Lavrador Português (O)
Um dos mais itinerantes de entre os primeiros jornais de língua portuguesa na Califórnia, apareceu primeiro como semanário em Lemoore, em Dezembro de 1912. A publicação foi suspensa apenas dois meses depois. Em Março de 1913, reapareceu em Hanford, onde esteve até finais de 1915. Em Novembro daquele ano, após um incêndio que destruiu as suas instalações, o jornal foi mais uma vez relocalizado, agora em Tulare onde permaneceu até a publicação ser suspensa em Setembro de 1916. Em Junho de 1921, depois de um hiato de quase cinco anos, o jornal ressurgiu como bissemanário, ainda em Tulare, onde permaneceu até 1924. O fundador do jornal e seu editor durante este período foi Artur Vieira de *Ávila (1888-1962), nascido no Cais do Pico, Açores, filho de um funcionário aduaneiro. Emigrou para a Califórnia em 1909, fixando-se em Hanford, onde trabalhou em serviços ocasionais até fundar o Lavrador Português. Umas vezes, Ávila foi proprietário único, outras vezes teve associados, entre eles João de Simas Melo Jr., que pouco depois fundou a Revista Portuguesa, e Alfredo Dias da Silva, que anos mais tarde fundou o Progresso. Em 1924, Ávila aparentemente teve intenção de transferir o jornal para Oakland mas, em vez disso, suspendeu a publicação e tornou-se editor de um novo bissemanário naquela cidade, o *Colónia Portuguesa, de que foi também co-proprietário. A sua função de editor deste jornal foi breve. Discordância com os seus associados levou à demissão de Ávila como editor no fim de 1925. No ano seguinte, reactivou o Lavrador Português, como semanário, em Oakland, servindo como seu editor até 1927, quando vendeu o jornal a Cândido da Costa Nunes (m. 1938), natural da Candelária, Pico. Como editor, Nunes manteve o jornal até 1928. Nunes foi também fundador e editor, até à sua morte, do *Califórnia Alegre. No princípio de 1928, Ávila reapareceu como editor do Colónia Portuguesa.
Ávila foi um apoiante fervoroso da Primeira República Portuguesa, um facto tornado bem claro nas páginas dO Lavrador Português. O jornal visava dar cobertura extensa a questões seleccionadas por períodos algumas vezes longos e então pôr-lhes fim e admitir outros com igual intensidade. Em 1914, por exemplo, o jornal relatou extensamente a revolução no México; em 1922-1923, as actividades do xenófobo Ku Klux Klan atraíram muita da sua atenção. Uma outra característica distintiva foi o suporte dado a causas radicais. Durante a sua história turbulenta, manifestou uma orientação esquerdista acentuada e publicou, de modo regular, artigos enaltecendo as virtudes teóricas do Socialismo enquanto desferia ataques contundentes à plutocracia e ao capitalismo corporativo. Este aspecto do Lavrador Português foi acima de tudo conspícuo dada a natureza geralmente conservadora da população imigrante açoriana naquele tempo e, indubitavelmente, reflectiu um sentimento mais pessoal do que colectivo. O entusiasmo de Ávila pelas causas esquerdistas tinha declinado, em 1930, quando ele iniciou o que esteve para ser uma longa carreira como personalidade da rádio. Naquele ano, Ávila produziu, regularmente, a primeira emissão de um programa de rádio em língua portuguesa na Califórnia. Em colaboração com Celeste Alice dos Santos, natural de Portugal continental, com quem casou em 1938, estaria na rádio por mais de 30 anos. Juntos, publicaram diversos periódicos como complementos dos seus programas de rádio, nomeadamente, O Clarim, Rose & Albert Magazine e Portugal da Califórnia. O último, um semanário publicado de 1935 a 1937, foi talvez o mais ambicioso destes. Ele foi para além do domínio do entretenimento popular para incluir comentários políticos ocasionais. Por este tempo, Ávila tinha abandonado os seus princípios socialistas iniciais e agora expressava apoio à ditadura de direita de Salazar em Portugal. Pouco antes da sua morte, Ávila publicou dois volumes de poesia, Rimas de um imigrante (1961) e Desafio radiofónico (1961). Geoffrey Gomes [Trad. Luís M. Arruda]
