Machado
Da ilha Terceira Do tronco insular deste apelido descende uma parte considerável dos terceirenses, daqueles que se radicaram nas chamadas ilhas de baixo, e certamente muitos membros da comunidade açoriana emigrada. Ao questionar as raízes continentais do casal de povoadores da ilha Terceira que deu origem aos Machado desta ilha estaremos assim a debruçar-nos sobre uma questão que, podendo interessar apenas a uns poucos, acaba por dizer respeito a muitíssima gente.
Tanto quanto alcançamos parece existir um consenso alargado sobre esta questão mas que, em boa verdade, se limita a reproduzir uma variante de uma versão tradicional, sucessivamente transmitida por gerações de genealogistas açorianos.
De acordo com a versão mais recente desta tradição, os genearcas destes Machado seriam Gonçalo Eanes da Fonseca, cavaleiro da casa do infante D. Fernando (1433-1470), natural de Lagos e um dos primeiros povoadores da ilha Terceira, aonde se passou, por volta de 1460. No dizer do genealogista terceirense do século XVI António Correia da Fonseca e Ávila, aquele Gonçalo Eanes foi casado com Mécia de Andrade Machado, filha do Dr. Pedro Machado Carregueiro, desembargador da Casa da Suplicação de Lisboa (1480), do legítimo tronco dos Machado Carregueiro.
Outros autores fazem derivar Mécia de Andrade Machado do Dr. João Machado, de Lisboa, documentado em 1502 como solicitador e procurador das capelas, hospitais e albergarias de Sintra e seu termo (Instituto dos Arquivos Nacionais/Torre do Tombo, Colegiada de S. Martinho de Sintra, maço 5, n.º 200; idem, maço 10, n.º 377), e de sua mulher Margarida Rodrigues de Brito, enquanto cronistas mais antigos, como Frei Diogo das Chagas (que terá redigido o seu Espelho Cristalino entre 1646 e 1654), e o Padre Manuel Luís Maldonado (que terá escrito a sua Fénix Angrense entre 1707 e 1709) a fazem derivar em varonia de um Gonçalo Anes Machado que referem como filho de Machados cronologicamente inaceitáveis, como o supracitado João Machado de Lisboa mais novo do que Mécia uma geração , ou Álvaro Gonçalves Machado, demasiado afastado dela no tempo. A filiação de Mécia de Andrade Machado tem sido divulgada, inclusivamente por autores continentais recentes como, por exemplo, Ferreira Sacadura (2002: 44), ou Gonçalo Nemésio, que reproduz na íntegra a ascendência Carregueiro, tal como se encontra em Gayo (1994: 152-154).
É nossa convicção que pode tratar-se de um erro muito antigo. Mas o que se deduz do contido nas fontes primárias, a respectiva cronologia e a própria lógica parecem apontar claramente para que a Mécia de Andrade Machado não fosse filha do Dr. João Machado de Lisboa, e nem sequer dos pais deste último, o desembargador Pedro Machado (Carregueiro) e de sua mulher Branca Coelho.
Muito embora julgue ter razões para crer que aquela senhora descendesse efectivamente de um outro Pedro Machado, e que esta coincidência de nomes possa ter estado na raiz desta confusão secular
Começo por reproduzir uma «cópia» manuscrita em letra do século XVIII, que se encontra no arquivo da casa da Fonte das Somas, em Benavente, que julgo extraída da justificação de nobreza que terá precedido a carta de brasão de armas que foi passada em Évora, em 20 de Novembro de 1533, ao terceirense Pedro de Barcelos Machado:
«Tronco dos Machados do reino. Tirado de hum Brazam de sua nobreza e armas (em rodapé, à margem, de 1533). Naceu em Portugal hum Álvaro (Machado, riscado) gonçalves Machado // governador das justissas em este reino este caz. com hua dama do Palácio // que o tinha sido da (ilegível). Esta atráz casada se chamava fulana de Carvalho (Carvalhosa no fólio n.º 2.) dantre os coais cazados nasceo Lianor gonçalves Machado // cazou com Ioam Steves villanova Alferes mor do Sr. Rei Dom // Ioam da Boa memória & filho de Vasco Fernandes Carreiro [sic] senhor // de mom Corbo. E deixando os muitos descendentes que tiveram estes casados Apontados em o dito Brazam farei somente // de hum que foi frade cruzio e Dom Prior de S. Vicente de // fora e dahi Byspo de Coimbra e se chamou Dom Ioam // Machado Este foi o que sendo Dom Prior de S. Vicente // Mudou os ossos da mai de S. António sua prima com irmã// por ser filha de hum irmão do sobredito progenitor Alvaro // Gonçalves Machado guarda mor do Reino. E recolheo os ossos // da dita defunta que estavam fora da Igreija guardando // os recolheo em hua capella que tinha mandado fazer Pedro // Machado que era filho de Lianor Machado e neto do // sobredito Alvaro Gonçalves Machado governador do Do Reino o // qual Pedro Machado foi do concelho dos reis Passados E // do Dezem Bargo 47 anos. Do coal Pedro Machado // Entre os filhos e filhas que tivera ouve hum aque chamaram Belchior Machado que morreu sem deixar descendência // E entre as filhas que aponta o mesmo Brazan teve // hua que se chamou Mécia de Andrade Machado que casou com Gonçalo Eanes de Lagares [sic]. O qual por outro nome // se chamava Gonçalo Eanes Dafonceca. Pais que foram // em esta ilha 3.º de Gaspar Gonçalves Machado da Ribeira Ceca // que foi em a dita ilha o primeiro progenitor dessa // descendencia dos Andrade e Machados. O coal brazan foi passado a instancia de Diogo de Baracellos // machado descendente dos ditos progenitores, passado em o anno // de 1533.»
