livrarias

No arquipélago, a partir da imprensa, é possível detectar uma evolução das diversas modalidades de aquisição de livros por parte dos leitores. O negócio da venda de livros devia ter alguma importância económica, dado que praticamente todos os jornais das diversas ilhas estavam pejados de anúncios. Numa primeira fase, as editoras ou livreiros do continente anunciavam a publicação de novos títulos e a aquisição podia ser feita por encomenda. As grandes obras nacionais e mesmo estrangeiras, principalmente em língua francesa, iam sendo referenciadas, com a renovação constante de anúncios. Só muito raramente se vendiam livros nas lojas dos jornais ou noutros estabelecimentos. Era o caso do jornal A Chronica, em Angra, em 1838, ou de Francisco Henriques, por detrás da matriz de Ponta Delgada, que vendia «romances, outras obras de gosto, cartilhas de primeiras letras, tabuadas, catecismos, Tesoiro de Meninas e Meninos, manual enciclopédico e fábulas em francês de La Fontaine» (O Cartista dos Açores, 23.3.1848). Numa segunda fase, foram surgindo os intermediários, quase sempre pessoas ligadas à imprensa, proprietários de jornais ou de tipografias, ou escritores. Encarregavam-se dos anúncios e dispunham-se a mostrar catálogos e a fazer a encomenda dos livros. Era o caso de Mendo *Bem que, em 1877, tratava de assuntos relacionados com a Gazeta das Salas, «jornal para damas», de António *Gil que para além de promover sessões no seu *Gabinete de Leitura, emprestava livros, representava a Imprensa Nacional e fazia as encomendas. Esta modalidade prolongou-se ao longo dos anos nas ilhas mais pequenas. Em 1917, Francisco Augusto Bettencourt, director do jornal A Ilha Graciosa, vendia livros na agência da Companhia de Seguros Mundial, de que era representante, e aceitava encomendas. No último quartel do século XIX, verifica-se o aparecimento mais generalizado nas cidades de papelarias-livrarias. Eram estabelecimentos onde se vendia um pouco de tudo. O anúncio mais bizarro era o da livraria Arengas que dava destaque à venda de sapatos. Neste período é possível referenciar para Angra do Heroísmo, com a designação de livraria ou papelaria, a de António Gil fundada em 1876 e que terá sido a primeira. Uns anos depois, a Religiosa e a Arengas, na rua do Galo; a de Francisco António de Sousa e de Alfredo Luís Campos, ambas na rua Direita; a Teixeira, na praça da Restauração, a de Lourenço e Cunha e a de Melo e Lemos, na rua da Sé. No início do século surgiu a livraria-editora Andrade. Depois de um período de estagnação, Adriano de Figueiredo, que era gerente da papelaria Lourenço, fundou a Loja do Adriano, em 1926 e que se mantém no presente. Esta e a Casa de Utilidades, de Manuel Magalhães, foram durante muitos anos os únicos espaços onde era possível adquirir livros na ilha. Para S. Miguel, a de Evaristo Ferreira Travassos é considerada uma das mais antigas, a que se seguiu a Âmbar, a Académica, a Açoriana, o Bureau do Turismo, a Casa Lusa, a Lusitana, a Micaelense, a Minerva, a Neves, a Oriental, etc.. Para o Faial, a mais antiga será a de O Telégrafo, já existente em 1889. Para o início do século encontrámos a de Manuel E. Gonçalves, a que se seguiu a do Correio da Horta, Tabacaria da Sorte e a de Manuel Alexandre da Silva. Nas vilas ou nas cidades recentemente criadas são poucos os estabelecimentos dedicados à venda de livros, que não sejam os escolares. Para 1906, há referência a uma de José Moniz de Faria na Ribeira Grande, e nas Lajes do Pico, José Madruga Ávila, em 1955. No que respeita a estabelecimentos dedicados exclusivamente à venda de livros o fenómeno é muito recente. Refira-se para Ponta Delgada a Gil, nos anos 60, a Solmar e mais algumas resultantes da procura por estudantes da Universidade dos Açores. Para Angra, só a In Fólio, nos anos 90. Finalmente, uma referência à Cooperativa Sextante inaugurada em 1970 em Ponta Delgada e com sucursais na Ribeira Grande e em Angra do Heroísmo. Teve vida efémera porque foi encerrada pela PIDE. Carlos Enes