Marrocos, relações com

As relações do arquipélago dos Açores com Marrocos devem ser perspectivadas a partir da posição geográfica das ilhas no quadro do Mediterrâneo Atlântico, da exploração económica das mesmas e da circulação de mercadorias e pessoas entre os Açores e o Norte de África. Ao nível das rotas, por uma questão de proximidade, mas também — e sobretudo — por uma questão de complementaridade económica, a rota preferencial entre o arquipélago e o continente africano foi aquela que, desde o século XV e até ao abandono de Mazagão (1769), ligou as ilhas açorianas às praças norte-africanas do Marrocos Atlântico. Com efeito, já em 1488, perante o declínio da Madeira como centro produtor de cereais, D. João II ordenava a compra de 1.200 moios de trigo nos Açores, para serem enviados para o Norte de África. No século XVI, o cereal enviado do arquipélago teve como principais destinos as praças do Sul de Marrocos (Safim, Azamor, Mazagão, Santa Cruz do Cabo de Gué) e as fontes publicadas ou já estudadas atestam a importância e a regularidade da exportação de trigo açoriano com destino às cidades luso-marroquinas. Entre outros exemplos possíveis, assinalemos o fornecimento de cereal a Alcácer Ceguer, Azamor, Safim e Santa Cruz do Cabo de Gué em 1523, 1538, 1540 e 1547. No caso de Santa Cruz do Cabo de Gué, em 1523, a praça foi abastecida com cereal da Terceira e, em 1538, esta ilha enviou 105 moios de trigo para Azamor, 70 para Mazagão, 403 para Safim e 195 novamente para Santa Cruz do Cabo de Gué (Figanier, 1945: 129-130, 278-279, nota 63; Ricard, 1951: 237-238; Id., 1955a: 171; Id., 1955b: 313) A compra e o transporte do cereal destinado às praças de Marrocos estavam nas mãos de contratadores, que gozavam da protecção régia e que se faziam representar nas ilhas por procuradores. A política de abandono das posições conquistadas no Norte de África, nos anos de 1541 e 1549­-1550, face à ofensiva dos Xerifes e aos pesados encargos para a coroa portuguesa, significou a perda de um mercado importante para a produção frumentária insular, mas, até à Restauração, Ceuta, Tânger e Mazagão permaneceram como centros consumidores do cereal açoriano. Após 1640, Ceuta ficou sob o domínio espanhol e, em 1661, Tânger entrou no dote de casamento da infanta D. Catarina de Bragança com Carlos II de Inglaterra. Deste modo, Mazagão manteve-se como o único destino norte­-africano para o trigo dos Açores até 1769, data do seu abandono. Durante os cem anos finais da presença portuguesa em Marrocos, foi sobretudo com trigo, milho e feijão de S. Miguel que os moradores e soldados da inexpugnável fortaleza se alimentaram. Esta rota não era comercialmente atractiva para os produtores e homens de negócio das ilhas, pelo que a monarquia actuou sempre no sentido de garantir que o abastecimento não fosse interrompido, recordando às autoridades locais as suas obrigações e definindo os parâmetros de aquisição e de exportação do cereal. Esta preocupação era ainda visível à data da criação da Capitania-Geral (1766), sendo somente interrompida com a saída portuguesa de Mazagão (Rodrigues, 2003, I: 144-146). Em paralelo com o fluxo de bens, também as gentes circulavam entre as ilhas e o Norte de África. De Marrocos para os Açores, principalmente durante a primeira metade de Quinhentos, seguiram escravos. Este circuito comercial não está bem estudado, mas parece certo que, paralelamente à presença de açorianos e, em particular, de elementos das nobrezas locais, nas praças norte-africanas, a aquisição de escravos naturais do Magrebe foi um facto. Em certos períodos, terá mesmo havido um afluxo acima da média. Assim sucedeu, por exemplo, aquando da grande fome e da subsequente