jornalismo cristão

1. Numa anterior entrada, tivemos ocasião de referir como a Diocese de Angra se autonomizou do Funchal e dela ficou a depender todo o arquipélago, com estreita relação com Lisboa. Desde então, as directivas e os pareceres de membros da Igreja surgiam manuscritos e eram da ordem de pastorais dirigidas aos fiéis, bulas e letras romanas que se destinavam a situações mais importantes as primeiras e secundárias as outras; breves, cédulas consistoriais e encíclicas, cartas e avisos. Com o andar dos tempos tudo se modificou. Surgia o jornalismo, propriamente dito, marcando uma franca evolução no modo de tratamento e da divulgação das notícias religiosas e de outras entre as populações locais. Na verdade, o maior campo de acção da crítica e da polémica a ele ficou a dever-se. Embora todas as publicações da parte da Igreja pressuponham a dimensão pastoral, algumas há que, pela sua natureza, porque ligadas à dinâmica religiosa e «de âmbito inter-eclesial», merecem aqui o seu destaque: boletins diocesanos e paroquiais, publicações de carácter catequético ou litúrgico, entre outras. Mas, por falta de organização e unidade de plano, quase todas as publicações periódicas de carácter religioso, tanto diários como revistas, semanários, quinzenais, mensais ou simples folhas e folhetos tiveram vida efémera. O seu surto, conjuntamente com o das memórias deu origem aos periódicos, vulgarmente designados por jornais, publicáveis dia-a-dia ou por períodos mais alargados. No continente, o primeiro data de 1715 e foi a Gazeta de Lisboa. A censura, particularmente austera desde 1750, impediu o desenvolvimento de um jornalismo livre, como o que existia na Inglaterra e na Holanda. 2. O jornalismo surgiu em Portugal, nos Açores particularmente, por três fases, a saber: uma primeira, de acordo com os poderes instituídos, a que chamamos de jornalismo de Estado; uma segunda, em que começa a criticar-se o «situacionismo», mas sob o camartelo da rígida e cruel censura; e uma última que se prefigura democrática, onde é, praticamente, possível, falar, opinar, a favor e contra os poderes da República e dos seus agentes, por vezes, construtivamente, ora para os lembrar que os resultados de dada política não foram os melhores, que os sistemas estavam caducos, o desemprego e analfabetismo não se toleravam, a situação da mulher, dos velhos, dos órfãos, dos mais pobres e indefesos era injustificável, porque desumana; a que se acrescentavam, sobretudo, a guerra, dado que se não entendia e se tinha de suportar sem apelo nem agravo e a saúde por virtude de ser inacessível a todos, porque dispendiosa. Que a culpa era deste ministro, ou daquele, nomeando-se os mesmos, fazendo cair por terra o Presidente do Conselho, depois Primeiro Ministro, se fosse o caso, sem as tremendas consequências da ex-censura que é já um voltar de página. No que respeita à imprensa ligada à Igreja, ela é muito mais branda: criticou, foi condenada e advertida e agora é muito menos permissiva que a sua correspondente laica, intrometendo-se menos nos assuntos políticos e mundanos. É mais retrógrada por não acompanhar os tempos e continuar atenta e colada, sem qualquer opinião crítica, aos princípios dos velhos tempos. Quer dizer: ela progride, mas muito lentamente. Os seus mais avançados críticos, bispos e outros, quando o são, ficam muito bem vistos pela sociedade progressista laica e, sempre, por princípio, mal quistos por parte da instituição de que dependem e, sem dúvida, pelos órgãos do poder central e pelos severos tentáculos da administração. No entanto, será o clero que, ante a admiração generalizada, vai tornar-se o suporte necessário aos comentários a que os jornalistas leigos se anteciparam. Importa, parece-nos, iniciarmos esta entrada, fazendo referência a alguns títulos que, saídos nos vários bispados do continente, chegaram aos Açores, pela importância que tinham para os diocesanos locais. 