O manuscrito em apreço, cuja fidelidade em relação ao original parece duvidosa, tem um segundo fólio no qual esta algo confusa dedução genealógica é repetida com variações que refiro adiante.
Mécia de Andrade Machado (genearca dos chamados Machado da ilha Terceira) casou com Gonçalo Eanes de Lagares (de acordo com o primeiro fólio), ou Gonçalo Eanes da Fonseca, de Lagos (como se refere no segundo fólio e se repete no supracitado Anuário, acrescentando que o mesmo era cavaleiro da casa do Infante D. Fernando).
No primeiro fólio do manuscrito supra Mécia de Andrade seria efectivamente filha de um Pedro Machado, mas no segundo já é dada como filha de um Dr. João de Lisboa Machado.
Acresce que Frei Digo das Chagas, geralmente considerado probo e informado, refere textualmente:
«Não falta quem diga que a Mécia de Andrade era a Machado, mas eu tenho visto e achado em papéis haverem-se enganado porque ele (seu marido, Gonçalo Eanes da Ribeira Seca) é de quem deriva o apelido como filho legítimo de Álvaro Gonçalves Machado, de quem procedem mui ilustres casas do reino; e os Andrades, que também são Machados, pela feminina, porquanto Mécia de Andrade foi a primeira deste apelido e assim ficam os Machado desta descendência procedendo por linha masculina e não feminina (
) Não acho em papéis antigos o nome Machado em Gonçalo Eanes porque ele sempre se chamou Gonçalo Eanes da Ribeira Seca (Chagas, 1989 [1646-1654]: 328).
As hesitações sobre a ascendência de Mécia de Andrade Machado não parecem ser de ontem, e podem remontar, pelo menos, aos finais do século XVI.
Antes do mais sublinho que Frei Diogo das Chagas incorre em anacronismo nesta passagem porquanto como veremos mais detidamente adiante um Álvaro Gonçalves Machado que se documenta já como corregedor da cidade de Lisboa em 1388, não poderia ser pai de um Gonçalo Eanes, para mais de Lagos, nascido com toda a probabilidade pouco antes de 1430
Nem aliás tenho notícia de que este último fosse mencionado como seu filho, sendo certo que uma sua filha, Leonor Alvares Machado, é genealogicamente apontada como mulher de João Esteves Carregueiro, pai do supracitado desembargador Pedro Machado.
E se Gonçalo Eanes, que sempre se chamou Gonçalo Eanes da Ribeira Seca, como assevera Diogo das Chagas, tivesse pertencido ao tronco dos Fonseca do reino porque razão a geração dos seus netos invocaria nas suas justificações de nobreza apenas a linha dos Machado (tendo recebido apenas, e somente, cartas de brasão de armas de Machado pleno), e os seus descendentes directos não usaram nunca o apelido varonil de Fonseca?
Este Gonçalo Eanes, depois de se ter estabelecido inicialmente junto da Ribeira de Frei João, fixou-se nas terras da Ribeira Seca, onde sempre terá vivido, e que foram vinculadas por seu filho primogénito, Gaspar Gonçalves da Ribeira Seca, com uma capela cujo orago era Nossa Senhora da Consolação, sob condição de que os seus administradores usassem sempre como apelido o chamadouro de Ribeira Seca, em memória de seu pai Gonçalo Eanes (sem mais apelidos).
Esta é, pelo menos, a versão pacificamente aceite, e sucessivamente retomada pelos genealógicos terceirenses, dado que não a encontrei registada em fontes primárias.
Sucede que o chamadouro Ribeira Seca, que assim se pretendia converter em apelido, acabou por se não fixar de modo generalizado na sua descendência, que lhe preferiu o apelido Machado, como se comprova tanto em fontes manuscritas como impressas.
Admito, e sugiro, que o apelido Fonseca atribuído por genealogistas posteriores ao Gonçalo Eanes, da Ribeira Seca, possa ter nascido de um erro paleográfico certamente antigo pelo qual se terá confundido a abreviatura R.ª Seca, eventualmente «confirmado» pelos apelidos usados pelos descendentes de Diogo Gonçalves (Machado) Ribeira Seca que, efectivamente, terá casado com uma Catarina da Fonseca.
Mas, se este «erro de leitura» existiu realmente, acabou por ser «reconhecido» em sede própria, uma vez que foram passadas a descendentes de Gonçalo Eanes cartas de brasão de armas que incluíam um quartel com as armas dos Fonseca
Adiantam alguns autores que o antedito Gonçalo Eanes era «cavaleiro da casa do Infante D. Fernando (1433-1470)». Trata-se de um filho do rei D. Duarte e da rainha D. Leonor efectivamente nascido em Almeirim em 17 de Novembro de 1433, que sucedeu como herdeiro universal a seu tio o Infante D. Henrique no ducado de Viseu, e mais tarde foi criado primeiro Duque de Beja. O infante D. Henrique falecido em 1460, nesse ano em 19 de Maio, deu instruções a Frei Gonçalo Velho, capitão pelo donatário das ilhas de Santa Maria e S. Miguel, quanto à administração da justiça cível e crime nessas ilhas (Marques, 1988, I: 569-570), doc. 446), mas já em 8 de Abril de 1443, se encontra referido como comendador das mesmas (Sousa, 2002: 463-464) portanto muito antes que Josse van Huertere fosse criado capitão pelo donatário da ilha do Faial). Este Infante, de génio geralmente reconhecido como «difícil», e figura preponderante do reinado de D. Afonso V, saiu secretamente do reino em 1452, segundo alguns autores com a intenção de combater nas praças de África. Três anos volvidos sobre esta ocorrência, a 22 de Maio de 1455, o Infante D. Henrique doava ao rei D. Afonso V a temporalidade das ilhas do Faial, Pico, S. Jorge, Flores e Corvo. Neste diploma o Infante D. Henrique «considerava-se dono destas ilhas, reservando o foro espiritual das mesmas para si e para os seus sucessores na Ordem de Cristo» (Meneses, 1949: 186).
