lojas maçónicas
Embora haja um vago conhecimento da existência de lojas maçónicas no século XVIII, quer no Faial quer em S. Miguel, foi depois de 1810 que a maçonaria se organizou de forma mais consistente com a chegada, a bordo da fragata Amazonas, de um grupo de «jacobinos e pedreiros livres» oriundos do continente. Estava-se numa fase em que a maçonaria era proibida ou perseguida. Francisco Maria Supico refere a realização de reuniões em várias casas particulares na ilha de S. Miguel e a organização provável das primeiras lojas. O mesmo aconteceu em Angra do Heroísmo e a participação nas revoltas liberais teve o forte empenhamento dos maçons. A partir de 1829, com a ilha Terceira controlada pelos liberais e a chegada dos emigrados continentais em Inglaterra, a maçonaria alargou a sua área de influência. Como no resto do país, as lojas deviam obediência aos grandes orientes que se foram organizando, na sequência de transferências, cisões ou reunificações. Nas federações de lojas era permitida a coexistência de diferentes ritos. Deste modo, algumas lojas optaram pelos dois ritos predominantes no país: o Rito Escocês Antigo e Aceite (REAA) e o Rito Francês (RF). Foram poucas as que se constituíram em loja capitular, ou seja lojas do REAA ou do RF que contavam sete ou mais membros decorados com o grau 18.º ou 7.º, respectivamente, podendo constituir um capítulo. Da mesma forma, foram poucos os triângulos, ou seja, oficinas composta de 3 a 6 membros. A partir de 1935, foi aprovada legislação na Assembleia Nacional que proibiu as associações secretas, atingindo directamente a maçonaria que foi obrigada a passar à clandestinidade e desapareceram gradualmente.
S. MIGUEL
Houve maçonaria organizada desde o século XVIII. Em 1792 fundou-se uma loja desaparecida de imediato. Entre 1831 e 1834, foi em Ponta Delgada que renasceu o Grande Oriente Lusitano com a criação da loja União Açoreana, n.º 1, desaparecida antes de 1844, a primeira que os liberais constituíram em território nacional conquistado ao absolutismo. Outras duas lojas terão funcionado até 1842. Ficaram conhecidas uma como a dos «porcos», cartista, que reunia na Azinhaga da Graça, esteve na origem do Clube de Ponta Delgada e publicou o Cartista dos Açores; outra, a dos «gatos», setembrista, reunia na rua do Melo, fundou a Assembleia Micaelense e publicou o Correio Micaelense. Uns anos depois, 1857, as duas colectividades fundiram-se e deram origem ao Clube Micaelense. A Loja 17 de Março de 1866, fundada por António Soares Medeiros, regressado do Brasil, durou até 1869, ligada ao Grande Oriente Lusitano. A União Fraternal, iniciada em 1867, por influência de Leopoldo José Chaves, também regressado do Brasil, terá tido duração efémera e não chegou a regularizar-se, embora tenha feito iniciações. A Loja de São João, com o distintivo 1.º de Janeiro, surgiu como cisão da Loja 17 de Março de 1866. Ligada ao Grande Oriente Lusitano Unido, com o n.º 31, funcionou entre 1868 e 1883. Foi loja capitular a partir de 1870, andou envolvida em lutas políticas locais e fundou uma escola. A loja do REAA, n.º 229 fundada em 1902 com o nome de Companheiros da Paz e da Concórdia, passou a capitular em 1904. Começou como Triângulo n.º 22, em 1899, filial da Loja Academia Livre, n.º 202, de Coimbra. Desapareceu durante a clandestinidade. Durante algum tempo controlou o Asilo de Infância Desvalida, a *Associação Século XX e a Liga Micaelense de Instrução Pública, que fundou a Escola Móvel Agrícola Maria Cristina, em 1911. Criou escolas primárias e cursos nocturnos para ambos os sexos e bibliotecas rurais. Adoptou o nome profano de Grémio Açoreano. A loja Teófilo Braga n.º 220, do REAA, surgiu e extinguiu-se em 1902. A Pluribus Unum, loja capitular do REAA, n.º 249 (1905), cindiu-se do Grande Oriente Lusitano Unido, em 1914, acompanhando o Supremo Conselho dissidente em cuja obediência recebeu o n.º 28. Abateu colunas em 1919. Fundou em 27 de Outubro de 1910 o jornal Pátria, em Vila Franca do Campo. A Acção Renovadora, n.º 462, foi instalada na Ribeira Grande, em 1932, na sequência da existência do triângulo n.º 326 aí constituído em 1931 e durou até à clandestinidade. A Antero de Quental, n.º 460, foi fundada em Vila Franca do Campo, em 1932, como continuação do triângulo 328, iniciado no ano anterior. Abateu colunas durante a clandestinidade e ressurgiu em 1959 mas por pouco tempo. A Silêncio e Acção, n.º 459, foi instalada em S. Roque em 1932 e desapareceu no ano seguinte, na sequência da prisão dos seus membros quando se reuniam na pensão Drumond, em Ponta Delgada. Estava ligada ao Grande Oriente Lusitano.