3. Foram vários os periódicos onde elementos do clero açoriano participaram activamente, no exterior e nas ilhas. Na revista Instituições Cristãs, criada como órgão da Academia de S. Tomás de Aquino do Seminário de Coimbra, pelo cónego micaelense Dr. Prudêncio Quintino Garcia, este deixou comentários interessantes à vida do país. Com as Folhas Soltas, lançou-se uma cruzada em favor da imprensa e de diversos opúsculos que, na opinião dos activistas católicos, aquela não era um simples meio de combater o erro, mas «o modo mais universal, mais fácil e mais eficaz de educação, de expansão comunicativa e de sociabilidade». A nível do episcopado, foram muito variados os impedimentos que dificultaram o aparecimento de publicações periódicas próprias, apesar dos esforços que visavam o sentido da criação de órgãos diocesanos, a partir de 1870. É o caso do Boletim do Governo Ecclesiastico da Diocese dos Açores, de 1877 a 1878. Na Revista Micaelense, o padre António José Lopes da Luz, nascido em S. Miguel, publicou uma Monografia acerca dos Ginetes, Várzea e Sete Cidades (1848). O padre micaelense João José do Amaral foi redactor de O Cartista dos Açores, um semanário político que começou a publicar-se, com objectivos de ordem cívica, em 27 de Fevereiro de 1845, terminando em 14 de Novembro de 1850: foi principalmente redigido por João José de Andrade (o mesmo de O Monitor); depois António Marcelino da Vitória, secretário geral e o referido padre em 1845. Interrompeu a publicação pela primeira vez desde Julho de 1846 até 26 de Agosto de 1847 e, pela segunda, desde o n.º 141, de 30 de Janeiro de 1849 até 2 de Agosto do mesmo ano. O deão Narciso António da Fonseca publicou o «Sermão fúnebre, pregado nas exéquias de D. Maria II – Memória justificativa – Reflexão importante, rectificação a um artigo publicado por Bernardino José de Sena Freitas» (1857). E dirigiu os jornais Íris da Terceira e Clarim Terceirense, tendo ainda intervindo no Sentinela Constitucional. Foi neste ainda colaborador o padre António Joaquim Borges a quem ficou a dever-se o papel de redactor principal do Onze de Agosto. Eis, com efeito, o primeiro jornal da Praia, a par do Eco Praiense (1868-1871), ambos dirigidos pelo padre José de Medeiros Brito. Anos depois, o padre António de Amaral e Melo faria uso da revista micaelense A Civilização (1878), a fim de dar a conhecer o Relatório do Presidente da Sociedade de Beneficência Eclesiástica Micaelense, relativo ao ano de 1878, de sua autoria, publicado no n.º 150. Também o padre João de Aguiar Valadão, da ilha Terceira, em finais do século XIX, colaborou em O Católico e na Trombeta Açoreana. De O Católico era redactor o cónego Francisco Rogério da Costa, jornal onde também colaboraram os padres terceirenses José Bernardo Corvelo e José Bernardo Mendes. Este último, batido na matéria, participaria da organização e na colaboração de um jornal do Brasil, onde se fazia ouvir a voz dos religiosos das ilhas. Na Trombeta Açoriana, o padre Joaquim Machado Corvelo, beneficiado e depois cónego da Sé de Angra, irmão de o colaborador de O Católico, assinou múltiplos artigos de muito boa qualidade. Para este periódico, trabalhou igualmente o padre José Bernardo Mendes – foi redactor do semanário A Defesa de Ponta Delgada, cuja publicação durou de 6 de Dezembro de 1884 a 3 de Janeiro de 1885. Em 1888, o padre Manuel Francisco Fernandes, natural da ilha do Pico, fundou o primeiro jornal que apareceu na Califórnia, nos Estados Unidos da América, a 26 de Maio, depois de ter cursado Teologia no Seminário da