Mas, por carta de 2 de Setembro (Instituto dos Arquivos Nacionais/Torre do Tombo, Místicos, liv. 2), o Infante D. Henrique confirmava a doação, efectuada um mês antes, em 2 de Setembro de 1460, ao mesmo Infante D. Fernando, seu filho adoptivo, das ilhas Terceira e Graciosa.
Se Gonçalo Eanes era cavaleiro da casa deste Infante D. Fernando (o que não consegui confirmar pessoalmente em fontes primárias, e poderá não coincidir com a sua naturalidade, ou residência em Lagos, nem com a menção nalguns manuscritos de que Gonçalo Eanes seria de menor qualidade do que os chefes dos outros núcleos coevos de povoamento) a sua chegada à ilha Terceira na década de 1450, mas sobretudo na de 1460, não conflitua com os marcos cronológicos acima referidos.
Sucede que não conseguimos encontrar nos genealogistas continentais consultados que se tivessem debruçado sobre os chamados Machado Carregueiro qualquer Mécia filha do bem conhecido Dr. João Machado (Carregueiro), de Lisboa. Aliás este último, ao qual foi passada em 2 de Novembro de 1513 uma carta de brasão de armas, também ela bem conhecida e estudada, situar-se-ia, quando muito, na geração dos filhos de uma Mécia de Andrade Machado que se terá fixado na ilha Terceira cinquenta e três anos antes (ao redor de 1460, como parece ser pacífico, uma vez que Gonçalo Eanes, seu marido, terá desembarcado logo a seguir, ou no Natal de 1449, como pretende Wanwermans, (cf. Meneses, 1949: 186)) ou no dia 1 de Janeiro como escreveu Frei Diogo das Chagas, embora eu próprio tenha lido em manuscritos genealógicos setecentistas sobre cujo valor como fontes não me posso pronunciar que este Gonçalo Eanes tenha chegado pela primeira vez com o núcleo de povoadores chefiado por Jácome de Bruges, estabelecendo-se junto à Ribeira de Frei João, mas sozinho, tendo regressado ao continente, para casar ou trazer a mulher Mécia de Andrade, em 1460).
Nem tão pouco na ascendência (também ela conhecida) do Dr. João Machado, de Lisboa, conseguimos descortinar alguém a usar o apelido Andrade.
Se aceitarmos que fontes modernas, como o Nobiliário da Ilha Terceira se estribaram pelo menos nalguns casos em manuscritos parcialmente fidedignos registaremos que o filho primogénito que é atribuído à dita Mécia de Andrade Machado, Gaspar Gonçalves Machado (Ribeira Seca, que a tradição refere ter sido o primeiro homem baptizado na ilha Terceira, teria navegado entre 1486 e 1506 e morrido em 1552 (Soares, 1944)).
Ora, de acordo com o fólio n.º 2 do manuscrito que transcrevemos, o pai deste Gaspar Gonçalves, Gonçalo Eanes, marido de Mécia de Andrade, «foi um dos primeiros que vieram como Jácome de Bruges, que, segundo muitos autores seria o Jossue van der Berg, o primeiro capitão do donatário e era passado em a ilha Terceira, com os outros dois de maior nobreza, Afonso Gonçalves dAntona e Diogo de Teive, em o ano de 1450».
Com efeito documenta-se que Diogo de Teive ainda era vivo e exercia as funções de ouvidor em 18 de Agosto de 1474, e o Dr. Manuel de Meneses considera-o como tendo nascido na primeira década de Quatrocentos (Meneses, 1949: 198), e tendo vindo povoar a Terceira em meados do século XV, o que, afinal, coincide com o contido no segundo fólio do manuscrito acima reproduzido, bem como com a data da doação da capitania desta ilha a Jossue van den Berg 21 de Março de 1450, de acordo com diploma registado nos livros da Câmara da vila da Praia da ilha Terceira (Meneses, 1949: 166).
Embora consciente da relatividade que a dedução deste tipo de cronologias comporta, atrevo-me a admitir que uma Mécia de Andrade Machado que tivesse chegado aos Açores, já casada, entre 1450 e 1460, poderia ter nascido algures na década de quarenta do século XV.
E que o seu filho primogénito, Gaspar Gonçalves o primeiro homem a ser baptizado na ilha Terceira, não deveria ter nascido depois de 1465, «pelas tradições dos antigos ser esta Mécia a primeira mulher que pariu na Ilha de que nasceu Gaspar Gonçalves Machado, que foi o 1.º homem natural dela» (Maldonado, 1989, I: 111). Se, como adianta Azevedo Soares (1944), que certamente reproduz informações genealógicas anteriores, este mesmo Gaspar Gonçalves tivesse morrido em 1552, seria quase nonagenário, circunstância invulgar para a época, e que a mesma tradição que recordava haver sido o primeiro neófito da ilha não deixaria de registar.
Face a esta cronologia parece de admitir que a Mécia de Andrade Machado, que proponho nascida entre 1440 e 1445 não pudesse ter sido filha de um Dr. João Machado, de Lisboa, documentado em 1502 e ao qual foi passada carta de brasão de armas em 1513.
