Mazagão
A relação que se desenvolveu entre o arquipélago dos Açores e a praça de Mazagão só pode ser entendida no contexto das ligações tecidas entre as ilhas e *Marrocos e da necessidade de aprovisionamento regular das praças portuguesas. Desde finais do século XV que os Açores se afirmaram como um importante mercado abastecedor das praças no Norte de África e, ao longo da primeira metade de Quinhentos, Mazagão, cuja primitiva fortaleza foi edificada em 1514, esteve entre os principais destinos do trigo açoriano. Com a política de abandono das posições conquistadas no Norte de África (1541 e 1549-1550), os Açores perderam diversos centros consumidores, mas, até à Restauração, Ceuta, Tânger e Mazagão permaneceram como centros consumidores do cereal açoriano. Em 1640, Ceuta e, em 1661, Tânger deixaram de pertencer a Portugal. Deste modo, até ao seu abandono, em 1769, a praça de Mazagão manteve-se como o último bastião português no litoral marroquino. Durante os cem anos finais da presença portuguesa em Mazagão, foi sobretudo com trigo, milho e feijão de S. Miguel que os seus moradores e soldados se alimentaram. A rota que unia a fortaleza aos Açores e, sobretudo, à ilha de S. Miguel não era comercialmente atractiva para os produtores e homens de negócio das ilhas, pelo que a monarquia actuou sempre no sentido de garantir que o abastecimento não fosse interrompido, recordando às autoridades locais as suas obrigações e definindo os parâmetros de aquisição e de exportação do cereal. Esta preocupação era ainda visível à data da criação da Capitania-Geral (1766), sendo somente interrompida com a saída portuguesa de Mazagão (Rodrigues, 2003, I: 144-146). José Damião Rodrigues
Bibl. Mauro, F. (1983 [1960]), Le Portugal, le Brésil et l'Atlantique au XVIIe Siècle, 1570-1670. Étude Économique. 2.ª ed., Paris, Fundação Calouste Gulbenkian, Centre Culturel Portugais. Ricard, R. (1955a), Les places portugaises du Maroc et le commerce dAndalousie. In Études sur lHistoire des Portugais au Maroc. Coimbra, Acta Universitatis Conimbrigensis: 143-175. Id. (1955b), Les places luso-marocaines et les îles portugaises de lAtlantique. In Études sur lHistoire des Portugais au Maroc. Coimbra, Acta Universitatis Conimbrigensis: 311-324. Rodrigues, J. D. (1993), Os Açores e a Expansão: Bens e gentes no espaço colonial português (Séculos XV-XVIII). Insulana, XLIX: 147-181. Id. (2003), São Miguel no século XVIII: casa, elites e poder. Ponta Delgada, Instituto Cultural de Ponta Delgada, I.