Mission S. José de Santa Bárbara, vindo a ser ordenado pelo arcebispo de Riordan. O jornal era conhecido sob a epígrafe O Amigo dos Católicos, o qual mudou o título para O Arauto e depois para Jornal Português. Os Anais da Propaganda da Fé começaram a publicar-se em 1822. Conheceu-se um primeiro vol., de 1822 a 1825 e um segundo, de 1826 a 1827. A Nação, órgão do partido político de D. Miguel, deu-se à estampa a 15 de Setembro de 1847. A União Católica, jornal oficial do arcebispado de Braga, estendeu-se às ilhas, saindo o seu primeiro número, numa sexta-feira, 28 de Maio de 1875 e o último na quarta-feira, a 5 de Maio de 1886. A Voz de Santo António, órgão oficial também do arcebispado de Braga, era uma revista mensal ilustrada, redigida por religiosos franciscanos, vivendo de 1895 a 1909. Teve colaboradores micaelenses, entre vários outros, lidos com interesse nas ilhas açorianas. Mas foram sempre os grandes e graves problemas políticos que misturaram a Igreja com o Estado, nas notícias críticas com que avançavam sobre o público. A 22 de Junho de 1828, deu-se em Angra a revolta liberal, contra o governo de D. Miguel. D. Fr. Estêvão de Jesus Maria (1827-1870), 27.º bispo de Angra, através de uma pastoral, com data de 7 de Março de 1829, reprova acerrimamente essa revolta, contra o «amabilíssimo Soberano e Senhor D. Miguel». Por outro lado, recomendavam-se «o amor e a submissão aos legítimos Soberanos, Senhor D. Pedro IV e à Senhora D. Maria II, Sua Augusta Filha e nossa Amada Rainha». D. Pedro resolveu proclamar a independência do Brasil (Ipiranga, S. Paulo, 7 de Setembro de 1822). Em Abril de 1823, restaura-se o absolutismo em Espanha e, um mês mais tarde, em Maio, em Portugal, após a Vila Francada. D. Pedro, sucessor de D. João VI e imperador do Brasil, abdicou em nome de sua filha D. Maria da Glória, com 7 anos de idade, sob a condição de a mesma vir a casar com o seu tio D. Miguel, ao qual era confiada a Regência do Reino. Foi, então, que D. Miguel jurou a Carta Constitucional, e realizou os esponsais com a sobrinha. Vindo de Áustria e regressado ao País, o Infante jurou, de novo, fidelidade a D. Pedro e a D. Maria II, tal como à constituição. Dissolvidas as Cortes, e nomeadas outras por classes, começava a guerra civil no continente. D. Pedro morre em 1834 e D. Maria II atingia a maioridade aos 15 anos. Esta situação política, ou melhor, parte dela, vem a ser já noticiada pela imprensa açoriana que é instalada em Angra, em 1829, começando logo a produzir os seus efeitos. Por exemplo, o Peregrino de Lourdes, fundado e dirigido por monsenhor cónego Dr. António Maria Ferreira, embora não fosse natural dos Açores, fundou e dirigiu-o, além de o semanário O Católico. A 29 de Março de 1900 faz a descrição da solenidade das exéquias do bispo D. Fr. Estêvão de Jesus Maria, muito pormenorizadamente, onde colaborou o cónego picoense José de Medeiros Amaral. Sucedeu-lhe o 28.º bispo, D. João Maria Pereira de Amaral e Pimentel (1872-1889). A ele ficou a dever-se, dentro do tema em questão, o despacho de uma circular, a 9 de Setembro, a anunciar a publicação do Boletim Eclesiástico dos Açores, como órgão do governo diocesano «para que a sua voz se faça ouvir com regularidade e possível prontidão, até às últimas extremidades das diferentes ilhas». Era hábito da parte do bispo recomendar ao clero os bons livros que as livrarias católicas iam editando, fazendo-lhes mesmo a devida apreciação que publicava no referido Boletim, datando a primeira nota de 13 de Outubro de 1876. Simultaneamente, saem O Atleta – folha angrense satírica, democrática e noticiosa que se dedicava a combater o «ultramontanismo». O seu redactor fora José Augusto de Sampaio Júnior e o n.