Passemos agora ao Álvaro Gonçalves Machado, que também é referido como pai, ou ascendente, de Mécia de Andrade Machado. Neste caso encontramo-nos perante uma personagem cujos marcos cronológicos se encontram amplamente documentados em fontes primárias.
Em 1388, Álvaro Gonçalves Machado era corregedor da cidade de Lisboa (A evolução municipal de Lisboa, Pelouros e vereações, 1996: 45); em 1407, juiz do crime na cidade de Lisboa (Ibidem, 1996: 47); em 1409, permanecia no mesmo cargo (Ibidem, 1996: 47); em 1419 vereador no concelho de Lisboa, cargo em que ainda se documenta em 1424 (Ibidem, 1996: 47).
Gayo refere ter sido casado com uma filha de Gomes Lourenço Palhavã, informação que me parece plausível uma vez que os Palhavã mantinham estreitas relações com os Carregueiro e os das Regras, como se refere em (Ibidem, 1996: 47).
Para ser corregedor em 1388 (uma vez que se poderá incluir entre a geração de novos funcionários que ascendeu com D. João I) deveria ter nascido ao redor de 1358, o que justificaria o seu casamento algures perto de 1383, e o nascimento dos seus filhos ao longo da década de oitenta, e talvez ainda noventa, de Trezentos pelo que não poderia ser pai, mas apenas avô materno de Mécia de Andrade Machado.
A filha do antedito Álvaro Gonçalves, Leonor Álvares Machado, é genealogicamente referida como mulher de João Esteves Carregueiro, pais do Pedro Machado, do Desembargo de D. Afonso V, documentado como bacharel em leis, nomeado por D. Afonso V em 8 de Maio de 1469 corregedor da Casa da Suplicação em substituição de Pedro Miguéis, entretanto falecido, referido como corregedor em 1462, 1463, 1464, e como ouvidor em 1471, possuindo bens na Estremadura (Soveral, 2006). Este bacharel Pedro Machado terá nascido cerca de 1414, sendo certo que, em 22 de Dezembro de 1472 ainda não tinha 70 anos, como expressamente se contém num privilégio de D. Afonso V é recebido como vassalo régio e lhe é concedida a aposentação, a despeito de não ter atingido os 70 anos, «idade da reforma» (ibidem, 2006) juntamente com sua documentada mulher Branca Coelho são referidos no primeiro fólio do manuscrito que transcrevi acima, como pais de Mécia de Andrade Machado (que nesta versão seria irmã do supracitado João Machado, de Lisboa, que outros autores, e o segundo fólio do supracitado manuscrito fazem seu pai).
A supracitada Leonor Álvares Machado, que acima propus ter nascido na década de 1380, ou o mais tardar, na primeira metade da década de 90, teria casado com João Esteves Carregueiro possivelmente entre 1405 e 1415. Fazemos esta longa digressão pelos marcos cronológicos e biográficos destas personagens com o intuito de apurar que a genearca Mécia de Andrade Machado, se nascida entre 1440-1445, podia cronologicamente ser filha do bacharel Pedro Machado, e este, pela cronologia e estatuto (pequena nobreza de serviço) admissível neto materno do corregedor Álvaro Gonçalves Machado.
Vejamos agora se os marcos cronológicos conhecidos dos lisboetas Carregueiro permitem esta cronologia.
Afonso Eanes Carregueiro, homem bom do concelho de Lisboa em 23 de Agosto de 1342, por vezes designado como das Lebres, e casado com Clara Garcia, foi bisavô paterno de João Esteves Carregueiro, e surge um mercador claramente conotado com os Pacheco, que tinha relações na corte, como parece depreender-se pelo facto de ter sido usufrutuário do cargo de dizimeiro da portagem de Lisboa. Ainda era vivo em 1347, data em que, como vimos, é referido como tendo instituído a capela de S. Dinis em S. Domingos de Lisboa, por diploma de que apenas conheço excertos do respectivo traslado
De sua mulher, Clara Garcia, teve uma filha que Alão de Moraes (1997) lista como a mais nova de todos os filhos do casal (embora lhe ignore o nome). Esta senhora chamou-se Maria Afonso e estava casada em 21 de Outubro de 1343, com o Mestre João das Leis, data em que este testemunha com seu sogro Afonso Eanes Carregueiro a venda que D. Maria, mulher de D. Pedro, Conde de Barcelos, fez em Lisboa, nos paços de Lopo Fernandes (Pacheco), a seu marido de todas as herdades que aquele lhe havia dado em arras (Arquivo Municipal de Lisboa Arquivo Histórico, livro I do Hospital do Conde D. Pedro, n.º 25). [
] Ao longo deste tempo João Eanes Palhavã, tal como seu irmão Pedro Eanes, desenvolveu relações, talvez mesmo de amizade, com aqueles que, como ele, detinham nas mãos os destinos da cidade (de Lisboa). Desses sobressai o nome de Vasco Afonso Carregueiro, alvazil dos ovençais e dos judeus em 1357. Além da simultaneidade do exercício de funções, João Eanes (Palhavã) foi testemunha com Lopo Afonso das Regras (este último documenta-se em 1380 casado com Constança Peres Palhavã, e era tio do Mestre João das Regras, como vimos foi marido da irmã mais nova de Vasco Afonso Carregueiro), também ele profundamente ligado à família Palhavã, da elaboração do traslado do documento que instituía o Morgado dos Carregueiro, que se encontra referenciado como tendo sido fundado em 1347 (juntamente?) com a capela de S. Dinis, em S. Domingos de Lisboa, constando da lista de bens que a integravam a herdade do Carregueiro, no termo de Lisboa instituido (cf. Martins, 1997-1998: 78-79 e Documentos para a História da Cidade de Lisboa: Cabido da Sé, Sumários de Lousada. Apontamentos dos Brandões. Livro dos Bens Próprios dos Reis e Rainhas, 1954: 215-216). Maria Afonso era já falecida (prematuramente?) antes de 1349.10.18., data em que o Mestre João das Leis fez doações à capela de Mestre Pedro com a condição de que o administrador da mesma fizesse manter um capelão que cantasse quotidianamente por alma de Maria Afonso, que fora sua mulher (Instituto dos Arquivos Nacionais/Torre do Tombo, Arquivos particulares, família Vasconcelos e Sousa, cx. 7, n.º 1, fl. 155 [sumário]).
