Matos
Da ilha de S. Jorge. Povoadas há mais de dezassete gerações as ilhas dos Açores podem ter assistido, e muito provavelmente assistiram, à fixação em diferentes épocas de vários indivíduos que usariam o apelido Matos, relativamente comum no continente. Ocupamo-nos somente daqueles que ficaram conhecidos por Matos da Silveira, não apenas porque se trata dos mais antigos de que tenho conhecimento, como pelo facto de que, durante algumas gerações, protagonizaram um papel de relevo nas jurisdições do Topo, Ribeira Seca e Calheta, na ilha de S. Jorge, e terem vindo a dispersar-se pelas ilhas contíguas e, pelo menos, pelo Brasil, onde se documentam descendentes actuais.
O tronco dos deste apelido na ilha de S. Jorge foi o escudeiro João Pires de Matos, tabelião do público judicial da Vila Nova do Topo, onde se terá fixado nos começos do século XVI. Aí casou com Ana da Silveira (e não Maria da Silveira, como referiram alguns genealogistas), terceira filha do povoador flamengo Wilhelm Van der Hagen, (Guilherme da Silveira, de seu nome indigenado, personagem relativamente conhecida, e tronco dos Silveira das ilhas dos Açores, que veio a povoar o Topo de S. Jorge com mulher e filhos).
O tabelião João Pires de Matos testou em 30 de Abril de 1518, sofrendo de lepra, e fundou uma ermida sob a invocação de S. Lázaro, padroeiro dos gafos, onde terá sido sepultado. Na sua última vontade, como era usual na época, deixou minuciosas instruções sobre as rendas, o acabamento, alfaias (entre outras indicações estipulava a aquisição de um cálix com o peso de 2 marcos de prata) e culto litúrgico nessa ermida. Nesse testamento constam igualmente instruções sobre a confecção e distribuição de roupas aos pobres que acompanhassem o seu préstito fúnebre, e sobre o financiamento de uma romagem a Santiago de Compostela que, em seu nome e intenção, efectuaria um tal Álvaro Esteves.
Ana da Silveira, sua mulher, que seria seguramente mais nova, fez o seu testamento em 14 de Agosto de 1545. Deste casal descendem os Matos da Silveira (ou Silveira de Matos, como também se documentam), cujo estudo tem sido dificultado porque se os testamentos nos fornecem os nomes dos filhos do casal, as fontes são praticamente omissas em relação aos netos, e os escassos marcos biográficos conhecidos dos seus descendentes apresentam, entre outras, dificuldades de cronologia.
Os genealogistas atribuem-lhes, como filho primogénito, um Diogo de Matos que terá nascido no primeiro decénio de Quinhentos no Topo, ilha de S. Jorge, onde se documenta como juiz ordinário entre 1559 e 1560, e pagava 60 reais de finta concelhia. Os genealogistas dão-lhe por mulher uma Ana de Souto Maior (falecida depois de 1597), filha de Miguel da Silveira e Ávila e de sua mulher, também chamada Ana de Souto Maior. Esta última senhora seria filha de um Baltazar da Cunha, graciosence e fidalgo da Casa Real, e de Adriana de Souto Maior.
Os dados referentes à mulher de Diogo de Matos, adiantados pela genealogia parecem-me globalmente inexactos, embora contenham nomes que as fontes confirmam. Desde logo, embora sejam relativamente conhecidas as primeiras gerações de extracção fidalga da ilha Graciosa, nunca encontrei referido este Baltazar da Cunha, alegado filho de um omisso Nuno da Cunha, nem ele consta como fidalgo da Casa Real nos livros de moradias e listas de moradores com este foro respeitantes ao período em apreço que tive ensejo de consultar. Também não encontrei nas fontes credíveis que se referem à bem conhecida linhagem dos Ávila Bettencourt menção deste Miguel da Silveira e Ávila, casado com uma Adriana do Souto Maior (alegadamente saída do confuso tronco dos Teixeira jorgenses) que possam ter vivido no primeiro quartel do século XVI. Limito-me pois a repetir o que referem os genealogistas.
A título de mera tentativa, não fundamentada documentalmente, de reconstituição e ordenamento das primeiras gerações destes Matos da Silveira admito que, deste primeiro Diogo de Matos, pudesse ter sido filho um outro Diogo de Matos, segundo do nome, que se documenta em 1560 como vendedor de 300 alqueires de trigo. Ignoro se este Diogo de Matos o moço terá sido o progenitor dos Matos Mendes do Topo, onde se encontram outros Diogo de Matos Mendes, mas é dado como tendo sido pai de um João de Matos da Silveira, nascido em meados do século XVI, que foi foreiro de um foro de 4,5 alqueires de trigo instituído por (sua mãe?) Ana de Souto Maior, e casou antes de 1579 com Luzia Dias. Este casal deixou a seus herdeiros a obrigação de erigirem a ermida de S. João.
