lahar
Termo indonésio, introduzido na literatura vulcanológica para designar fluxos lamacentos de origem vulcânica ou desenvolvidos em regiões vulcânicas. Trata-se de enxurradas de água carregada de detritos vulcânicos que se deslocam pelas encostas de um vulcão por acção da gravidade.
A utilização do termo varia consoante os autores. Para alguns é usado exclusivamente para lahares quentes, produzidos em relação com uma erupção. Outros autores designam como lahar todos os fluxos torrenciais que ocorram num vulcão, independentemente de haver ou não actividade eruptiva associada. Nestes casos, um lahar poderá ser desencadeado apenas por precipitação forte ou por um sismo, e deste modo tratar-se-á de um lahar frio. A distinção entre lahares quentes e frios é relativamente fácil de fazer em eventos actuais, mas torna-se muito difícil quando se estudam os depósitos de lahar antigos no registo geológico.
Os lahares são um dos grandes perigos geológicos pois, devido à sua grande mobilidade e poder de destruição, constituem risco elevado para populações residentes no sopé de edifícios vulcânicos. A capacidade de transporte destas massas de água, lama e detritos variados é enorme, apanhando e englobando tudo o que encontra pelo caminho. Quando o lahar abranda, deixa depósitos, que podem ter vários metros ou dezenas de metros de espessura, de uma massa com consistência de cimento. Ao consolidar e perder água pode originar uma camada rochosa tão dura como aquele material. O poder destrutivo destas enxurradas ficou claro no tristemente célebre episódio da erupção de 1985 do Nevado del Ruiz, na Colômbia. A fusão das neves perpétuas do topo do vulcão desencadeou a formação de lahares que atingiram várias povoações na base da montanha, matando 25.000 pessoas na cidade de Armero.
Em geral, este tipo de manifestação pode ocorrer onde existam desníveis acentuados, materiais vulcânicos soltos ou pouco coerentes disponíveis nas vertentes dos vulcões e a disponibilidade de grandes volumes de água (resultante de precipitação intensa relacionada com a orografia ou com uma erupção, proveniente do rompimento de lagos de cratera ou caldeira ou, ainda, em consequência da fusão de neve ou gelo do topo do vulcão).
Os vulcões açorianos também produzem lahares, conhecendo-se depósitos deste tipo em praticamente todas as ilhas. Existem, por exemplo, numerosos afloramentos de lahares antigos na ilha de Santa Maria, em unidades vulcânicas de idade miocénica a pliocénica (5 a 2 milhões de anos). Nas arribas da praia da Fajã da Praia do Norte, na ilha do Faial, pode observar-se uma sucessão de quatro lahares desenvolvidos na sequência da erupção de 1200 BP [Before Present] que originou a caldeira actual. Existem, também, descrições do desenvolvimento destes eventos no decurso de algumas das erupções históricas na ilha de S. Miguel.
José Madeira
