moagens
A produção de farinha no arquipélago remonta aos primeiros tempos do povoamento, através do recurso a moinhos e azenhas movidos pela força eólica ou hidráulica. Estas fontes de energia mantiveram-se até meados do século XIX, altura em que começaram a surgir algumas moagens funcionando a vapor ou motor de explosão. Em 1852, já existia um estabelecimento destes com 17 assalariados e, por volta de 1871, funcionava outro no Faial, pertencente à família Dabney. Todavia, as novas fontes energéticas continuaram a ter um peso pouco significativo no conjunto desta indústria que se manteve muito artesanal, até aos finais da I Guerra Mundial.
Os inquéritos industriais, apesar de todas as deficiências, permitem captar a importância desta indústria que se afirmou como a primeira do arquipélago, quer em número de estabelecimentos quer de trabalhadores. Segundo o inquérito de 1890, existiam na região 432 moagens que empregavam 572 pessoas, correspondendo a 16,1% do número total de estabelecimentos e a 11% do número de trabalhadores na indústria. Só era ultrapassada pela fiação e tecelagem com 744 estabelecimentos. Mas no início do século XX, a situação alterou-se, passando a moagem, em 1910, a comportar 626 estabelecimentos, ocupando uma posição cimeira em todas as ilhas. A primazia manteve-se em 1917, crescendo o número de estabelecimentos para 630, representando 31,7% do total, com 727 trabalhadores, que equivaliam a 12,3% dos empregados na indústria.
A grande alteração no sector verificou-se com a abertura de três unidades industriais nas principais ilhas: a Moagem Faialense, de José Peixoto Ávila & Cª, montada em 1914, a Moagem Micaelense, da Empresa da Moagem Micaelense, Ldª, inaugurada nos últimos dias de 1922, e a Moagem Terceirense, de Basílio Simões, de 1928.
A abertura da Moagem Faialense foi responsável pelo encerramento de onze estabelecimentos naquela ilha, num curto espaço de três anos. Em S. Miguel, a Moagem Teves, fundada em 1903, ficou impossibilitada de concorrer com a Micaelense e a Ferreira deixou de laborar após a entrada em funcionamento daquela. O número de estabelecimentos foi diminuindo gradualmente, e surgiram na sociedade açoriana uma série de conflitos até então inexistentes. Esses conflitos giravam em torno da grande Moagem Micaelense que pretendia monopolizar e controlar a actividade no arquipélago; entre moageiros e importadores de farinha; entre consumidores e moageiros, defendendo os primeiros a livre importação de farinhas; entre produtores de trigo e moageiros, na medida em que estes preferiam importar trigo exótico.
As pressões exercidas sobre o poder central levaram à elaboração de vários decretos que foram procurando satisfazer os interesses em jogo. Em torno da Moagem Micaelense formou-se o lobby mais poderoso. Esta fábrica, com máquinas compradas à Moagem Madeirense, ficou instalada num edifício de cinco andares construído para o efeito, e possuía uma força motriz de 180 cavalos, alimentada a carvão ou lenha. A capacidade de laboração diária era de 75 toneladas de farinha, o suficiente para abastecer todo o arquipélago. Diariamente, empregava uma média de 50 operários. A Moagem Terceirense tinha apenas uma capacidade de produção de 16 toneladas, embora tivesse sofrido melhoramentos em 1955 e 1969.
A defesa de uma política que encarasse o arquipélago como uma unidade económica foi feita pela Moagem Micaelense com o objectivo de poder assegurar a sua expansão a todo o mercado açoriano. No geral, tal não aconteceu. Devido a muitos protestos, o poder central optou por privilegiar o distrito como unidade autónoma, apesar da política ziguezagueante que procurou beneficiar a Moagem Micaelense em determinadas conjunturas. O mesmo aconteceu em relação aos produtores de trigo que conseguiram ver satisfeitas as suas reivindicações, ou seja, a compra de trigo exótico só era efectuada após o consumo da produção insular.
A partir de 1936, com a criação da Comissão Reguladora do Trigo nos Açores, denominada posteriormente *Comissão Reguladora dos Cereais por incluir também o milho, aquela situação alterou-se. A Comissão, que tinha como função coordenar a produção e o comércio do trigo, construiu celeiros para o armazenar, dando assim mais estabilidade ao produtor. Deste modo, as fábricas deixaram de se desculpar por não poderem comprar a produção local por falta de armazém, e começaram a pagar o preço tabelado pela Comissão, o que não acontecia anteriormente.
Embora dominado por aquelas três unidades fabris, mantiveram-se no arquipélago muitas outras pequenas unidades, movidas a electricidade, mas também recorrendo às tradicionais fontes de energia, com destaque para as ilhas mais pequenas. Em S. Miguel, os 293 estabelecimentos existentes em 1917 diminuíram para 81 em 1970; na Terceira passaram de 148 para 46 e na Horta os 47 existentes praticamente desapareceram, incluindo a Moagem Faialense. Contudo, a partir dos anos setenta, o desaparecimento de muitos destes estabelecimentos revelava outras mudanças na economia açoriana, com o declínio drástico da produção de milho e de trigo. Praticamente só se mantiveram as grandes unidades, ficando a Moagem Micaelense integrada na MOAÇOR (Sociedades Reunidas de Moinhos dos Açores, Ld.ª) laborando trigo exótico, mas sofrendo a concorrência da importação de farinhas. Carlos Enes
Bibl. Enes, C. (1994), A economia açoriana entre as duas guerras mundiais. Lisboa, Edições Salamandra: 124-130. João, M. I. (1991), Os Açores no século XIX economia, sociedade e movimentos autonomistas. Lisboa, Edições Cosmos: 76-85. Merelim, P. (1974), As 18 paróquias de Angra. Angra do Heroísmo, Tip. Minerva Comercial: 859-860.