TERCEIRA
A loja Amigos da Pátria foi fundada entre 1836 e 1848, no âmbito do Grande Oriente Lusitano. A partir de 1849 transitou para o Grande Oriente de Portugal, para desaparecer no ano seguinte. A Valor e Constância, n.º 3, fundada antes de 1836, estava ligada ao Grande Oriente Lusitano. Transitou em 1849 para o Grande Oriente de Portugal e foi extinta antes de 1867. A Liberdade, Igualdade e Fraternidade, fundada depois de 1859, filiou-se no Grande Oriente Lusitano e extinguiu-se em 1868 ou 1869. A 1º de Dezembro de 1640, loja do RF fundada em 1862, dentro da Confederação Maçónica Portuguesa, passou para o Grande Oriente Lusitano Unido, em 1867, onde recebeu o n.º 6. Foi loja capitular em 1870 e extinguiu-se no ano seguinte. A União e Liberdade, n.º 251, loja capitular do REAA (1905) foi extinta em 1914. Reergueu-se em 1915 e desapareceu em ano não determinado. Está na origem da *Cozinha Económica de Angra do Heroísmo e fundou o jornal O Tempo, em 1906. A Loja Oito de Abril, n.º 453, fundada em 1932, era a continuação do triângulo n.º 296 que se havia instalado em Angra do Heroísmo no ano anterior, ligado ao RF. O nome relaciona-se com a data em que foi iniciada a revolta dos deportados, em 1931, tendo sido extinta durante a clandestinidade.
FAIAL
Na Horta houve maçonaria organizada desde cedo, devido à passagem frequente de navios ingleses. Julga-se que por volta de 1791-1792 tenha aí existido a primeira loja.
Entre 1831 e 1836, no seio do Grande Oriente Lusitano, fundou-se a Loja Amor da Liberdade (também chamada União e Valor), n.º 200, que se extinguiu antes de 1844. A loja Amor da Pátria, n.º 20, fundada a 28 de Novembro de 1859, dentro da Confederação Maçónica Portuguesa (do RF), transitou para o Grande Oriente Português entre 1867-1869 e deste para o Grande Oriente Lusitano Unido, onde adquiriu o n.º 9. Passou então a loja capitular em 1870, adoptou o REAA em 1928 e como tal passou novamente a loja capitular em 1930. Extinguiu-se durante o período da clandestinidade. Constituiu-se em associação profana com o nome de Grémio Literário Artista e depois Sociedade Amor da Pátria. Fundou duas escolas primárias (1860 e 1870), a Caixa Económica Faialense (1862) e administrava o Asilo de Infância Desvalida. Nos Flamengos, funcionava o Triângulo n.º 297, activo de 1931 a 1935. A Lealdade, n.º 4600, do Grande Oriente Lusitano, terá surgido antes de 1863 e desaparecido por volta de 1869. A Luz e Caridade, n.º 122, iniciada a 22 de Novembro de 1874, funcionou até 1914. Subiu a capitular em 1906, do REAA, ligada ao Grande Oriente Lusitano Unido. Constituiu-se com o nome profano de Grémio Literário Faialense. Fundou o jornal O Grémio Literário (1880-1884), uma biblioteca popular (1880) e abriu uma secção da Sociedade de Geografia de Lisboa (1881). Na sua sede funcionava a Caixa Económica Luz e Caridade. A Regeneração, n.º 130, do REAA, funcionou de Dezembro de 1879 a 1893, ligada ao Grande Oriente Lusitano Unido. Com o nome profano de Sociedade Humanitária de Literatura e Agricultura, criou uma escola de música, fundou a Caixa de Crédito Distrital da Horta, os jornais A Sentinella e A Regeneração.
SÃO JORGE
Na Calheta, existiu desde 1906 até data indeterminada, o triângulo n.º 87, do RF, que depois adoptou o REAA.
GRACIOSA
Existiu o triângulo n.º 349, do REAA, instalado em 1932 e extinto durante a clandestinidade.
SANTA MARIA
Foi instalado o Triângulo 86 do REAA, filial da Loja Companheiros da Paz, de Ponta Delgada, activo de 1906 a 1911. Carlos Enes
Bibl. Dias, J. (1995), O Amor da Pátria é o único astro que nos guia A Maçonaria na ilha do Faial em 1892. In O Faial e a Periferia Açoriana nos séculos XV a XIX, Horta, Núcleo Cultural da Horta: 283. Marques, A. H. O. (1986), Dicionário de Maçonaria Portuguesa. Lisboa, Edições Delta, 2 vols.. Id. (1995), Para a História da Carbonária nos Açores a barraca Vigilância, da Horta. In O Faial e a Periferia Açoriana nos séculos XV a XIX. Horta, Núcleo Cultural da Horta: 283. Supico, F. (1995), As Escavações. Ponta Delgada, Instituto Cultural de Ponta Delgada, II: 814-821.