º 1 data de 30 de Novembro de 1879. Suspende a publicação com o n.º 190, em Outubro de 1883 para continuar em 25 de Fevereiro de 1885, vindo a terminar, definitivamente, com o n.º 221, de 27 de Outubro de 1885, com a publicação de cartas e notícias eclesiásticas – e o Liberdade, de Vila Franca do Campo. A anteceder este, surgiu o Liberdade (1.º), folha política semanal micaelense, cujo redactor foi Augusto de Melo Azeredo, e os editores, Francisco Jácome Correia, Francisco Moniz de Medeiros Pontes, Augusto Pereira de Aguiar e José Moreira Velho de Melo Cabral. O n.º 1 foi publicado a 29 de Março de 1873 e veio a terminar com o n.º 26, de 21 de Setembro de 1873. Com o mesmo título, saía A Liberdade (2.ª), uma folha política, literária e noticiosa, com o seu n.º 1, datando de 12 de Outubro de 1878, de Vila Franca do Campo, e continua, em 1886, tendo sob o seu título a indicação de que se tratava de uma «Folha Villa-Franquense, política, literária e noticiosa». O proprietário responsável era João Jacinto Botelho e contou com a colaboração assídua do padre Jacinto José de Medeiros. Publicou também em A Voz do Povo. Em Junho, D. João Maria manda que se publique a encíclica Humanum Genus de Leão XIII, acerca da Maçonaria, juntamente com uma pastoral em que, com a Igreja, condena as associações secretas. Teve pouca sorte, pois foi de imediato censurado por Lisboa, por ter dado publicação à encíclica «que não havia obtido o beneplácito régio, em Portugal». O ministro, sentindo-se num meio em que dominava a Maçonaria publicou em O Atleta, uma carta insultuosa e ímpia contra o Prelado e o clero angrense. O povo estava com o bispo. As dioceses de Leiria e Bragança, onde D. João havia trabalhado e ainda as de Braga, do Funchal e do Rio de Janeiro estiveram também do seu lado. Idênticos protestos fizeram vários jornais do continente: A Nação, A Ordem, Cruz e Espada, A Palavra, o Progresso Católico, o Mensageiro do Coração de Jesus, o Comércio do Minho e O Lusitano (órgão noticioso do Patriarcado de Lisboa). Era para isto mesmo que o jornalismo servia: digladiarem-se uns aos outros, formando partidos dirigentes dos órgãos de comunicação de um lado e do outro. Com este tipo de guerras, tornava-se possível entender melhor as questões e promover-se a independência do pensamento acerca de matérias muito importantes para a vida do Estado e do Povo. Como este mesmo bispo se houvesse dirigido, numa das suas pastorais, de Março de 1874, escrevendo e falando do púlpito para adultos e crianças, de modo infantil, poético e considerado ridículo, descrevendo o Paraíso com todos os seus compartimentos e o que podia ver-se em cada um deles, e sem que nisso pudesse haver nada de científico e palpável, o Povo já acostumado a novos métodos de difusão das ideias e destas noutra ordem de grandeza e precisão, pelo Correio da Terceira, dirigido por António Moniz Corte-Real, criticou-o frontalmente. Este periódico constava de uma folha política mensal, redigida pelo dito Corte Real, cujo n.º 1 saiu a 29 de Janeiro de 1874. O seu objectivo principal foi provocar a extinção do Tribunal da Relação nos Açores e terminou com o 4.º suplemento ao n.º 26, de 25 de Outubro de 1877. Mas Angra não se fez esperar: dois anos depois, a um expresso ataque do liberalismo à vida e acção da Igreja, protestou a opinião católica da cidade. Fundaram, então, o semanário Ideia Nova – uma folha do partido liberal que advogava a ideia da separação dos Açores. O seu redactor era Augusto Ribeiro, o n.º 1 saiu a 9 de Agosto de 1876 e veio a terminar com o n.