mamíferos terrestres

Nos Açores ocorrem, regularmente, as espécies seguintes: *ouriço-cacheiro (Erinaceus europaeus); *morcego açoriano (Nyctalus azoreum); *coelho (Oryctolagus cuniculus); *comadrinha (Mustela nivalis); *furão (Mustela putoris/Mustela putoris furo/Mustela furo – ICN, 1999); *ratazana (Rattus norvegicus); *rato-de-quinta (Rattus rattus); *morganho (Mus musculus).

Quase todas as espécies de mamíferos terrestres que ocorrem nas ilhas açorianas foram introduzidas, com excepção do morcego. Ao povoar estas ilhas, o homem modificou bastante os ecossistemas naturais que aqui encontrou e, de acordo com Frutuoso (1998), introduziu sementes, plantas e animais (domésticos e selvagens).

Numa primeira fase, a introdução de seres vivos exóticos teve como objectivo assegurar a sobrevivência do homem, permitindo alguns destes criar um meio mais familiar e acolhedor nestas ilhas que, numa primeira abordagem, pareciam inóspitas. No entanto, foi necessário introduzir outros (o furão, por exemplo – Frutuoso, 1998) com o objectivo de remediar os resultados nefastos de introduções anteriores (como a do coelho). No século XVI, por exemplo, o coelho não só se alimentava da flora natural como causava grandes danos nos campos agrícolas (Frutuoso, 1971, 1998).

Os meios naturais dos Açores, designadamente a flora nativa (Laurissilva), vulgarmente designada por mato, bem como a fauna a esta associada, descaracterizaram-se bastante devido às mais variadas introduções de seres vivos, desde o século XV até aos nossos dias.

No início do século XX, Chaves (1949) foi o primeiro autor açoriano a alertar para os perigos das introduções. Com efeito, estas poderão ocasionar a extinção de seres vivos que, ao longo do tempo, desenvolveram particularidades nestas ilhas, e que, em todo o mundo, só ocorrem aqui (endémicos), como é o caso do morcego açoriano (ver *morcegos).

As três espécies de roedores que ocorrem nos Açores não são acolhidas com agrado pela população, em geral, dado que são oportunistas e podem transmitir doenças como a Leptospirose (Collares-Pereira et al., 1997). Uma vez que estes animais têm, em geral, elevadas taxas reprodutivas e dado que são atraídos por alimentos e seus derivados é necessário tomar medidas para reduzir a sua reprodução explosiva, seguindo normas de higiene e armazenamento de alimentos (quer humanos, quer animais) em recipientes herméticos.

A introdução de ratos provocou desequilíbrios nos ecossistemas açorianos e o aumento dos seus efectivos populacionais é uma das consequências desta situação. Isto tem levado ao uso mais ou menos indiscriminado de venenos, a maioria dos quais tem efeitos nocivos e permanentes na cadeia trófica, nos solos, nas águas interiores e no mar. Para além disto, estes contaminam espécies não-alvo, sendo as mais susceptíveis as predadoras do topo da cadeia alimentar que, nos Açores, são o milhafre (Buteo buteo rothschildi), o mocho (Asio otus), a comadrinha e o furão.

Os efeitos de venenos nos predadores poderão ir desde a morte, à diminuição do sucesso reprodutor (relacionada com uma série de modificações morfológicas e comportamentais que comprometem a sobrevivência destes animais). Os venenos perturbam gravemente a dinâmica populacional dos predadores, na medida que afectam os indivíduos com melhores condições físicas e com maior potencial reprodutivo.

O uso de venenos está proibido na Europa (Directiva 79/409/CEE, art. 8 da conservação das aves selvagens; Directiva 92/43/CEE, art. 15 relativo à conservação dos habitats naturais e da fauna e da flora silvestres). Em Portugal, ao abrigo das directivas citadas (Decreto-Lei 140/99 de 24 de Abril), da transposição da Convenção de Berna (Decreto-Lei n.º 316/89 de 22 de Setembro), assim como da Lei da caça (Lei 173/99 de 21 de Setembro) não é permitido o uso de qualquer substância como forma de extermínio. No entanto, quer em Portugal Continental, quer nos Açores continuam à venda os mais variados produtos tóxicos, designadamente rodenticidas, pesticidas e insecticidas. Consequentemente, há que regulamentar e fiscalizar a venda, bem como a acessibilidade e o uso destes venenos. Os últimos aspectos têm relevância especial no meio natural dos Açores por este albergar espécies e subespécies únicas de seres vivos, cujo isolamento lhes confere elevado grau de vulnerabilidade perante qualquer acção antrópica. Fátima Melo Medeiros

Bibl. Chaves, F. A. (1949), Introdução de algumas espécies zoológicas na ilha de S. Miguel depois da sua descoberta. Açoreana, 4: 325-342. Collares-Pereira, M., Mathias, M. L., Soares, S., Bacellar, F., Alves, M. J., Santos-Reis, M., Ramalhinho, M. G., Oom, M. M., Flor, L., Matos, J. E., Carvalho, G. F., Petrucci-Fonseca, F. e Filipe, A. (1997), Agentes Zoonóticos Associados aos Pequenos Mamíferos Silvestres no Arquipélago dos Açores. Açoreana, 3, 8: 339-357. Frutuoso, G. (1971), Livro terceiro das Saudades da Terra. Ponta Delgada, Instituto Cultural de Ponta Delgada. Id. (1981), Livro quarto das Saudades da Terra. Ponta Delgada, Instituto Cultural de Ponta Delgada. Id. (1998), Livro sexto das Saudades da Terra. Ponta Delgada, Instituto Cultural de Ponta Delgada. Instituto da Conservação da Natureza (1999), Guia dos Mamíferos Terrestres de Portugal Continental, Açores e Madeira. Lisboa, ICN. Speakman, J. R. e Webb, p. i. (1993), Taxonomy, status and distribution of the Azorean Bat (Nyctalus azoreum). Journal of Zoology, 231: 27-38.