laranjeira
História natural Árvore ou arbusto que produz a laranja doce ou laranja da China, nome vulgar de Citrus sinensis (Rutaceae). A zona de origem desta espécie é desconhecida, mas, admite-se que tenha sido a China e o Vietname. Trata-se possivelmente de um híbrido Citrus maxima x Citrus reticulata, ou seja resultante do cruzamento entre a toranjeira (Citrus maxima) e a tangerineira (Citrus reticulata). Os citrinos cruzam-se facilmente na natureza, admite-se que todos os citrinos existentes derivam apenas de três espécies: da cidreira (Citru medics), da toranjeira (Citrus maxima) e da tangerineira (Citrus reticulata). A laranjeira foi introduzida na região mediterrânica por volta de 1500. Nos Açores deve ter sido introduzida aproximadamente na mesma época, dado que na ilha Terceira existe um testamento datado de 1520 no qual João Correia, o velho e sua mulher Catarina Simoa, legaram a um filho que tinham, um pomar de laranjeiras e limoeiros situado no lugar de Agualva. Também existe a informação de que em 1522, ano do terramoto que destruiu Vila Franca do Campo, o capitão-donatário Rui Gonçalves da Câmara, possuía no lugar do Cabouco um grande pomar de frutas de espinho, designação atribuída nessa data aos pomares de citrinos, que desapareceu nessa calamidade. A implantação do pomar era extremamente dispendiosa. Além dos trabalhos prévios habituais, espedrega, limpeza e nivelamento, era indispensável plantar abrigos com anos de antecedência, formando talhões ou quartéis, onde se plantavam 16 a 25 citrinos em quicôncio, a distâncias de 6-7 metros. As espécies usadas para abrigos foram muitas, citaremos apenas as principais: a faia da terra (Myrica faya), o incenso (Pittosporum undulalum) e a cigarrilheira (Banksia integrifblia). Era necessário semear em viveiros as pevides de laranja doce ou azeda, ambas as espécies eram usadas como porta enxerto, esperar que atingissem o desenvolvimento necessário para serem enxertados com laranjeira doce e aguardar que os enxertos pegassem, o que levava aproximadamente três anos. Estes porta enxertos conduzem à formação de árvores de grande porte o que obrigava a ter também abrigos de grande altura, cuja plantação e manutenção, envolvia muita mão-de-obra. A primeira colheita só se verificava ao fim de 8 anos. A falta de arejamento facilitava o desenvolvimento de fungos e pragas que agravavam a diminuição das colheitas e encarecia a produção.
Só no fim do século XVIII teve início a exportação de citrinos dos Açores. O ponto alto atingiu-se em 1871 e a partir de 1875 inicia-se o declínio, em parte devido a concorrência de Valência que tinha a possibilidade de produzir em grandes áreas e em condições mais económicas, além de ter muito melhor acesso para os barcos de carga. Actualmente a produção de citrinos localiza-se na Califórnia, Florida, Brasil, Israel, Sul de Espanha, África do Sul e Austrália. As condições de produção estão muito longe das formas engenhosas, sem dúvida, mas, impraticáveis, devido aos elevados custos de produção que foram usadas pelos açorianos. Os citrinos hoje, produzem-se em grandes superfícies. A produção de porta enxertos e a enxertia tornaram-se actividades separadas da produção de fruta, e, altamente especializadas. Uma boa parte dos problemas fitossanitarios devidos a nemátodos e vírus é resolvida através da utilização de porta enxertos tolerantes. Também através de porta enxertos é possível controlar o desenvolvimento vegetativo, a precocidade, a resistência ao frio, ao calor e a tolerância a determinados solos. Dos porta enxertos mais usados na moderna citricultura, citaremos o Poncirus trifoliata, citrino originário da China, cujos frutos não são comestíveis e de folha caduca que imprime as árvores nele enxertadas tolerância à gomose, à tristeza e a alguns nemátodos, resistência ao frio, rápido crescimento e produção de fruto precoce e de muito boa qualidade. Do cruzamento do Poncirus trifoliata com a laranjeira doce obtiveram-se também novos porta enxertos os Citrange a partir dos quais se conseguiram enxertos que se adaptaram muito bem na cultura de diversos citrinos. Descobriram-se ainda linhas de laranjeira azeda tolerantes ao vírus da tristeza e que estão sendo usados com sucesso na Florida e na Austrália. Na luta contra insectos e fungos procura-se reduzir ao mínimo a aplicação de pesticidas. Produz-se uma laranjeira pronta a plantar em menos de um ano, e, quem poderá imaginar o que se estará descobrindo nos laboratórios e viveiros altamente especializados, espalhados pelos países produtores. Os hábitos de frutificação das laranjeiras são bastante diferentes dos das outras fruteiras, no fim do Inverno ou no início da Primavera, surgem pequenos lançamentos na axila das folhas do último Verão que se enchem rapidamente de flores. A floração surge por essa razão na periferia da árvore, o que torna a floração da laranjeira verdadeiramente espectacular. Este aspecto não pode ser esquecido quando se poda esta árvore. A poda da laranjeira deve ser suave, só se deve efectuar quando os frutos já estão vingados embora de pequenas dimensões, ou corre-se o risco de destruir a colheita, mas, não se deve deixar de a praticar, para eliminar os ramos doentes ou em má posição, e, melhorar o arejamento da copa.
A cultura da laranjeira é uma actividade remuneradora e do maior interesse para a humanidade dada a riqueza deste fruto em vitamina C e outros nutrientes, o que justifica a constante investigação que a ela se dedica, e, até os artificialismos para a conseguir cultivar e obter frutos frescos em regiões sem as condições ideais, como os Açores. O sumo de laranja é produzido e comercializado por todos os países grandes produtores, mas não substitui o sabor duma boa laranja fresca.
Raquel Costa e Silva
Bibl. Hartman, H. T. & Kester, D. E. (1983), Plant Propagation. Principles and Practices. Londres, Prentice-Hall International, Inc.: 606-611. Natividade, J. V. (1935), Pomares. Alcobaça, Sindicato Agrícola de Alcobaca: 131. Palhinha, R. T. (1966), Catálogo das Plantas Vasculares dos Açores. Lisboa, Sociedade de Estudos Açorianos Afonso Chaves: 18-20. Pereira, S. A. (1949), A Laranja dos Açores. Boletim da Comissão Reguladora dos Cereais do Arquipélago dos Açores, 99. The New Royal Horticultural Society Dictionary of Gardening (1992).