º 107, de 24 de Outubro de 1878, a fim de hostilizar os religiosos mais ferrenhos designados de «os Lazaristas» dos Açores. E a guerra estalou. Os ataques de parte a parte, em nome da sociedade, em geral, ao governo e deste ao «Jesuitismo», «Ultramontanismo», «Lazarismo» ou «Vaticanismo», mereciam os aplausos da Maçonaria e os apupos da Igreja que se não revia em nada disto. A clerezia reagiu severamente contra o Ideia Nova, através de O Católico, dirigido pelo padre Francisco Rogério da Costa, seu redactor, como vimos, de colaboração com o padre António Maria Ferreira (entre outros) – folha consagrada a todos os interesses religiosos e sociais, cujo primeiro número saiu a 21 de Outubro de 1876, terminando a 26 de Junho de 1878, mas tendo uma 2.ª série com o n.º 61, de 21 de Outubro de 1880 e, continuando em 1886, reage contra o jornal referido. Mas o Ideia Nova não fora o único e outros seguiram-lhe as pisadas na campanha contra o bispo e os «Vaticanistas», aquecendo a atmosfera liberal e anti-clerical do meio, a saber: 1) o Diário da Terceira (1878), dirigido por Mateus Augusto – com o primeiro número, de 1 de Junho de 1878, fechando com o n.º 41, de 26 de Julho do mesmo ano – ; 2) O Chicote – folha popular, cujo redactor, proprietário e editor foi António Joaquim Teixeira Júnior, com o seu n.º 1, de 5 de Maio de 1878, terminando com o n.º 7, a 25 de Agosto desse ano – ; 3) O Protesto, de oposição ao governador civil Conde da Praia da Vitória e cujo redactor foi o Dr. José Augusto Nogueira Sampaio, com o seu n.º 1, publicado a 10 de Novembro de 1877, terminando com o 2.º suplemento ao n.º 11, datado de 8 de Fevereiro de 1878; 4) A Ronda, folha satírica, com o n.º 1, de 2 de Fevereiro de 1878, em que, no n.º 3, se diz «Folha dedicada a advogar os interesses do povo e a condenar os abusos do poder». Terminou com o suplemento ao n.º 9, de 8 de Maio desse ano – este jornal de política progressista andava em acesa polémica com A Sentinela, defensora da política regeneradora. A Sentinela pode considerar-se a Crónica dos Açores. O seu redactor foi Augusto Ribeiro, de violenta oposição ao 2.º Conde da Praia da Vitória e cujo primeiro número data de 1 de Janeiro de 1878, terminando com o 3.º suplemento ao n.º 1, em 8 de Fevereiro seguinte.; 5) O Atleta (1881); 6) O Alerta (1881); 7) A Borboleta, folha semanal e noticiosa, cujo redactor responsável fora José Copertino Diniz Ormonde, cujo n.º 1 data de 27 de Março de 1884, terminando a 5 de Junho de 1886. Este jornal foi substituído pela Escôva, uma folha semanal e enciclopédica, cujo n.º 1 pode ser lido desde 30 de Dezembro de 1886. Era, então, chegada a altura de D. João difundir no Boletim, e depois em opúsculo, uma pastoral contra os impiedosos excessos da Imprensa, em geral. E os «insultos» de cá e de lá não pararam. Inclusivamente A Ventosa, jornal satírico micaelense em prosa e em versos – propriedade de José Maria Teixeira, com o seu n.º 1, saído a 9 de Junho de 1882 e fechando a 3 de Junho de 1883 – no seu n.º 195, publicou um artigo, onde se afirmava que o bispo tinha sido «venerável» de uma loja maçónica em Coimbra, quando estudante na Universidade. No Conimbricense, a 9 de Setembro de 1884, pediu-se a publicação do desmentido e que se retratasse o autor daquele. As cartas vieram depois a ser inseridas num número de O Católico. Nesse mesmo ano, sai o semanário republicano A Evolução, 1.ª série, redigido pelo padre picoense José Betencourt Cardoso. O Peregrino de Lourdes iniciou a sua publicação a 24 de Outubro de 1887 e, nos números 3 a 6, sustentou uma polémica com João José de Aguiar, redactor de O Atneu, acerca da irresponsabilidade dos criminosos. Dos números 13 a 27, outra disputa travou o bispo acerca dos milagres de Lourdes, culto das imagens, sobre a bula e as indulgências, com A Evolução. Este semanário republicano teve duas séries: uma 1.ª, cujo n.º 1 saiu a 20 de Junho de 1884, até ao n.º 23 e uma 2.