Massachussets (relações com)
A descoberta e o povoamento dos Açores significaram o começo da execução de um reflectido plano de expansão atlântica, que permitiu, através do esforço português, a ligação da América com o velho Mundo. Segundo Jaime Cortesão, Diogo de Teive teria encontrado, em 1452, a Terra Nova e só no regresso descobriria as Flores. Pellfrey refere-se à, provável, viajem efectuada por João Vaz Côrte-Real, em 1643, à Terra Nova e à passagem pela costa da Nova Inglaterra de Gaspar Côrte-Real, em 1500-1501 (Palfrey, 1890, 1: 60).
Em 1624, Roger Conant, devido a desinteligências religiosas, afastou-se de New Plymouth e desembarcou em Cap Ann, onde encontrou alguns pescadores ocupados na conservação de peixe que forneciam a embarcações espanholas e portuguesas que por ali passavam (Winthrop, 1853, 1: 100). Segundo Winthrop (1853) o primeiro inglês a percorrer a costa norte, que depois foi a de Massashussets, foi John Smith que se dedicou à secagem de peixe, que enviava para a Inglaterra, Espanha e Portugal. Segundo Morrisson (1961): «a história marítima de Massachussets iniciou-se quando alguns bascos, normandos ou Portingale, desconhecidos, eram desviados dos Grandes Bancos pelos ventos fortes de Leste e encontravam abrigo a sotavento de Cap Cod ou de Cap Ann».
Com a guerra com a Inglaterra e a crise de 1641 a nova colónia de Massachussets Bay, fundada em 1628, virou-se para o mar e começou a exportar peixe salgado para vários países, nomeadamente para os Açores, e já em 1714 o comércio dos portos da Nova Inglaterra e em especial de Boston para as Índias Ocidentais, Açores e Continente Europeu era maior do que o comércio costeiro americano mais o comércio para a Inglaterra. A actividade comercial com o Brasil fazia-se via Açores e Madeira. Thomas Amory deslocou-se para Boston em 1720, depois de ter vivido na ilha Terceira, durante cerca de 20 anos e foi, para além de comerciante, vice-cônsul da Inglaterra e da Holanda. Por essa altura o navio Trial, de 200 toneladas, e um dos primeiros a serem construídos em Boston, esteve nos Açores, descarregando «aduelas e peixe e carregando vinho e açúcar» (Afonso, 1981). Em 1769, Thomas Hickling nascido em Boston e descendente de uma importante família ligada à fundação da Massashussets Bay Colony, veio para S. Miguel, onde veio a ser vice-cônsul dos Estados Unidos da América e um importante comerciante.
Thomas Hickling, cunhado de um filho de Thomas Amory, não desconhecia a posição geográfica dos Açores e o papel que o arquipélago podia desempenhar como entreposto comercial com a Europa e o Brasil. Os vinhos da Madeira e dos Açores eram consumidos na Nova Inglaterra, de onde era exportado o rum que chegava aos Açores e era empregue para fortalecer os vinhos do Pico e da Madeira que seguiam, depois, para a América do Norte, onde eram consumidos 213.201 galões.
As restrições impostas pela Inglaterra às colónias americanas, que aumentaram a partir de 1764, obrigavam a que os produtos, como o sal e os vinhos dos Açores, fossem importados da Inglaterra, ficando, caso contrário, sujeitos a elevados impostos cobrados pelo Tesouro Inglês. Em 1768, essa taxa era de 7 libras por tonelada, enquanto que o mesmo vinho importado da Inglaterra, pagava somente 10 shelings. Na Carolina do Sul estes impostos ainda eram mais elevados, pois às 7 libras juntava-se mais 8 do imposto da colónia, o que levava a um intenso e lucrativo contrabando (Weeden, 1963).
Depois da independência houve uma explosão no crescimento do comércio marítimo americano; segundo Morrison (1961: 180): «não havia na Europa nenhum porto, desde Arcângel até Trieste, onde o comércio não estivesse presente com alguma coisa para vender. Supercagoes fundaram casas comerciais nos portos estrangeiros, Thomas Hickling foi residir para os Açores, a seguir a 1969». Em 1804, durante as guerras napoleónicas, o porto de Hamburgo foi encerrado aos navios americanos, mas os carregamentos continuaram a seguir para Massachussets através de outros portos, nomeadamente da Madeira e dos Açores.
O embargo decretado por Jefferson (1807-1809) impedia qualquer navio americano de sair dos E. U. A. para o estrangeiro, proibindo também a importação de mercadorias da Inglaterra. Esta medida, muito impopular, principalmente na nova Inglaterra, originou um imenso contrabando feito através das costas da Florida e do Canadá: «muita mercadoria de contrabando era passada entre New Brunswick e a Florida e parte da frota saia de Massachussets com papéis portugueses». Pittkin refere (Pitkin, 1816: 217) que durante os períodos de embargo foram carregados para a Madeira e para os Açores vários artigos, especialmente algodão, que depois eram enviados para a Inglaterra e outras partes da Europa. Em 1809 o valor destes foi de 2.336.656 dollars, para a Madeira, e de 2.926.482 para os Açores. «Depois de ter terminado o embargo, a ausência de comércio com a Grã-Bretanha manteve-se ainda durante três meses, mas isso não impediu a abertura do mesmo com o Oriente, Índias Ocidentais, Báltico, América do Sul e Mediterrâneo. Fizeram-se fortunas com o abastecimento à Armada Inglesa durante a Guerra Peninsular. A ilha do Faial, nos Açores, onde era cônsul o mercador Johon B. Dabney, de Boston, tornou-se num novo St. Estatius, ligando as Nações proibidas de comerciar entre si.» (Morrison, 1961: 193).
Durante a «Guerra da Independência» Thomas Hickling era o único americano a residir nos Açores (S. Miguel) o que o levou a requerer ao juiz de fora que o nomeasse representante dos interesses americanos: «nomeio o suplicante por cônsul nesta ilha dos Estados e Províncias Unidas da América Inglesa, visto não haver outro nomeado e concorrerem no suplicante todas as circunstâncias para o desempenho dos deveres anexos ao cargo que pretende
». Depois do reconhecimento da independência por Portugal, Hickling escreveu ao Congresso a pedir o cargo de cônsul para os Açores, mas, por razões conhecidas (ver Rodrigues, 1992: 13-43), foi nomeado John Street, do Faial, sendo Hickling nomeado vice-cônsul em S. Miguel, cargo que desempenhou gratuitamente até morrer em Ponta Delgada em 1834. Em 1807, John Street foi substituído por John Bass Dabney, cuja família se manteve no Faial durante cerca de 90 anos e que, embora não tivesse tido laços familiares com açorianos, como sucedeu com a família Hickling, exerceu enorme influência económica e social na vida faialense (ver Dabney, 2005).
A emigração dos açorianos para Massachussets, que se iniciou ainda na primeira metade do século XIX, foi aumentando progressivamente ao longo de todo esse século e manteve-se elevada até finais dos anos sessenta do século XX. Actualmente vivem nesse Estado cerca de 3.000.000 de açorianos e seus descendentes, e cidades, como Fall-River e New-Bedford, têm uma população maioritariamente de origem açoriana. Uma grande parte dos residentes nas ilhas visita regularmente os seus parentes em Massachussets e um número significativo de jovens açorianos frequentaram, principalmente nos anos setenta do século XX, as universidades de Massachussets. Por tudo isto, é notória a influência económica, social e cultural, exercida por essa diáspora na vida da população da Região Autónoma dos Açores. Henrique de Aguiar Rodrigues
Bibl. Pitkin, T. (1816), A estatistical view of the comunity of the
