lapas
São moluscos univalves da classe Gastropoda e ordem Prosobranchia. Nos Açores as espécies de lapas mais conhecidas são a lapa-brava ou lapa-amarela (Patella aspera) e a lapa-mansa ou lapa-cinzenta (Patella candei), ambas pertencem à família Patellidae, e ambas têm uma importância comercial relativamente elevada na região. Embora persista alguma indefinição taxonómica em relação às espécies existentes na região, actualmente os nomes P. aspera e P. candei são as designações mais aceites. Outra espécie designada por lapa-burra (Haliotis coccinea) é menos comum e menos conhecida, pertence à família Haliotidae, e não têm qualquer importância comercial.
As lapas vivem fixas nos substratos rochosos através de um músculo forte, o pé, que funciona como uma «ventosa», podendo ser encontradas nas costas rochosas das ilhas e ilhéus existentes nos Açores, sendo mais abundantes nas zonas de maior hidrodinamismo e mais oxigenadas do litoral.
As duas espécies de lapas da família Patellidae que ocorrem nos Açores são muito diferentes, tanto ao nível da forma geral e características exteriores da concha, como ao nível da coloração do pé, do habitat preferencial de ocorrência e ainda ao nível de algumas características biológicas. A concha da lapa-brava é normalmente mais espessa, aproximadamente pentagonal com inúmeras estrias na superfície que se projectam no bordo da concha de modo algo irregular, sendo o pé amarelo ou cor-de-laranja. A forma da concha da lapa-mansa que ocorre nos Açores, tem uma forma predominantemente oval, sendo menos espessa do que a concha da lapa-brava, com estrias menos fundas, sendo no conjunto menos irregular e mais suave na superfície. A coloração da concha é acastanhada e o pé é normalmente cinzento ou cinzento-escuro.
A lapa-brava vive predominantemente abaixo da zona entre-marés embora também possa ser encontrada na parte inferior ou em poças da zona entre-marés, não ocorrendo normalmente abaixo dos seis metros de profundidade. Ao contrário, a lapa-mansa ocorre predominantemente na zona entre-marés e mais raramente na zona imediatamente inferior.
Os tamanhos de ambas as espécies é bastante variável, e isso pode depender não só das características ambientais do local mas também, do nível de exploração de uma determinada área. A lapa-brava nos Açores atinge normalmente maiores dimensões do que a lapa-mansa, e o maior indivíduo observado até agora media cerca de 11 cm. O tamanho médio dos indivíduos dentro da mesma espécie varia também consoante o local onde se encontram. Em ambas as espécies, os indivíduos que vivem na zona entre-marés nunca atingem as maiores dimensões daqueles que se fixam nas zonas permanentemente imersas.
Existem também algumas diferenças ao nível da biologia reprodutiva de ambas as espécies. A lapa-mansa não apresenta um período de reprodução muito definido e a primeira maturação ocorre em indivíduos mais pequenos do que os de lapa-brava. Esta última reproduz-se na Primavera, e parece sofrer uma inversão sexual com a idade e tamanho, sendo os indivíduos mais pequenos predominantemente machos e os maiores fêmeas. O hermafroditismo do tipo protândrico (primeiro macho depois fêmea) proposto para esta espécie baseia-se na maior proporção de fêmeas que se observa nos indivíduos maiores. Nas lapas a fecundação é externa, e todo o desenvolvimento larvar até à fixação das lapas juvenis deverá ocorrer até aos 10 dias de vida.
As lapas são reconhecidas como sendo importantes na estruturação das comunidades litorais, porque de certa forma contribuem para regular a cobertura de algas. As lapas alimentam-se de algas, e outros pequenos organismos que possam ocorrer nas rochas, por intermédio de um órgão designado «rádula» que é uma espécie de «língua dentada» que lhes permite raspar na rocha e recolher o alimento. Devido à sua alimentação, é frequente encontrarem-se «territórios» ou pequenas áreas de rocha nua que resultam do «pastoreio» que as lapas fazem numa determinada área vital. Deste modo, na ausência de lapas as comunidades litorais podem ficar alteradas, podendo resultar numa excessiva predominância de algas, o que pode por exemplo dificultar a fixação de lapas juvenis ou outras espécies do litoral, situação esta que pode ser agravada naqueles locais onde se efectuem capturas demasiado intensas.
Antes da década de oitenta, a exploração destes recursos podia considerar-se moderada ou pouco intensa, passando nos anos oitenta a um regime de exploração intensiva pelo menos no caso da lapa-brava (P. aspera). A «apanha» de lapas, na maioria das ilhas, é realizada tanto de um modo recreativo ou para consumo próprio, como para venda, sendo neste caso a captura efectuada maioritariamente por apanhadores profissionais.
Nos anos oitenta a apanha de lapas sofreu um incremento considerável tanto em quantidades capturadas como em valor. Algumas das razões normalmente apontadas por vários autores para este incremento, foram a vulgarização da utilização de equipamento de mergulho, e a melhoria das condições de comercialização e exportação de pescado dos Açores para outros mercados fora da Região, nomeadamente para os E. U. A. e Canadá onde a procura deste moluscos era grande por importantes comunidades de emigrantes açorianos. Em 1985 o valor total de lapas transaccionado nas lotas fez com que estas espécies atingissem o sexto lugar entre todas as espécies de pescado transaccionado nas lotas da região, o que espelha bem a importância que este recurso assume na tradição e cultura gastronómica açoriana.
Desde 1985 até 1993 foram publicados vários diplomas legislativos na tentativa de regular a captura destes recursos e evitar a sua sobre-exploração. Durante alguns anos, a captura de lapas chegou a ser interdita em toda as ilhas, na tentativa de recuperação das populações de lapa-brava, que é a espécie mais procurada mas também a mais vulnerável à exploração. Actualmente a legislação regional que regula a captura de lapas nos Açores contém várias medidas de gestão que inclui entre outras, uma época de defeso (de Outubro a Maio), a delimitação de zonas de não apanha e zonas de apanha condicionada e a obrigatoriedade de possuir uma licença de apanhador profissional e de transaccionar as lapas em lota.
Nos Açores as lapas sempre fizeram parte da gastronomia tradicional, sendo confeccionadas e consumidas de inúmeras maneiras. Ambas as espécies podem ser consumidas vivas sem qualquer preparação prévia, ou então cozinhadas de formas mais ou menos elaboradas. As receitas tradicionais mais comuns são, o Arroz de lapas, as Lapas de Molho Afonso [ver Afonso de Lapas] e as Lapas grelhadas. Gui Menezes
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