Marinho, Joaquim Pereira
[N. Porto, 1782 m. Lisboa, 3.1.1854] Assentou praça a 5 de Fevereiro de 1802 no Regimento de Artilharia do Porto, bacharel em Matemática pela Universidade de Coimbra (1806) e no ano seguinte professor de matemática na Brigada Real da Marinha. Em 1808 era porta-bandeira e lente da Academia Real da Guarda Marinha no Rio de Janeiro, tendo acompanhado D. João VI quando este se deslocou para o Brasil em 1807. Foi promovido a 1.º tenente do Real Corpo de Engenheiros, em 1809, e a capitão do mesmo com graduação de major, para servir de ajudante de ordens do capitão-general do Maranhão (1809-1813). Passou ao Estado da Índia com o posto de tenente-coronel e como lente do Regimento de Artilharia de Goa (1816-1823). Em Goa foi preso por abuso de poder, mas fora ele um dos que proclamou o liberalismo naquela cidade, em 17 de Setembro de 1821. Na sequência destes factos esteve no Brasil e emigrou em 1828 para Inglaterra vindo depois para a ilha Terceira onde desembarcou a 16 de Março de 1829. A regência por decreto de 10 de Maio de 1830 anulou os efeitos da sentença proferida contra ele quando esteve em Goa e assim manteve-se ao serviço.
Por portaria do ministro da guerra de 25 de Abril de 1832 foi nomeado governador do Castelo de S. João Baptista, não tendo acompanhado o Exército Libertador. A sua acção no cargo foi deveras turbulenta, pois formava com outros liberais esquerdistas, entre eles Teotónio Ornelas Bruges, uma barraca da Carbonária, que pretendia lutar contra as autoridades instituídas pelo governo dos amigos de D. Pedro. Denunciou o envolvimento do governador de armas dos Açores, o brigadeiro João de Vasconcelos e Sá, numa conjura restauracionista em Angra e de cometer arbitrariedades, o que teria estado na base da demissão deste oficial general, mas não sem antes ter demitido de governador do Castelo Pereira Marinho (30.7.1832).
Em Agosto seguinte, no posto de coronel graduado (6.8.1832) foi mandado em comissão inspeccionar a artilharia da ilha do Faial no que se entendeu ser um afastamento político. Naquela ilha foi nomeado coronel da legião de voluntários encarregado de os disciplinar e exercitar, o que levou a cabo com excessivo zelo e muitos protestos. Na Horta fundou também a primeira barraca da Carbonária.
Regressou à Terceira, em 2 de Dezembro de 1832, e em Janeiro seguinte foi mandado para S. Miguel de novo em comissão, como comandante-geral de artilharia dos Açores, para fazer uma doca, recrutar um corpo de infantaria e discipliná-los e levantar as guardas nacionais. Chegou a S. Miguel no período agitado que antecedeu a revolta contra a prefeitura e isso impossibilitou a sua missão, tendo mesmo sido acusado de instigador dessa revolta, o que parece excessivo.
Voltou então à Terceira, mas não chegou sequer a desembarcar e foi mandado para o Porto, praticamente sob prisão. Acabava assim a sua acção nos Açores que os vários biógrafos não tiveram em consideração.
Em Julho de 1833, coronel efectivo (25.7.1833) foi enviado numa expedição às Berlengas, conquistando a praça de Peniche, que governou entre Julho e Agosto. Em 10 de Novembro de 1833 foi nomeado governador da praça de Cascais e em 9 de Dezembro de 1834 governador militar de Angola e no ano seguinte governador de Cabo Verde, que governou por duas vezes (1834-1836 e 1837-1839), sempre envolvendo uma grande polémica e graves acusações. Em 1839 foi transferido para Moçambique onde também foi acusado de irregularidades e demitido em 1840, mas julgado em conselho de guerra foi absolvido.
Regressou ao reino onde governou de novo a praça de Peniche.
Deixou vários escritos em sua defesa, mas nenhum deles se refere à sua acção nos Açores.
Foi do Conselho de Sua Majestade Fidelíssima, comendador da Ordem de Cristo, cavaleiro de S. Bento de Avis e reformado no posto de marechal de campo.
Foi o chefe da Carbonária em Portugal a partir de 1841. J. G. Reis Leite
Fontes. Arquivo Histórico Militar (Lisboa), cxs. 339, 630, 682, 756.
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