Destas datas parece lícito concluir que a supracitada Maria Afonso pudesse ter nascido ao redor da década de 20 de Trezentos.
Dispomos de mais informações sobre o seu irmão primogénito (e avô de João Esteves Carregueiro) Vasco Afonso Carregueiro que, em 1336 se documenta como dizimeiro pelo rei na alfândega real (Arquivo Municipal de Lisboa Arquivo Histórico, liv. I de Místicos, doc. 3); em 1357 está referido como alvazil dos ovençais e dos judeus (Arquivo Municipal de Lisboa Arquivo Histórico, liv. I de Sentenças, doc. 9); em 1360 surge como alvazil-geral (Arquivo Municipal de Lisboa Arquivo Histórico, liv. II de D. Dinis, D. Afonso IV e D. Pedro I, doc. 31); em 1364 é mencionado como alvazil-geral do crime e provedor do Hospital do Conde D. Pedro (Arquivo Municipal de Lisboa Arquivo Histórico, liv. I do Hospital do Conde D. Pedro, doc. 34); em 1365 se documenta como alvazil do crime de Lisboa (Instituto dos Arquivos Nacionais/Torre do Tombo, S. Vicente de fora de Lisboa, 2.ª inc., cx. 21, doc. 24); em 1367 está referido como coudel dos cavaleiros aquantiados de Lisboa (Arquivo Municipal de Lisboa Arquivo Histórico, liv. II de D. Fernando, doc. 4) e, finalmente, em 1374, outra vez como provedor do Hospital do Conde D. Pedro (Arquivo Municipal de Lisboa Arquivo Histórico, liv. I do Hospital do Conde D. Pedro, doc. 4). Solicitou o traslado do supracitado diploma que instituíra a capela ou morgado dos Carregueiro, (por não interessar directamente à matéria em apreço não investiguei a relação entre a capela de S. Dinis e o morgado dos Carregueiro) certamente para fazer prova do teor das cláusulas sucessórias, uma vez que viria a suceder na administração do mesmo.
Trata-se, segundo parece, de uma personagem nascida durante a primeira década de Trezentos, hipótese que não conflitua com a cronologia proposta para a sua irmã mais nova.
Por seu turno Gonçalo Vasques Carregueiro, o filho mais novo de Estêvão Vasques Carregueiro, que Alão de Moraes (1997) refere como filho único do antedito Vasco Afonso Carregueiro, é referido por Fernão Lopes como alferes encarregado da bandeira da cidade de Lisboa numa uma hoste de 250 lanças comandada por Estêvão Vasques Filipe (Lopes, 1945, cap. LXV), está documentado como coudel de Lisboa em 1367, vereador desta cidade intermitentemente de 1385 até 1424; procurador do concelho em 1386 e 1394; e juiz do cível em 1408 (Martins, 2002: 10-43). Este Gonçalo Vasques seria pai de Diogo Gonçalves Carregueiro, escudeiro do Infante D. Henrique, morador na vila de Albufeira, ao qual D. Afonso V, em 13 de Agosto de 1459, perdoa a justiça régia e concede carta de segurança, por estar acusado de fugir da prisão do castelo de Loulé, contanto que se livre de direito daquilo de que fora acusado. Esta controversa personagem identifica-se com o homónimo, e sempre morador em Albufeira, reino do Algarve, a quem o mesmo monarca acabará por perdoar em 2 de Novembro de 1471, por ocasião do perdão geral outorgado aos homiziados que tinham servido na armada e tomada da vila de Arzila e cidade de Tânger, e mediante o perdão das partes, a justiça régia, não só por estar acusado de várias mortes e fuga do castelo de Loulé mas também por ter quebrado as condições da supracitada carta de segurança (Soveral, 2006).
Ora aquele Gonçalo Vasques Carregueiro é dado genealogicamente como irmão mais novo de João Esteves Carregueiro (embora o patronímico e a cronologia pareça apontar para que fosse filho de Vasco Afonso Carregueiro), casado (entre 1410 e 1415) com a supracitada Leonor Álvares Machado e, portanto, tio do Pedro Machado (Carregueiro), ouvidor da Casa da Suplicação em 1469, e alegado pai da Mécia de Andrade Machado, com quem se iniciam os Machado da ilha Terceira.
Estas cronologias, embora de malha demasiadamente larga, também não impedem que a antedita Mécia pudesse ser filha do supracitado desembargador, corregedor e ouvidor Pedro Machado, que nunca surge em fontes primárias referido com o apelido de Carregueiro.
