milhafre

Nome vulgar da espécie de ave Buteo buteo rothschildi (Accipitridae) (Agostinho, 1935; Bannerman e Bannerman, 1966; Hartert e Ogilvie-Grant, 1905; Martins et al., 2002; Sampaio, 1904; Serviço Nacional de Parques, Reservas e Conservação da Natureza, 1990), também conhecida por queimado (Agostinho, 1935; Martins et al., 2002; Sampaio, 1904; Serviço Nacional de Parques, Reservas e Conservação da Natureza, 1990). É a única ave predadora, diurna, existente nos Açores.

A subespécie foi descrita por H. Kirke Swann, em 1919, como de cor do dorso castanha-ferrugem, uniforme; peito listrado de castanho escuro; abdómen cor de canela a canela-creme com listas amarelo-tostado; cauda castanho claro ou amarelo-tostado, com barras mais escuras, cerca de 5, pouco nítidas, nos indivíduos mais velhos, cerca de 10, distintas, nos indivíduos mais novos (cf. Bannerman e Bannerman, 1966; Hartert e Ogilvie-Grant, 1905; Martins et al., 2002).

O tamanho dos indivíduos da subespécie açoriana, com envergadura entre 113 cm e 128 cm e comprimento entre 51 cm e 57 cm, tem sido notado como de menores dimensões relativamente aos indivíduos da espécie nominal desde Hartert e Ogilvie-Grant (1905) o que pode estar relacionado com a vida insular.

Habita tanto zonas florestadas, matas de criptoméria, florestas mistas e áreas de mato, como pastagens e campos de cultura, preferindo as primeiras para nidificar e as segundas para a alimentação. Acontece nidificar em pequenas manchas de vegetação, próximas de locais expostos e de ocupação humana, por essas áreas propiciarem condições de alimentação, nomeadamente de animais domésticos (Hartert e Ogilvie-Grant, 1905).

Tem dieta diversificada, importante na regulação da densidade populacional de espécies prejudiciais como o rato e o pardal, entre outros. Alimenta-se de mamíferos (coelho-bravo, ouriço-cacheiro, rato, morganho), aves (pardal, melro-negro, pombos) e invertebrados (larvas de borboletas, minhocas). Pousado em poleiros ou em voo planado procura a presa que, depois de visualizada, é atacada, capturada e morta com as garras (Hartert e Ogilvie-Grant, 1905; Martins et al., 2002).

Os ninhos, geralmente volumosos, planos e amplos, são construídos por ambos os progenitores em árvores, mas também em cavidades das arribas costeiras e do solo onde a vegetação for mais densa de modo a proporcionar protecção. Ramos e folhas são os materiais usados na sua construção. A postura ocorre em finais de Março e em Abril. Os ovos, 2 a 4, brancos com manchas vermelhas e castanhas, por vezes cinzentas, medindo entre 53,9 x 43,7 cm e 53,3 x 42,7 cm, são incubados durante 33 a 36 dias, geralmente pela fêmea (Murphy, 1931). As crias permanecem no ninho durante 50 a 55 dias. Depois de o abandonarem, permanecem nas proximidades durante 6 a 8 semanas, continuando a ser alimentados pelos progenitores. A plumagem definitiva é alcançada com cerca de 2 anos de idade e a primeira reprodução com 3 anos. Na vida selvagem pode viver 25 anos (Martins et al., 2002).

Ocorre em todas as ilhas dos grupos central e oriental.

No arquipélago açoriano, o milhafre não tem inimigos naturais sendo o mocho (Asio otus) o único competidor natural. A sua conservação não está ameaçada, mas encontra-se protegido pela Convenção Relativa à Protecção da Vida Selvagem e do Ambiente Natural da Europa (Convenção de Berna), que Portugal ratificou e transpôs para a ordem jurídica interna pelo Decreto-Lei n.º 95/1981, de 23 de Julho, e que regulamentou pelo Decreto-Lei n.º 316/1989, de 22 de Setembro.

Uma eventual confusão destas aves com outras conhecidas vulgarmente por açores pode estar na origem do nome do arquipélago açoriano (Agostinho, 1935; Chavigny e Mayaud, 1932). Luís M. Arruda

Bibl. Agostinho, J. (1935), Ornitologia açoreana, Açoreana, 1, 2: 113-133. Bannerman, D. A. e Bannerman, W. M. (1966), Birds of the Atlantic Islands, vol. 3: A History of the Birds of Azores. Edimburgo e Londres, Oliver & Boyd. Chavigny, J. e Mayaud, N. (1932), Sur l’avifaune des Açores. Généralités et Etude contributive. Alauda (2), 3: 304-348. Hartert, E. e Ogilvie-Grant, W. R. (1905), On the Birds of the Azores. Novitates Zoologicae, 12: 80-128. Martins, R., Rodrigues, A. e Cunha, R. (2002), Aves natives dos Açores. Mirandela, João Azevedo Editor. Murphy, R. C. (1931), Nidification of Azores Moorhen and other species. Ibis: 572-573. Sampaio, A. S., (1904), Memória sobre a ilha Terceira. Peixes. Angra do Heroísmo, Imp. Municipal. Serviço Nacional de Parques, Reservas e Conservação da Natureza (1990), Livro Vermelho dos Vertebrados de Portugal, vol. I: Mamíferos, Aves, Répteis e Anfíbios. Lisboa, SNPRCN.