ª série que saiu em 3 de Dezembro de 1885, com a imagem da Liberdade. Por motivos políticos, dois padres, Francisco Pereira e Bernardino Araújo, da Graça, tidos como ilustrados e exemplares, foram expulsos da diocese, «sem prostergar os sagrados princípios da Justiça e da boa razão e sem ofender a liberdade individual e da consciência». Mas o governador civil não o entendeu assim e o Peregrino de Lourdes, no seu n.º de 234 de 1901, relatou todo o processo que veio a molestar, com o seu eco, as entidades civis mais importantes. Foram, por consequência, mandados para Lisboa. O Peregrino informa o sucedido a 30 de Abril e o Correio Nacional desfazia as calúnias contra os jesuítas. No governo do 32.º bispo de Angra, D. José Correia Cardoso Monteiro (1905/1910), nesse primeiro ano, foi levantada uma campanha contra as religiosas de S. José de Cluny, enfermeiras do Hospital Civil de Angra. O ataque foi dirigido por O Tempo, semanário político micaelense, da propriedade de Francisco Jácome Correia que era também o seu editor, com o primeiro número saído a 24 de Novembro de 1876, terminando com o suplemento ao n.º 27, de 24 de Junho de 1877. Na defesa estiveram O Peregrino de Lourdes de monsenhor cónego Dr. Ferreira; A União, de Vieira Mendes, órgão do Partido Progressista, folha semanal dedicada a todos os interesses sociais, editado por J. Melo e Simas, cujo n.º 1 saiu a 6 de Junho de 1878, prosseguindo em 1886; O Imparcial de Frederico Lopes, semanário angrense, com o seu primeiro número, de 9 de Agosto de 1876, e terminando com o n.º 4, a 9 de Setembro do mesmo ano. E depois o Correio dos Açores, do cónego Araújo. Este jornal iniciou a sua publicação em Março de 1908, sob a direcção do secretário do prelado e com a aprovação deste, deixando de existir O Peregrino de Lourdes, fundado em 1887. Poucos anos mais tarde, na capital do «Império», o sistema governativo dera origem ao chamado rotativismo, não sendo necessário muito tempo, para que este viesse a desacreditar-se. Em sucessivas eleições, os republicanos viam crescer o número dos seus representantes, capazes de começar a fazer frente aos monárquicos instalados. Nos Açores havia já jornais republicanos de influência continental e, por isso, nada do que se passava em Lisboa, ou se planeava contra a Monarquia era ignorado nas ilhas. Ante o mal-estar por que este sistema passava, agravando-se de dia para dia, o rei D. Carlos chamou para o governo João Franco (17 de Maio de 1906). O «Primeiro Ministro», recentemente designado, não obstante ter prometido a liberdade da Imprensa e a descentralização administrativa, encerrou a sessão legislativa (12 de Abril de 1907) e entrou-se em ditadura. Foi resolvida em regime ditatorial a questão dos adiantamentos à Casa Real. Já antes, Rafael Bordalo Pinheiro criticava, com os seus cartoons, a administração. Valença seguira-lhe os passos. Leal da Câmara compunha o rei obeso com a forma de uma abóbora e um chapéu à Mazzantini, com os seus ministros lado a lado e escrevia: «Eis a Corja!». O Assiette au beurre em Paris retractava, ridiculamente, a situação portuguesa, tendo antes acontecido o mesmo com A Marselhesa. A censura e o polícia de bastão e «bigodes façanhudos» nada podiam fazer em Madrid, nem em Paris. A situação estava muito mal resolvida e os novos tempos precipitavam-se com uma celeridade nunca vista. Todos estes factos causavam reacções contrárias mas era já grande o número de descontentes. Luciano de Castro, numa entrevista dada ao jornal O Mundo afirmava: «Entrou-se em período revolucionário!». E Júlio Vilhena, novo chefe do Partido Regenerador que encontrara eco em S. Miguel e na Terceira, escrevia: «Isto tudo acaba numa revolução ou num crime!». Os Açores estavam diariamente atentos às notícias via rádio e aos jornais da capital que chegavam com atraso. Os comentários das folhas sucediam-se. O padre Manuel António Botelho, de S. Miguel, da freguesia da Ribeira Seca, saiu-se em O Correio Micaelense, o 4.