Mas sucede que este desembargador teve uma única filha, por nome Menda ou Catarina (Moraes, 1997: 424), que veio a casar com o bem conhecido Dr. Rui Boto, nascido cerca de 1424, genealogicamente referido como filho do notável jurisconsulto Martim Esteves Boto que terá sido também cavaleiro de África, a quem D. Afonso V concedeu, em 1 de Abril de 1462, carta de brasão de armas (Chaves, 2002), Doutor em Direito, chanceler-mor de D. Manuel I, e a quem (juntamente com o licenciado João da Grã e o bacharel João Cotrim) se ficou a dever a redacção dos dois primeiros livros das Ordenações Manuelinas, iniciada em 1505, e falecido em 1513. Está fundamentada esta ligação genealógica porque efectivamente se documenta que o Dr. Rui Boto sucedeu, como ouvidor régio na Casa da Suplicação, em 26 de Junho de 1480, a seu sogro, o corregedor de Entre-Tejo-e-Guadiana Pedro Machado, que tinha renunciado a esse cargo, para o qual havia sido nomeado em 1469 (Chaves, 2002). Documenta-se ainda um outro cunhado do corregedor e ouvidor Pedro Machado chamado Afonso Vasques, uma vez que D. Afonso V o privilegia por dois anos em 13 de Maio de 1469, autorizando-o a andar em besta muar de sela e freio e nesse diploma vem expressamente referido como cunhado de Pedro Machado, ouvidor régio na Casa da Suplicação
É certo que Felgueiras Gayo (1998: 126) chama Mécia à mulher deste jurista (que todavia menciona como Rui Botelho), no que é seguido pelos autores que estudaram os Boto Machado, descendentes deste casal mas, confusamente, menciona outra filha, Isabel, que faz mulher do supracitado chanceler-mor de D. Manuel I (que, todavia, não nomeia) e que, possivelmente seria a mulher de Afonso Vasques, uma vez que não deverá tratar-se da terceira filha que, embora não mencionada nos nobiliários, casou e encontra-se estudada, com descendência que, nesta proposta, não interessa chamar à colação.
Este confuso parágrafo de Felgueiras Gayo evidenciaria apenas uma deficiente informação, ou poderia eventualmente estribar-se na hipótese do Dr. Rui Boto ter casado sucessivamente com duas irmãs, uma Mécia e outra Isabel, o que não consta nos autores consultados, nem parece provável porque se conhece um segundo cunhado de Pedro Machado
De qualquer modo, as alegadas Mécia e Isabel, pelo menos uma das quais foi seguramente casada com o Dr. Rui Boto, cujos marcos cronológicos são conhecidos, surgem como cronologicamente posteriores a uma Mécia de Andrade Machado que, tudo parece indicar, terá nascido cerca de 1440-1445, se terá fixado na ilha Terceira ao redor de 1460, e lá terá falecido casada com o dito Gonçalo Eanes da Ribeira Seca.
Acresce que, tanto quanto se alcança, não se descortina o apelido ANDRADE na ascendência do ouvidor, corregedor e desembargador Pedro Machado (Carregueiro), embora se desconheçam os pais de sua mulher Branca Coelho, hipótese que permanece em aberto.
Nem esse mesmo apelido Andrade volta a ser usado pela numerosa descendência (conhecida, estudada e publicada por Pinto, 1992) do ouvidor Pedro Machado (Carregueiro).
E apenas por todas as razões supracitadas seria lícito questionar a paternidade atribuída sem mais pelo «consenso» genealógico açoriano à genearca dos Machado da ilha Terceira, Mécia de Andrade Machado.
Mas esse mero questionar, por si só, também não apresentaria alternativas que tentassem esclarecer a questão em apreço, nem tentar entender as razões pelas quais terá sido redigida (ignoro em que medida o texto acima transcrito poderia coincidir com o da inquirição que necessariamente antecedeu a carta de brasão de armas de Diogo de Barcelos Machado) a ascendência confusa que acima transcrevi e que, com maiores ou menores variações, coincide no entronque nos Machado Carregueiro que parece representar actualmente uma convicção generalizada.
O Padre Manuel Luís Maldonado parece seguir a, já referida, opinião da conveniente descendência em linha varonil formulada por Frei Diogo das Chagas quando escreve que estes Machado «procedem de Gonçalo Eanes Machado que veio de Lisboa casado com Mécia Anes de Andrade» (Maldonado, 1989, I: 111). Mas logo em seguida, no mesmo parágrafo, adianta que o mesmo Gonçalo Eanes Machado era «(
) filho do Doutor João de Lisboa, do Senhorio de Homem e Cabo».
Não vem à colação retomar a impossível descendência (de Mécia, ou Gonçalo Eanes) do bem conhecido Dr. João Machado, de Lisboa. Optamos por considerar lapso o patronímico Anes que, tanto quanto alcançamos, apenas este cronista menciona. Mas torna-se necessário sublinhar que a referência deturpada ao Senhorio de Entre-Homem e Cavado pressupõem uma confusão entre dois «Pedro Machado», mais concretamente entre o desembargador Pedro Machado (pai do Dr. João Machado, de Lisboa) e o ainda mais conhecido e estudado Pedro Machado, senhor de juro e herdade de Entre-Homem-e-Cávado (14 de Janeiro de 1439), e senhor da torre de Crasto (Amares), filho de Vasco Machado, cavaleiro, e de Mór Pires, mulher solteira, legitimado por D. João I através de carta de 12 de Outubro de 1390 (Viegas, 1984: 41).
Mas este senhor, que alcançou o dito senhorio por 500 coroas que deu a D. Maria de Azevedo, viúva de Álvaro de Biedma, que também surge como D. Maria Coelho, e veio a ser sogra do primeiro senhor da Trofa, quantia que era devida pelo erário régio em virtude do casamento que D. João I prometera a seu marido (Brandão, 1988, VI: 272), não procedia do tronco dos Machado Carregueiro.
