Merens

Da ilha Terceira. A fazer fé em frei Diogo das Chagas ter-se-ia chamado Álvaro Vaz Meirens um dos primeiros povoadores da ilha Terceira que veio na comitiva do capitão-do-donatário Jácome de Bruges. Assim o terá visto nomeado em papéis antigos o supracitado autor. Não tenho conhecimento deste apelido no continente, nem encontrei tal grafia em nenhum documento açoriano do século XVI, sendo certo que, designadamente nos paroquiais, se encontram geralmente os membros desta família referidos como Merens.

Este Álvaro Vaz Merens, a quem são atribuídas dadas de terrenos adjacentes ao Porto das Pipas, junto a Angra, que naquele período ainda não havia sido totalmente incluído na primitiva malha urbana, teria tido uma filha, Margarida Álvares Merens, que casando com um Pedro da Barca, dele teria tido Joana da Barca, primeira mulher de Pedro Anes do Canto. O padre Manuel Luís Maldonado escreve que passou à ilha Terceira Pedro Abarca, irmão de Maria Abarca e casou nela com Margarida Alvares Merens, filha de Álvaro Vaz Merens e de sua mulher, que adianta ter-se chamado Isabel Velho.

Concretamente, nos finais do século XV, começos de Quinhentos, apenas constam nas fontes primárias em 8 de Setembro de 1510 um João Martins Merens casado com uma Maria Luís e sogro de Álvaro Pires. E também um João Vaz Merens que, em tese, poderia ser filho do supracitado Álvaro Vaz Merens (Tombo das Escrituras e Cartas de Sesmaria de Pedro Anes do Canto, fl. 25), aos quais regressarei.

Quanto às alegadas informações referentes ao casamento e descendência da, por enquanto hipotética, Margarida Álvares Merens estão, pelo menos parcialmente, erradas.

A sua alegada filha, Joanna d’avarqua, a quem João Vaz Côrte-Real dá o tratamento de sobrinha sem que possamos concluir com inteira certeza se era sobrinha de sua própria mãe, Maria d’Abarca, encontra-se perfeitamente identificada em 22 de Novembro de 1506, como donzela solteira, filha de João d’ Abarca, cavaleiro da casa do infante Dom Fernando que Deus haja (Tombo das Escrituras e Cartas de Sesmaria de Pedro Anes do Canto, fl. 24). Se o cavaleiro João d’Abarca era irmão da supracitada Maria d’Abarca, sua filha Joana seria prima como irmã (prima direita) de João Vaz Côrte-Real.

Mas outros linhagistas açorianos, possivelmente utilizando as mesmas fontes que lhes permitiram construir o mito fundacional, concluindo que Pedro Anes do Canto, era filho de João Vaz do Canto, de Guimarães, lídimo neto de John of Kent condestável do príncipe de Gales (Gregório, 2002), referem o alegado Pedro da Barca, putativo pai da primeira mulher de Pedro Anes do Canto, como D. Pedro de Abarca, filho de um homónimo fidalgo de Tuy que teria passado aos Açores nos princípios do século XV.

Se o João d’Abarca, cavaleiro da casa do infante D. Fernando e documentado como pai de Joana d’Abarca tinha algum parentesco com estes fidalgos de Tuy – que não documentei – é coisa que não consegui apurar1, e muito menos se a mãe da primeira mulher de Pedro Anes do Canto era filha de uma Margarida Álvares Merens, filha de um Álvaro Vaz Merens.

Mas, como acima referi, nos finais do século XV, começos de Quinhentos, constam das fontes primárias em 8 de Setembro de 1510 um João Martins Merens casado com uma Maria Luís e sogro de um Álvaro Pires, que talvez pudesse ser o Álvaro Pires Estaço, vereador da câmara de Angra em 1542 e marido de uma Aldonça Martins2. Mas também João Vaz Merens, casado, que, em tese, poderia ser filho do supracitado Álvaro Vaz Merens (Tombo das Escrituras e Cartas de Sesmaria de Pedro Anes do Canto, fl. 25). Este último, que instituiu a ermida de Santa Luzia em Angra, casou com Catarina Lourenço, filha de Afonso Álvares d’Antona, de quem teve geração conhecida.

Aquele João Martins Merens e sua mulher Maria Luís, testaram em 13.1.1531 alterando a sucessão do morgado dos Merens, por eles instituído, e encabeçado pela capela que ficava junto ao coro do orago de Nossa Senhora dos Remédios no convento de S. Francisco de Angra, e tinha obrigação do uso do apelido. Por esse instrumento derrogavam um testamento prévio, de 12 de Novembro de 1529, em que tinha sido nomeado sucessor do dito morgado Sebastião Merens, filho dos instituidores, que foi afastado da sucessão a favor de João Merens, neto dos instituidores, filho de Brás Dias Rodovalho, falecido em 1546, provedor dos resíduos órfãos e capelas da ilha Terceira, e de Beatriz Merens.

O supracitado Sebastião Merens casou pela segunda vez com Catarina Vaz, terceira filha de Vasco Fernandes Rodovalho, e no seu testamento, lavrado em 13 de Janeiro de 1565, recomenda à mulher que se componha nas demandas que ele trazia com seus sobrinhos, filhos de Brás Dias Rodovalho. Teve uma filha, também chamada Beatriz Merens, que casou com Fernão Baião, com geração.

Beatriz Merens, mulher de Brás Dias Rodovalho, além do já referido sucessor no morgado dos Merens, e de outros filhos que usaram preferencialmente o apelido paterno, teve Catarina Merens, mulher de João Vieira, Maria Luísa Merens, que casou com Matias Pamplona, com geração, e Francisca Merens, mulher de António Pamplona de Miranda, de quem existe igualmente geração actual procedente dos desse apelido, dos Moniz Barreto, e de muitas outras famílias da nobreza angrense. Manuel Lamas

1 De bem mais modesta extracção seria um João da Barca, ferreiro, marido de Leonor Eanes e pai de Beatriz Anes, mulher de Pedro Alvares Quadrado, almocreve, que em 1513 residiam na rua dos Gatos, arrabalde da mesma vila de Guimarães onde, em 1473, nascera Pedro Anes do Canto (filho de João Anes do Canto, mercador), marido dessa Joana de Abarca e comprador, a partir de 1507, de vários quinhões de uma herança de chão e casas que possuíam em Angra, ilha Terceira, Pedro Alvares Quadrado, a sogra e demais herdeiros desse João da Barca, vimaranense.

2 Frei Diogo das Chagas ignora o nome da mulher de Álvaro Pires, que não refere com o apelido Estaço, e desconhece a respectiva descendência.

 

Fontes. Tombo das Escrituras e Cartas de Sesmaria de Pedro Anes do Canto, fls. 24, 25.

 

Bibl. Gregório, R. D. (2002), De «Canto» a «Chandos» revisitando o mito fundacional de uma linhagem (1350-1621?) In Os reinos ibéricos na Idade Média. Livro de homenagem ao Prof. Humberto Baquero Moreno. Porto, Universidade do Porto, II: 1283-1290.