Melo
Das ilhas Graciosa e Terceira. De acordo com o que se deduz a partir da carta de brasão de armas passada em 19 de Fevereiro de 1519 a Afonso de Melo, e repetida noutras, posteriores, como, por exemplo, a que foi passada em 23 de Abril de 1544, os deste apelido que primeiro se radicaram na ilha Graciosa descendem do tronco deste apelido por linha feminina bastarda.
Com Sancha Rodrigues de Arce, mulher do capitão Jácome de Bruges, terá passado das Astúrias a Portugal continental um seu irmão, por nome Gaspar Dias de Arce, que no reino terá casado uma primeira vez com Brites (ou Beatriz) de Melo, com geração, e uma segunda vez, já na ilha Graciosa, com Guiomar de Freitas, viúva de Fernão Furtado de Mendonça, também com geração.
A primeira mulher era filha natural, ou bastarda, de Vasco Martins de Melo, referido como irmão de D. Pedro Vaz de Melo, 1.º conde da Atalaia. Não encontrei nos autores consultados nenhum Vasco Martins de Melo entre os filhos de Gonçalo Vaz de Melo e sua mulher D. Isabel de Albuquerque, pais desse 1.º conde da Atalaia, que tivesse tido geração. A menos que se tratasse do 4.º senhor da Castanheira, Povos e Cheleiros, irmão documentado do 1.º conde da Atalaia, que se chamou efectivamente Vasco Martins de Melo (como seus antepassados), casado com D. Isabel da Silva, de quem não teve filhos.
Mas pode perfeitamente ter tido sucessão natural, ou bastarda. A esta possível sucessão alude Alão de Moraes, no título de Vasconcelos, parágrafo referente aos comendadores do Seixo, ao referir que Iria de Melo (que tendo casado com Froilos de Vasconcelos, filho de Heitor Mendes de Vasconcelos, se tornou prima como irmã de D. Catarina; ou Maria, Correia, filha de Pero Correia, capitão-do-donatário da ilha Graciosa) era filha de um Vasco Martins de Melo que, de acordo com uma carta de padrão passada por D. João III, era filho de Gonçalo Vaz de Melo e, portanto, irmão do 1.º conde da Atalaia.
Parecerá estranho que, tratando-se de uma família do maior relevo tenha sido necessário recorrer a uma carta de padrão para estabelecer a filiação deste Vasco Martins de Melo, todavia, se tivermos em atenção que, pelo menos dois dos manuscritos de meados de Quinhentos que se ocuparam das linhagens da corte portuguesa (o de Damião de Góis e o Nobiliário manuscrito de Famílias da Corte, redigido no reinado de D. João III) tratam a linhagem dos Melo de modo confuso, com erros e omissões, essa estranheza diminuirá.
Acresce que esta versão foi aceite nas inquirições que precederam a passagem de cartas de brasão de armas do século XVI, e pela totalidade dos genealogistas açorianos.
E não se pode esquecer que as alianças matrimoniais que estes Melo estabeleceram desde a sua chegada aos Açores os ligam a capitães dos Donatários e à primeira nobreza insular, nem tão pouco que Vasqueanes Côrte-Real, alcaide-mor de Tavira e capitão-do-donatário de Angra, contemporâneo da primeira mulher de Gaspar Dias de Arce, era casado com uma parente desta, D. Joana, filha de Garcia de Melo e de sua primeira mulher D. Filipa da Silva, nãos constando que os Côrte-Real tenham contestado nunca o parentesco. Por todas estas razões parece-me aceitável o entronque tradicional.
Gaspar Dias de Arce e sua mulher Brites de Melo tiveram um filho e uma filha, de acordo com os genealogistas açorianos.
O primogénito, Diogo de Melo, (também referido como Diogo de Melo da Cunha, o que é erro) casou na Graciosa com uma filha de Vasco Gil Sodré (julgo que fosse Leonor Vaz) de quem teve geração parcialmente conhecida. A filha, D. Leonor de Melo, veio a casar com Duarte Correia da Cunha, segundo capitão-do-donatário da ilha Graciosa e, enviuvando, em 1495, voltou a casar com Francisco de Espínola, de quem não teve geração. Testou em 11 de Janeiro de 1542, instituindo um vínculo na Graciosa. Do seu primeiro casamento teve Afonso de Melo (assim é nomeado na sua carta de brasão de armas de 19 de Fevereiro de 1519, embora em documentos da Graciosa figure como Afonso Correia de Melo), fidalgo-escudeiro da Casa Real com 1500 reis de moradia e um alqueire de cevada (ver IAN/TT, liv. IV de matrículas, respeitante a seu filho Manuel Correia de Melo, em 4 de Junho de 1603) que na Graciosa casou com Isabel Pereira, filha do escudeiro e almoxarife Nuno Martins Palha (natural de Vera Cruz de Marmelar, no Alentejo) e de sua primeira mulher Mor Gonçalves Pereira, da ilha do Faial. Este Afonso Correia de Melo, que ainda vivia em 1565, através de seus filhos Nuno Correia de Melo, casado com D. Branca Felgueiras de Ávila; Manuel Correia de Melo, casado com D. Inês Pacheco de Lima; Paulo Correia de Melo, casado com D. Bárbara Borges e da filha Guiomar de Melo, casada com Leão Espínola da Veiga, deixou larga geração que, directamente ou por aliança, ocupou a governança da ilha Graciosa durante mais de trezentos anos e da qual existem descendentes actuais.
O 2.º capitão-do-donatário Duarte Correia da Cunha teve ainda, de sua mulher D. Leonor de Melo, D. Filipa da Cunha, que foi mulher de Gonçalo Ferreira da Câmara, filho de Duarte Ferreira de Teive e de sua mulher Filipa Dornelas da Câmara, com geração na ilha Terceira, e Tristão da Cunha que abandonou a ilha Graciosa e, segundo a tradição, se fez lavrador no Algarve s.m.n.. Manuel Lamas