Estou em crer que os Machado da ilha Terceira, no seu relativo isolamento, podem ter conservado memória de descenderem de um Pedro Machado. É admissível que alguém possa ter trazido de Lisboa a notícia da passagem, em 2 de Novembro de 1513, de uma carta de brasão de armas a um João Machado de Lisboa, filho de um Pedro Machado. Terão concluído (talvez mesmo de boa fé) tratar-se desse mesmo Pedro Machado, e fizeram o entronque que, sob várias formas, perdurou até hoje.
Mesmo numa leitura rápida das fontes é possível detectar vários «Pedro Machado» coevos. Documenta-se evidentemente o antedito Pedro Machado, referido pelo Padre Maldonado como senhor de Entre-Homem-e-Cávado, curiosamente pertencente à casa do Infante D. Fernando, mas este tinha casado com Inês de Góis, filha de D. Frei Nuno de Góis, Prior do Crato (Moreno, 1973: 605), que, como vimos, foi senhor de cuja descendência se conhece e nada tem a ver com uma Mécia de Andrade, nem com os Machado Carregueiro. Como outro Pedro Machado que surge nas fontes, desde 1442, como senhor de Entre-Homem-e-Tâmega, mas não são fáceis de ordenar estes Machado da primeira metade do século XV e os anteriores, muitos dos quais, sendo genealogicamente citados nem sempre se encontram nas fontes, como outros que, figurando nessas mesmas fontes, são omitidos pelos genealogistas, desde um Fernando Machado que, em 1205, testemunha a venda que fazem Soeiro Soares e sua mulher Maior Soares, ao Prior do mosteiro de S. Vicente de Fora, de uma herdade «onde dizem o Furadouro» (Instituto dos Arquivos Nacionais/Torre do Tombo, Mosteiro de S. Vicente de Fora de Lisboa, 1.ª inc., maço 1, n.º 24). E, nesta linha não deveríamos esquecer, por exemplo, um outro Pedro Machado, mercador de Lisboa, que morava na rua das Mudas, freguesia de S. Nicolau (Instituto dos Arquivos Nacionais/Torre do Tombo, Mosteiro de S. Vicente de Fora de Lisboa, 1.ª inc., m. 31, n.º 13, 14).
Podíamos prosseguir uma listagem que julgamos inútil. Com efeito, em 12 de Novembro de 1451, D. Afonso V fazia saber que os moradores e confrades do hospital de S. Vicente, situado junto à Sé de Lisboa, (que) lhe disseram que um Rui de Andrade (personagem que, em principio, parece corresponder ao Rui Freire que Abranches de Soveral propõem como filho do alcaide-mor de Viseu, João Freire de Andrade (Soveral, 2004, II: 214)), meirinho que fora ao tempo de seu avô D. João I, tinha emprazado (em três pessoas) do dito hospital certas terras de vinha e herdades com oliveiras e casas, em Campolide, por renda de dinheiro e foro de capões. As quais terras houvera em casamento um Álvaro Machado com uma filha do dito Rui de Andrade.
Aquele Álvaro Machado, embora pagando o foro, vendeu-as anos mais tarde à condessa D. Guiomar de Castro como (se fossem) suas, forras, isentas. O juiz do cível condenara o dito Machado a devolver os bens (entretanto muito danificados) ao dito hospital, tendo ele sido já penhorado de uma quintã em Alhandra que (agora) o hospital de S. Vicente pretendia comprar, e o monarca autorizou, fixando como limite a quantia de 200 coroas (Instituto dos Arquivos Nacionais/Torre do Tombo, Leitura Nova, liv. 8 de Estremadura, fls. 207v-208).
É evidente que este Álvaro Machado, casado com uma filha do meirinho Rui de Andrade, não corresponde ao supracitado Álvaro Gonçalves Machado, corregedor, casado com uma senhora da linhagem dos Palhavã-Carvalhosa, e pai da Leonor Álvares Machado com que se inicia o ramo dos Machado Carregueiro.
Mas hipoteticamente poderia tratar-se do Álvaro Machado que, em 1413, tinha uma herdade em Rio de Mouro (concelho de Sintra) (Instituto dos Arquivos Nacionais/Torre do Tombo, Mosteiro de Santos-o-Novo, n.º 1026). Ou mesmo, embora no limite cronológico, do Álvaro Machado que, em 1450, se documenta como mercador de Lisboa (Instituto dos Arquivos Nacionais/Torre do Tombo, Mosteiro de S. Vicente de Fora de Lisboa, 1.ª inc., m. 31, n.º 13).
Mas uma outra referência leva-me a identificar o Álvaro Machado que casou com uma filha do meirinho Rui de Andrade. Trata-se do filho de um Pedro Machado, escudeiro, nascido de Teresa Afonso, mulher solteira, como se contém na sua carta de legitimação passada em Santarém, em 18 de Maio de 1406 (Viegas, 1984: 102).
Esse Álvaro Machado, filho de um Pedro Machado, escudeiro, foi alcaide do castelo da Guarda, e é referido ocupando esse cargo, e mencionando ser casado com Leonor Gomes de Andrade (Soveral, 2004, II: 227) num diploma que respeita a seu filho Luís Machado, escudeiro-fidalgo da casa de D. Afonso V (Sousa, HG, tomo II, 1.ª parte: 47).
Por seu turno este último Luís Machado recebeu por carta de 21 de Janeiro de 1450, bens confiscados a João Rodrigues Machado, escudeiro, e morador em Coimbra. Recebeu igualmente a aldeia de Sandomil, de juro e herdade, com suas rendas, foros e direitos, que também havia pertencido ao antedito João Rodrigues Machado (Moreno, 1973: 605).
