milho
As incertezas a cerca da introdução do milho nos Açores ainda são grandes. Foi introduzido no continente português ainda em Quinhentos, através de Sevilha, mas a sua chegada aos Açores ainda está mal documentada. No Novo Foral da Capitania do Funchal, que se estendeu aos Açores em 1558, já é referido o pagamento do dízimo do milho, contudo o primeiro cronista açoriano, Gaspar Frutuoso, nas Saudades da Terra não se lhe refere, o que leva a pressupor que, pouco conhecido, era nos finais do século XVI. Daí apontar-se o início da sua cultura para os princípios de Seiscentos, que se terá desenvolvido na centúria seguinte, particularmente na segunda metade do século XVII. Na verdade, são os cronistas Padre Manuel Maldonado, na Fenix Angrense, e Padre António Cordeiro (1647 e 1710 respectivamente), os primeiros a referirem esta cultura, embora em ambos os casos, o milho seja ainda citado como uma cultura pouco usada. O padre António Cordeiro ao mencioná-lo diz ter sido a sua cultura introduzida para substituir a cultura do pastel em meados do século XVII, mas que era mal aceite pela população. Na verdade, o colapso do pastel levou o povo açoriano a buscar outras alternativas e, como nas ilhas menos férteis o trigo não era rendível, a aclimatação do milho foi-se fazendo durante toda a segunda metade de Seiscentos. Este cereal passou a ser cultivado um pouco por todas as ilhas, documentando-se a sua existência para a alimentação do povo, do gado e sua transformação em farinha. Todavia, nos finais do século XVII e princípios de seguinte, o milho não atingiu o valor mercantil da antiga planta tintureira.
Se no século XVII ele ainda era mal aceite, na centúria seguinte isto já não acontecia e é mesmo considerado o primeiro sustento das ilhas para alimento dos pobres. Na verdade o milho, cultura eminentemente hidrófila, era por demais propícia a um clima húmido como é o das ilhas. Ao contrário do trigo (cereal desde o início do povoamento muito cultivado nos Açores, mas predominantemente cultura de sequeiro), o milho aguenta bem a humidade açoriana e tem tempos diferentes de colheita: nas terras da beira-mar no início de Agosto e Setembro, nas terras de média altura em Setembro e Outubro e na serra em Outubro e Novembro. Tudo isto tornou a cultura do milho muito menos arriscada que a do trigo, que tinha o grande perigo do apodrecimento das sementes devido às chuvas de Primavera. Além disso, a cultura do milho tinha uma boa rendibilidade nas pequenas propriedades, o que ia de encontro à fragmentação da propriedade nas ilhas mais pequenas e menos férteis como S. Jorge, Graciosa e Pico. Para além destes aspectos positivos, outro também se fazia notar: quando verde servia de forragem para os animais, característica importante na época Moderna, quando os prados artificiais não eram ainda muito usuais e havia uma constante falta de pastagem para os gados. Acrescente-se que, durante toda a centúria de Setecentos, muitas crises frumentárias se deram nos Açores, tornando-se o milho o cereal fundamental para socorrer as populações famintas. Durante o século XVIII, o milho passou a ser a contrapartida dada pelos proprietários e mercadores para que a licença de exportação de seus trigos fosse concedida. Na verdade, durante Setecentos, com o cansaço das terras e os constantes temporais, a decadência da produção do trigo foi-se acentuando. Face a esta escassez do trigo e para que a fome não apertasse, os vereadores começaram a obrigar os proprietários e mercadores a deixarem na terra a terça parte do cereal e as tensões começaram a fazer-se sentir. Vários acórdãos camarários mostram bem o empenho dos municípios em controlarem a produção do milho. Notificam-se os lavradores para em determinado dia irem à Câmara declararem suas colheitas, mandam-se os juízos do termo para averiguarem o milho que havia nos concelhos e ordenam-se os rendeiros dos moinhos para declararem o que pretendiam fazer de seus milhos. Como se fazia anteriormente com o trigo, trajecto do milho também passou a ser controlado e as guerras entre concelhos vizinhos fizeram-se sentir. A importância deste cereal levou a que também os capitães Generais estivessem atentos à sua produção. Na verdade um dos objectivos da Capitania-Geral era o fomento económico das ilhas daí que, o desenvolvimento desta cultura, estivesse presente nas suas preocupações, tudo fazendo para controlar a sua produção. Na verdade, o poder central, representado pelo vapitão-general, continuava a estar interessado em que as ilhas cumprissem o seu destino de celeiros de Portugal, daí promoverem as exportações, que só seriam possíveis se os milhos acalmassem a fome das populações. Para além disso, com as crises frumentárias da década de oitenta, urgia movimentar o comércio deste cereal inter-ilhas. Foi o que aconteceu em vários anos de crise, quando, por exemplo, foi pedido para o Pico 200 a 300 moios de milho em 1767, ou para a Graciosa em 1771 ou ainda em 1785 quando um mercador micaelense exportou milho, a pedido do capitão-general para suprir a fome que grassava na Terceira. Esta importância do milho aumentou durante toda a segunda metade do século XVIII, de tal modo que, um dos principais negociantes micaelenses, Nicolau Maria Raposo de Amaral, ao referir-se à economia da ilhas em 1783 afirmando: os lavradores passaram a cultivar mais milho, tornando-se este a ser substituto do trigo, não só no abastecimento local mas também como principal género de grão a exportar para o reino (Universidade dos Açores/ Serviço de Documentação José Maria Raposo do Amaral, Cop. C, Carta de N. M. R a F. J. R, vol. V, 1783). A novidade agora é que o milho já não servia só para o sustento do povo, mas passava a ser o principal cereal, em quantidade, a ser exportado para o continente e Madeira. A produção aumentava e ultrapassava a do trigo, embora ao nível de preços os do trigo continuassem mais elevados. Assim, em S. Miguel, temos um aumento na produção de 203.306 alqueires de milho em 1781 para 330.00 alqueires em 1800, apesar de comercialmente o trigo ser preferível pois em 1800 o milho custava 240 réis o alqueire enquanto o trigo atingia o preço de 550 reis o alqueire. Durante a primeira metade do século XIX as exportações de milho aumentaram, passando os quantitativos de milho exportados por S. Miguel de 26.126 alqueires em 1800 para 229.494 alqueires em1810 atingindo um preço de cerca de 700 réis o alqueire. Nas ilhas do grupo central, nomeadamente na ilha Terceira, o milho, apesar de aumentar a sua produção, não atingiu os quantitativos do trigo na exportação, sendo este cereal ainda o mais exportado daquela ilha. Este movimento ascendente da produção e exportação do milho no arquipélago continuou até aos finais do século mas nas últimas décadas a decadência da exportação deste cereal foi evidente. Na verdade, o milho açoriano, tinha cada vez mais dificuldade de colocação nos mercados do continente e da Madeira, devido à tendência para suprir o défice com a importação de cereais estrangeiros. Na década de oitenta do século XIX, o milho passou a ser uma das matérias-primas para a elaboração do álcool, ultrapassando assim um pouco o problema da decadência das exportações. Na verdade a destilação do álcool assumiu, no início da década de noventa, um papel relevante na economia destas duas ilhas, passando a representar 75% do valor das exportações de S. Miguel. A partir desta altura, o milho deixou de ser um produto importante para a exportação, passando a cultura de subsistência.
Margarida Vaz do Rego Machado
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