De João de Matos da Silveira e sua mulher Luzia Dias nasceu Ana de Matos da Silveira, segunda mulher de Francisco da Silveira e Ávila, primeiro sargento-mor da vila do Topo desde, pelo menos, 1618. A descendência deste casal tem sido estudada pelos investigadores que se vêem ocupando nobiliarquicamente da linhagem dos Silveiras, mas registaremos entre os seus filhos Pedro da Silveira, casado no Topo em 11 de Junho de 1645 com Maria João, filha de João Quadrado e de sua mulher Catarina Marques; Luzia da Silveira, que casou no mesmo Topo em 24 de Novembro de 1654 com João Luís de Valença, filho do capitão Miguel Afonso de Valença e de sua mulher Isabel Nunes Pereira, da Ribeira Seca, com geração conhecida; e o capitão António da Silveira Vila Lobos, que também casou no Topo, em 7 de Novembro de 1655 com sua prima 3ª e 4ª Catarina da Silveira Vila Lobos, filha de João Teixeira Brasil e de sua mulher Barbara da Silveira Gato, com geração conhecida; o padre Diogo de Matos da Silveira, nascido cerca de 1580, foi proprietário em toda a zona oriental da ilha de S. Jorge, sendo auxiliado na administração da sua considerável casa por um criado chamado Francisco Lobão. Em 1661 doou grande parte dos seus bens para a fundação do convento de S. Francisco no Topo de que foi padroeiro, testou em 27 de Setembro de 1664 e faleceu em 1 de Junho de 1667. Registe-se que no testamento deste padre Digo de Matos é referida uma irmã, religiosa, Vitória da Cruz, que professou no convento de S. Gonçalo de Angra e herdou certos foros da Fajã de S. João. A última das filhas de João de Matos da Silveira e Luzia Dias chamou-se Maria da Cunha e casou, no Topo, com João Dias de Águeda, falecido a 28 de Fevereiro de 1646, no mesmo Topo, sendo instituidores do vínculo da Fajã dos Cubres, com geração na governança do concelho
Admito que dos imediatamente antecedentes pudessem ter sido irmãs (ou primas como irmãs) Maria da Silveira, falecida no Topo em 16 de Janeiro de 1657 e mencionada no óbito como mulher de Francisco Lopes (personagem que ainda não se encontra diferenciada de um possível homónimo contemporâneo, sendo que um deles ou o mesmo têm filhos que usaram os apelidos Matos da Silveira), e Águeda de Matos que casou pela primeira vez (no Topo?) com António Álvares, e pela segunda, na mesma vila, em 28 de Janeiro de 1636, com Paulo Ferreira, filho de João Ferreira e de sua mulher Catarina André, da Ribeira Seca, sendo testemunha João Teixeira Brasil, marido de sua prima Barbara da Silveira Gato, com geração até à actualidade que tem vindo a ser estudada.
Os genealogistas referem como segundo filho do escudeiro e tabelião João Pires de Matos um Jordão de Matos, mencionado no Topo por ocasião da finta concelhia de 1560 que pode ter tido descendência uma vez que Jordão se veio a converter num apelido relativamente frequente na vila do Topo. A irmã primogénita deste último chamou-se Druciana de Matos, mas dela não ficou mais notícia. Nasceu depois uma Maria de Matos que, em 1560, pagou vinte reais de finta concelhia e, logo após uma Ana da Silveira que também não documentei em fontes primárias.
O terceiro filho do tabelião João Pires de Matos, Manuel de Matos, (que no seu testamento é expressamente referido como sobrinho de Ana da Silveira e tio de Tomé da Silveira) foi um abastado terratenente, à escala do Topo, e pagou a segunda maior finta do concelho, no valor de 140 reais. Em 1560 tinha para venda 120 alqueires de trigo. Parece ter passado à vila das Velas, onde possivelmente terá casado, e em cuja matriz recebeu sepultura. Foi pai de Manuel de Matos da Silveira, casado nas Velas com Maria Gonçalves Machado, filha de Paulo Gomes Leal, ouvidor-geral na ilha de S. Jorge, capitão-mor e juiz ordinário (1609, 1621 e 1628). Este Manuel de Matos da Silveira testou nas Velas em 24 de Outubro de 1632 e morreu em 5 de Novembro de 1632, com geração.
De Manuel de Matos, terceiro filho do genearca João Pires de Matos, terá nascido Maria da Silveira, mulher de Diogo Vaz Salgado, vereador no Topo em 1643, filho de António Vaz Salgado e de sua mulher Maria Marques, lavradores no Topo, e julgo que neto de outro Diogo Vaz Salgado que em 1617 era juiz ordinário no Topo. António Vaz Salgado e a mulher doaram em 1634 a seu neto Tomé da Silveira (acima referido como sobrinho de Manuel de Matos) um moio de renda e 300.000 reis, com a condição de entrar no estado clerical e celebrar missa nova por suas almas. Dois anos antes o mesmo casal tinha instituído na confraria do Santíssimo Sacramento do Topo um foro de que foi foreiro seu filho Diogo Vaz Salgado, com geração.
Existem nos primeiros paroquiais do Topo outros antigos Matos que consegui entroncar. O apelido deve ter-se espalhado rapidamente às ilhas vizinhas, já disseminado entre todos os estamentos sociais, uma vez que, por exemplo, em S. Roque do Pico se documentam, entre outros igualmente não estudados, uma Apolónia de Matos, provavelmente aí casada com Roque Dias, pais de Agueda (baptizada a 1 de Setembro de 1609) e de António (baptizado em 3 de Maio de 1612); e depois uma Catarina de Matos, casada com Diogo Luís, sapateiro, pais de Matias de Matos, casado nessa freguesia em 3 de Outubro de 1644 com Luísa Ferreira; ou, ainda mais antigo, um Francisco de Matos, casado com Margarida Rodrigues, pais de António, baptizado em S. Roque em 8 de Abril de 1598. O mesmo sucede no Faial e na Terceira onde se encontram outros Matos da Silveira que não foram ainda individualizados. Manuel Lamas
