loiça da vila

Designação por que é conhecida a cerâmica de Vila Franca do Campo, S. Miguel. Documentos de 1574 e 1577, já referem a existência de oleiros na ilha, cujo número foi crescendo gradualmente. A profissão encontrava-se organizada como a dos demais oficiais mecânicos, sujeita a regras e à fiscalização da Câmara Municipal. No século XVII, são conhecidas as lanças, nome dado às taxas que pagavam, e o tabelamento do preço das peças que fabricavam. De igual modo, era feita a fiscalização da produção, dado que alguns misturavam barro da terra com barro de fora. No início do povoamento poderá ter sido utilizado algum barro existente na grota do Barro, em Água de Alto, mas foi a ilha de Santa Maria a fornecedora da matéria-prima ao longo dos séculos. Para se ser oleiro era necessária uma carta de usança, mediante prestação de provas. O juiz dos oleiros encarregava-se da fiscalização e era eleito pelos seus pares.

A designação de Loiça da Vila só terá sido generalizada em princípios do século XVIII. As origens desta loiça poderão ser provenientes de Estremoz, onde a cerâmica sempre se desenvolveu desde os tempos mais recuados. Inicialmente dispersos por toda a vila, os oleiros acabaram por se concentrar na zona da actual freguesia de S. Pedro, no bairro denominado Vila Nova. Na freguesia de S. Miguel existe ainda a rua dos Oleiros. Os processos de fabrico foram sempre muito artesanais. O aparelho de madeira primitivo, quase ao nível do chão, compunha-se de um volante horizontal (roda), seguido de um eixo que termina em prato (cabeça da roda). É neste que é colocado o pedaço de argila trabalhado pelo oleiro. A destreza dos pés no pedal e a habilidade das mãos do artista davam forma às mais variadas peças, de linhas firmes sem qualquer decoração. Depois de fabricadas eram expostas alguns dias ao ar e ao sol para adquirirem consistência, sendo de seguida cozidas em fornos especiais. Talhas, talhões, púcaros, panelas, alguidares, caçarolas, tigelas, o gracioso moringue e o tenor (vaso em que os caiadores deitavam o leite de cal) eram peças muito utilizadas. Com elas se abastecia o mercado local, mas também alguma exportação para outras ilhas. Em termos económicos, esta produção só teve algum significado na própria vila. Os dados disponíveis apresentam 18 estabelecimentos em 1890, nos quais trabalhavam 36 operários e 18 aprendizes; em 1917, o número de oficinas reduziu para 15, com 22 operários. Com um ligeiro crescimento até aos anos 30 (22 oficinas), esta indústria foi entrando no plano inclinado: as 16 oficinas em 1959 ficaram reduzidas a metade dez anos depois, existindo apenas 3 em 1998. A entrada no mercado de produtos de outras espécies contribuiu para o agravar da situação e o quase desaparecimento da produção. No presente, as peças são adquiridas apenas como objecto decorativo e por quem aprecia e valoriza o trabalho artesanal. Está em estudo um projecto de musealização com o objectivo de preservar esta arte tradicional de Vila Franca do Campo. Carlos Enes

Bibl. Costa, C. (1952), Os antigos oleiros. A Ilha, Ponta Delgada, 29 de Março. Ferreira, E. (1922), Loiça da Vila. Os Açores, Novembro, Ponta Delgada, 5: 10-11. Sousa, A. I. (1998), Loiça da Vila: o diálogo entre o barro e as mãos. Jornal das Ilhas, S. Miguel, 19 de Junho.