epidemia que grassou em Marrocos em 1521-1522. Gaspar Frutuoso (1981, II: 337-338) relata que o capitão de S. Miguel e os cavaleiros que com ele tinham servido levaram consigo muitos escravos mouros, havendo ainda outras pessoas a fazê-lo. Nas palavras do cronista, não havia quem fosse a Marrocos que não comprasse escravos, consoante a sua fazenda. De igual modo, desde finais de Quatrocentos que encontramos açorianos nas praças luso-marroquinas, nobres e plebeus, degredados e homens livres. Um dos mais conhecidos foi Pêro Anes do Canto, que, tendo chegado aos Açores por volta de 1505, participou na aventura marroquina como meio de promoção social, tendo estado em Arzila, em 1509, e em Ceuta, de Dezembro de 1509 a Maio de 1510, e participado na conquista de Azamor, em 1513 (Gregório, 2001: 61-63). Após esta data, embora se tenha dedicado ao mercado da terra, enquanto mercador, manteve as ligações a Marrocos, abastecendo de trigo as praças de Ceuta e de Tânger. Mas, além de Pêro Anes do Canto, os documentos publicados permitem-nos conhecer os nomes de outros homens, naturais das ilhas de S. Miguel, Terceira, Graciosa e Santa Maria, que participaram na tomada de Azamor ou que prestaram serviço em praças como Safim e Mazagão, durante os reinados de D. Manuel e D. João III, tendo alguns deles sido armados cavaleiros (Arquivo dos Açores, 1981, IV: 124-142). Em meados do século XVI, merece referência o capitão de S. Miguel, Manuel da Câmara, que, em 1540­-1541, defendeu heroicamente Santa Cruz do Cabo de Gué, cercada pelo Xerife, sendo capturado e mantido em cativeiro durante ano e meio. Depois de ser resgatado, o que lhe custou 20.000 cruzados e dois escravos, foi largamente recompensado por D. João III, destacando­-se a doação do dízimo dos pescados de S. Miguel, a dada dos ofícios de Ponta Delgada e ainda a mercê de dezasseis moios de terra de semeadura (Frutuoso, 1981, II: 355-356; Ricard, 1951: 191-195; Figanier, 1945: 297-298). José Damião Rodrigues

Bibl. Arquivo dos Açores (1981). Reprodução fac-similada da edição original, Ponta Delgada, Universidade dos Açores, IV. Figanier, J. (1945), História de Santa Cruz do Cabo de Gué (Agadir), 1505-1541. Lisboa, Agência Geral das Colónias. Frutuoso, G. (1977-1987), Livro Quarto das Saudades da Terra. 2.ª ed., Ponta Delgada, Instituto Cultural de Ponta Delgada, 3 vols.. Gregório, R. D. (2001), Pero Anes do Canto: Um homem e um património (1473-1556). Ponta Delgada, Instituto Cultural de Ponta Delgada. Mauro, F. (1983 [1960]), Le Portugal, le Brésil et l'Atlantique au XVIIe Siècle, 1570-1670. Étude Économique. 2.ª ed., Paris, Fundação Calouste Gulbenkian, Centre Culturel Portugais. Ricard, R. (1951), Les Sources Inédites de l’Histoire du Maroc. Première Série — Dynastie Sa’dienne. Archives et Bibliothèques de Portugal, Tome IV (janvier 1542-décembre 1550). Paris, Paul Geuthner. Id. (1955a), Les places portugaises du Maroc et le commerce d’Andalousie. In Études sur l’Histoire des Portugais au Maroc. Coimbra, Acta Universitatis Conimbrigensis: 143-175. Id. (1955b), Les places luso-marocaines et les îles portugaises de l’Atlantique. In Études sur l’Histoire des Portugais au Maroc. Coimbra, Acta Universitatis Conimbrigensis: 311-324. Rodrigues, J. D. (1993), Os Açores e a Expansão: Bens e gentes no espaço colonial português (Séculos XV-XVIII). Insulana, XLIX: 147-181. Id. (2003), São Miguel no século XVIII: casa, elites e poder. Ponta Delgada, Instituto Cultural de Ponta Delgada, I. Rodrigues, J. D. e Martins, R. C. (1995), A construção de um espaço: os Açores e o olhar do poder central. In Actas do Colóquio O Faial e a Periferia Açoriana nos Séculos XV a XIX. Horta, Núcleo Cultural da Horta: 75-83.