Marecos, Fernão de Pina
[N. ?, ? m. Lisboa, ?] Desembargador da Casa da Suplicação, corregedor dos Açores, vereador e provedor-mor da saúde da cidade de Lisboa, Fernão de Pina Marecos foi, segundo Gaspar Frutuoso (1978: 95), «digno de perpétua memória». Era filho de Nicolau de Pina e de Branca Anes Marecos, ambos de ascendência estrangeira. Casou com Maior (ou Mor) de Faria, de quem teve descendência. Pelo alvará de 15 de Setembro de 1570, foi nomeado e recebeu a alçada de corregedor dos Açores, nomeação que posteriormente remeteu às câmaras das ilhas para conhecimento. A título de exemplo, refiramos que, em Velas, na ilha de S. Jorge, a apresentação da provisão do corregedor teve lugar a 28 de Outubro de 1570, procedendo-se à sua publicação no dia seguinte. A 18 de Novembro de 1570 e não 1569, como erradamente sugere Frei Diogo das Chagas (1989: 256) , o Doutor Fernão de Pina Marecos participou na cerimónia do lançamento da primeira pedra da nova Sé de Angra (Drummond, 1981, I: 158, 643) e, durante o ano de 1571, exerceu a sua alçada de corregedor circulando pelas ilhas do grupo central: a 1 de Maio, estava na Graciosa e, a 2 de Junho, efectuou a eleição dos oficiais das ordenanças em Velas, estando já de volta a Angra em finais de Julho (Vereações de Velas (S. Jorge): 392-395, 438-439, 444-447). Em S. Jorge, o magistrado tomou ainda residência ao ouvidor do capitão e examinou as obras das fortificações, inspecção que fez também no Faial. O cuidado posto na supervisão das benfeitorias a cargo das câmaras e a preocupação com os povos levou-o a mandar reparar o bocal de um poço de boa água, na Praia do Almoxarife, facto que mereceu ser registado por Gaspar Frutuoso (1978: 264). Durante a sua permanência nas ilhas açorianas, o Doutor Fernão de Pina Marecos manifestou sempre uma grande curiosidade na exploração dos caminhos e veredas e buscou inteirar-se da geografia islenha. Deste modo, em S. Jorge, «não ficou monte em toda aquela ilha que não corresse, tão desenvolto e curioso era» (Frutuoso, 1978: 241). E, no Pico, não hesitou em subir ao topo da montanha e, uma vez lá chegado, em subir aos ombros de um homem, ficando assim «mais alto que o pico» (Frutuoso, 1978: 298). Sobre a sua actuação nos Açores no exercício da sua jurisdição, escreveu o sempre exigente Francisco Ferreira Drummond (1981, I: 157): «Procedeu maravilhosamente no desempenho das funcções de seu importante cargo, como tenho achado em varias partes, onde proveu conhecendo por appellação e aggravo». De regresso ao reino, o desembargador foi um dos que se opôs à jornada africana de D. Sebastião, o que causou o desagrado do rei e o seu recolhimento à região de Tomar, onde possuía um morgadio. Após o desatre de Alcácer Quibir, foi restituído nas dignidades que havia perdido. Em 1579, D. Henrique nomeou-o procurador do reino e foi igualmente escolhido para integrar o conjunto de letrados que deviam julgar a causa da sucessão. Pela sua fidelidade, o cardeal-rei nomeou-o ainda para os ofícios de vereador e de provedor-mor da saúde da cidade de Lisboa (Velloso, 1946: 178-179, 214, 372). As clivagens geradas pelo problema sucessório estiveram na origem da morte de Fernão de Pina Marecos, que foi assassinado em Lisboa por um jovem, que «lhe deu uma cutilada na cabeça com um alfanje, de que faleceu, perdoando ao que o feriu e morrendo, como sempre viveu, com grande exemplo de cristandade» (Frutuoso, 1978: 96). José Damião Rodrigues
Bibl. Chagas, D. (Fr.) (1989), Espelho Cristalino em Jardim de Várias Flores. Direcção e prefácio de Artur Teodoro de Matos, colaboração de Avelino de Freitas de Meneses e Vítor Luís Gaspar Rodrigues, Angra do Heroísmo-Ponta Delgada, Secretaria Regional da Educação e Cultura/Direcção Regional dos Assuntos Culturais, Universidade dos Açores/Centro de Estudos Gaspar Frutuoso. Drummond, F. F. (1981), Anais da Ilha Terceira, reimpressão fac-similada da edição de 1850-1864, Angra do Heroísmo, Secretaria Regional da Educação e Cultura, I. Felgueiras Gayo (1989), Nobiliário das Famílias de Portugal. 2.ª ed., Braga, Carvalhos de Basto, VIII. Frutuoso, G. (1978), Livro Sexto das Saudades da Terra. 2.ª ed., Ponta Delgada, Instituto Cultural de Ponta Delgada. Pereira, A. S. (1987), A Ilha de S. Jorge (Séculos XV-XVII). Contribuição para o seu estudo. Ponta Delgada, Universidade dos Açores/Departamento de História, Filosofia e Ciências Sociais. Velloso, J. M. Q. (1946), A Perda da Independência, I: O Reinado do Cardeal D. Henrique. Lisboa, Empresa Nacional de Publicidade. Vereações de Velas (S. Jorge) (1559-1570-1571) (1984). Introdução, transcrição e notas de António dos Santos Pereira, Angra do Heroísmo-Ponta Delgada, Secretaria Regional da Educação e Cultura/Direcção Regional dos Assuntos Culturais, Universidade dos Açores/Departamento de História.