Em 11 de Maio de 1497, o primogénito do Luís Machado, senhor de Sandomil, que se chamava Álvaro Machado como o seu avô era fidalgo da casa de D. Manuel I talvez o mesmo que em 1475 se documenta como Escudeiro-fidalgo da Casa de D. Afonso V com 1.000 reis de moradia (Sousa, 1947, liv. IV, tomo II, 1.ª parte: 46) e obteve confirmação da posse da aldeia de Sandomil, que fora de seu falecido pai. Duas décadas antes, em 1477, documentam-se já como escudeiros fidalgos da Casa de D. Afonso V com 1000 reais de moradia, João Freire Machado expressamente referido como filho do antedito Luís Machado e Nuno Freire Machado, filho de Nuno Freire, este último também possivelmente filho do supracitado Luís Machado, senhor de Sandomil. (Sousa, HG, Idem, ibidem.).
Sucede que o Luís Machado já falecido em 1497, primeiro senhor de Sandomil de jure e herdade neste ramo de Machado (que era, recorde-se, filho de Álvaro Machado e de sua mulher Leonor Gomes de Andrade e neto em varonia do escudeiro Pedro Machado e, por linha feminina, do meirinho Rui de Andrade), vem referido em Felgueiras Gayo (No Título de Machados, n.º 16, do § 84.).
Esse autor menciona-o como filho de Álvaro (Pires, o que não documento em fontes primárias, mas se apresenta plausível de acordo com a, ainda vigente, regra dos patronímicos, e confirmaria ser este Álvaro o filho legitimado do escudeiro Pedro Machado) Machado, mas correctamente identificado, sem margem para dúvidas, como «senhor de Sandomil que foi de João Rodrigues Machado que, por passar a Castela fez o Rei D. Afonso V mercê a este Luís Machado por carta passada a 31 de Janeiro de 1450, um ano após a batalha de Alfarrobeira como consta da Chancelaria do dito rei, a fls. 273».
Gayo (1989) acrescenta que casou com Leonor, ou Maria Rodrigues Freire, que este autor dá como filha de João Freire, senhor de Bobadela, Cavaleiro-fidalgo da Casa de D. Afonso V em 1474, com 2.700 reis de moradia (Sousa, 1947, liv. IV, tomo II, 1.ª parte: 37), o que não confirmei, uma vez que as duas mulheres que o mesmo Gayo atribui ao alegado sogro deste senhor de Sandomil não coincidem com a única mulher que lhe dá o Livro de Linhagens do Século XVI (1956: 269) embora recorde que entre os filhos documentados deste senhor de Sandomil se encontra o supracitado Nuno Freire Machado, que Gayo refere como Comendador de Moimenta na Ordem de Avis, o que também não confirmei, mas que talvez se possa identificar com o Nuno Freire, mencionado num diploma de 1492 como comendador de Aveiro na mesma Ordem de Avis (Pimenta, 2001: 547). Esta incursão lateral num dos dois ramos dos Freires de Andrade de que descenderia a genearca Mécia de Andrade Machado justifica-se pelas dúvidas que me suscita a sua identificação. Não restando dúvidas de que tanto os senhores de Sandomil como os de Bobadela tiveram ascendentes e/ou descendentes ligados ás ordens militares de Avis e Santiago, admito que Gayo possa não estar correcto ao dar como ascendente dos Freires de Andrade de Serpa e Vila Viçosa um Nuno Freire filho (que, a sê-lo, apenas poderia ser natural ou bastardo, como verificou o próprio Gayo) do João Freire de Andrade, senhor de Alcoutim, que o mesmo autor refere ter sido (algum tempo) Aposentador-mor de D. Afonso V (Gayo, 1989, título Machados, § 15, n.º 5). Sucede que a vila de Alcoutim, efectivamente doada ao Aposentador-mor João Freire de Andrade por D. Afonso V, veio a ser herdada pela sua filha Maria Freire, pelo seu casamento 2.ª condessa de Vila Real (Sousa, 1947, liv. IV, tomo II, 1.ª parte: 26). Na hierarquia nobiliárquica a mulher do 2.º conde de Vila Real posiciona-se num plano de tal modo superior aquele que ocuparam os anteditos Freires de Andrade de Serpa e Vila Viçosa que me interrogo se o Nuno Freire que lhes dão como genearca não será o supracitado Nuno Freire Machado, Comendador de Aveiro na Ordem de Avis. Fica assim sublinhado que importa estudar os (dois?) ramos da ascendência Freire de Andrade da genearca Mécia de Andrade Machado, que, tal como se encontram referidos nos autores em apreço, parecem suscitar dúvidas e carecer de revisão fundamentada.
Mas o certo é que este Luís Machado, partidário de D. Afonso V, que lhe doou o senhorio (cujos marcos cronológicos são perfeitamente compatíveis), vem referido como sendo pai de uma Mécia de Andrade «sem estado».
Em meu entender esta última Mécia de Andrade (Machado) terá sido efectivamente a mulher do Gonçalo Eanes que se radicou na ilha Terceira ao redor de 1460. e não uma alegada e muito improvável filha do desembargador Pedro Machado (Carregueiro) da qual não terá ficado rasto nem parece enquadrar-se na cronologia.
Ficariam assim os Machado da ilha Terceira, de acordo com esta minha proposta, a descender de uma filha de Luís Machado, senhor de Sandomil, de juro e herdade, desde 1450.
E não faça dúvida o vir mencionada como sem estado uma vez que Gayo (1989) pode ter retirado a informação de obra ou documento redigida antes do seu casamento, ou o autor da informação original não haver alcançado notícia de um casamento relativamente obscuro, seguido de emigração para os, nessa altura remotos Açores, o que se tem constatado com outras senhoras que povoaram o arquipélago.
Manuel Lamas