º que, com este título, se publicou em Ponta Delgada, a defender a política de João Franco. Batendo também estas últimas teclas, entre 1890 e 1929, o padre Manuel José Alves, de Santo Amado, da ilha de S. Jorge, reportava, timidamente, no semanário S. Jorge que teve início a 4 de Janeiro de 1907 para vir a findar em 13 de Dezembro de 1910: foi, no entanto, vítima de perseguições e processos judiciais. A par, contamos, em igualdade de circunstâncias, com o padre Manuel Jacinto Brasil Andrade, de Vila Franca do Campo que colaborou com A Liberdade e o Autonómico. Mais moderado foi o padre José de Sousa Pereira de Santa Bárbara da Terceira que, por isso, ficou sendo redactor e secretário de redacção do angrense Correio dos Açores, ao ser nomeado beneficiado coadjutor da Sé da cidade. Colaborador deste pela mesma data, contamos com o cónego Dr. João Pereira Dâmaso da Ribeira Grande da ilha de S. Miguel. Dirigiu A Verdade, nos seus primeiros tempos. Seguiu-lhe os passos, um outro cónego, desta feita, o Dr. Luís Coelho de Barcelos, das Lajes da Terceira, que colaborara em O Católico e no Peregrino de Lourdes. Mais um que ficou célebre pelo seu espírito irrequieto mas que, infelizmente, se foi regenerando, perdendo muito do seu interesse pela intrínseca característica de contestatário que foi abrandando, foi o padre Manuel José Sequeira, da ilha de S. Jorge que colaborou em jornais de Angra e da sua ilha natal. Foi muito apreciado um folhetim que fez para O Dever, sob o título Flor de Nicomédia, acerca da vida de Santa Bárbara, padroeira da freguesia de Manadas. Se desmultiplicássemos os casos – nomes e suas respectivas participações – estaríamos a falar de 60% dos religiosos da Diocese de Angra e de mais de um milhar de trabalhos em quase duas centenas de jornais e folhas. 4. A 1 de Fevereiro de 1908, o rei e o herdeiro do trono eram, vilmente, assassinados. O regicídio provocou as reacções mais diversas, passando pelo temor e o horror que iriam passar-se de seguida. Os jornais não falavam de outra coisa. E a 5 de Outubro de 1910, implantava-se o sistema republicano e a família real restante era expatriada da Ericeira para Inglaterra. A imprensa açoriana expandiu-se de tal modo que soube enfrentar os factos que se sucederam a posteriori, com o mesmo poder crítico, olhando o passado e pensando como, em Lisboa, se não acreditava que algo tivesse mudado alguma coisa... A rádio, a televisão e os jornais cada vez em maior número e em regime sucedâneo não se calavam e choviam críticas à Polícia Política, ao regime salazarista, à ditadura marcelista, aos ministérios que muito pouco haviam feito pelas famílias, para mais tendo de sustentar-se uma guerra com África que parecia não ter fim. Mas os Açores, pelas notícias que vieram a lume mais tarde, após o 25 de Abril e os primeiros tempos de euforia, pareciam desacreditar de novo o regime implantado. A abolição da censura não alimentava os pobres. E o dinheiro e outros meios não tinham forma de chegar ao arquipélago e às suas gentes tão sacrificadas. O certo é que a Imprensa encurtou as distâncias entre as ilhas e o continente e entre as ilhas e o resto do Mundo. Jornais, rádio e televisão não dispensaram nunca, nos debates que organizavam e transmitiam, em directo ou em diferido, nem os impressos a presença de um religioso que cada vez mais se apresentava com ideias renovadas, capaz de emparceirar com os revolucionários, como, aliás, sempre aconteceu, lá e por cá. João Silva de Sousa

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