveu-se em Portugal a partir de 1770 e na sua fase transitória o mobiliário integra ainda elementos josefinos. Os móveis mais representativos do estilo D. Maria I de influência francesa são a cómoda, cómoda-papeleira e cómoda-papeleira com alçado de linhas direitas com marchetados florais de madeiras claras e as cadeiras, por vezes pintadas, com espaldar oval estofadas ou em palhinha com pequenos entalhes de grinaldas no remate central do cachaço e pernas estriadas em coluna ou balaústre, com a parte superior em forma de cubo e uma roseta entalhada. A influência inglesa traduziu-se através da inspiração nos modelos de cadeiras e canapés de Hepplewhite, com os espaldares em forma de escudo e tabela recortada e vazada, e de Sheraton com o espaldar em forma recta e trapezoidal e pinturas de paisagens na tabela central. Estas cadeiras apresentam o assento em palhinha, pernas de secção quadrada e são por vezes pintadas.
O tipo de mobiliário que traduz o cunho nacional e que se distingue da semelhança dos modelos estrangeiros é a cama com os seus marchetados finos de decoração neoclássica e símbolos de felicidade no amor na cabeceira ou espaldar estofado com moldura oval e entalhes delicados de grinaldas e festões com laços. Com o acentuar da influência inglesa generalizaram-se também as mesas de jogo, de chá, de jantar e em pé-de-galo com coluna em balaústre, tendo surgido os armários em vidros de linhas direitas. As cómodas e suas variantes passaram a ter puxadores torneados com escudetes embutidos em forma de losango, que nos Açores é em osso de baleia. No período de D. João VI e após o fim da guerra com Napoleão, o mobiliário recebe a influência francesa do estilo Império em que as cadeiras passaram a ter as pernas em sabre e cachaço curvo inspiradas na cadeira grega klismos, com a predominância da cor encarnada do mogno.
O mobiliário açoriano neoclássico conta com vários exemplos de toda a variedade de cadeiras, mesas, tremós e cómodas, como a cómoda-papeleira, acharoada no interior em ouro sobre negro da igreja de São Pedro em Angra, cómoda na igreja matriz da Praia da Vitória e armários de vidros no Museu de Ponta Delgada.
Época Industrial
Com a intensificação do desenvolvimento industrial surgiram na segunda metade do século XIX as grandes exposições internacionais que divulgavam os novos produtos e modas a uma escala mundial. Desenvolveu-se o mobiliário de fabrico mecanizado, surgiram novos materiais como o papier mâché e o ferro fundido e proliferaram os estilos revivalistas do passado resultando num gosto eclético aliado aos ideais do movimento romântico e dos nacionalismos. Em reacção aos revivalismos históricos, surgiu paralelamente no final do século XIX o movimento inglês Arts and Crafts que procurou novas formas recorrendo aos métodos tradicionais não industriais, evoluindo mais tarde, no início do século XX, para as linhas orgânicas da Arte Nova, de origem francesa.
No século XX o mobiliário mecanizado tornou-se predominante e a sua generalização deu-se sobretudo a partir de finais dos anos 20, traduzida através do estilo Art Déco, de linhas direitas, influenciado pelo estilo cubista que teve origem na pintura. Na era da máquina, associada ao desenvolvimento dos transportes e comunicações, surgiram também novos materiais aplicados ao mobiliário, nomeadamente o metal tubular, a madeira em contraplacado ou os plásticos que foram utilizados sobretudo depois da II Guerra Mundial. Durante o século XX coexistiu a produção de mobiliário de fabrico massificado mecânico de gosto revivalista dos estilos passados, com o mobiliário de design de autor e a experimentação de novos materiais resultantes de novas tecnologias.
Os Açores apresentam vários exemplos de mobiliário eclético do século XIX como, por exemplo, no Palácio dos Capitães-Generais e no Palácio de Santa Ana, neste caso com destaque para o conjunto da sala de jantar. Dos exemplos do estilo Art Déco açoriano contam-se o mobiliário primitivo do Hotel das Furnas em São Miguel, da Barbearia Gil na Rua Machado dos Santos em Ponta Delgada, do Montepio Terceirense / Banco Português do Atlântico na ilha Terceira, da Agência do Banco de Portugal em Angra do Heroísmo e da sociedade «Amor da Pátria» na Horta. Alexandre Freire Lousada
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